Pages

Covid: por que é irresponsável reabrir as cidades agora

Rio já fala em dispensar as máscaras. Regressão da pandemia é real, mas casos de outros países mostram: Brasil, com vacinação incompleta, pode ser alvo fácil da variante delta. E mais: o que o choro do reverendo Amilton na CPI tenta encobrir



De OUTRASAÚDE, 4 de Julho 2021


CRIANÇAS E IDOSOS

Um estudo da Fiocruz, ainda em fase de conclusão, aponta que as internações de idosos por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) vêm crescendo de novo no Rio de Janeiro, após cerca de quatro meses de queda. Os gráficos mostram um aumento mais preocupante para os maiores de 80 anos, que têm um número de internações hoje próximo ao dos picos anteriores à vacinação. A análise também mostra aumento nas internações de crianças entre zero e nove anos, que estão no pior momento desde o início da pandemia. O estatístico Leonardo Bastos, autor do trabalho, diz que retomadas semelhantes para as mesmas faixas etárias estão em curso em São Paulo, mas em menor escala.

Se por um lado isso preocupa, por outro há também dados que trazem alívio: o aumento nas hospitalizações não se reflete nos óbitos. Para as crianças pequenas, as mortes estão semelhantes às observadas imediatamente antes da pandemia. Para os maiores de 80 anos, seguem estáveis num patamar semelhante ao observado entre julho e outubro de 2020 (que foi um período de baixa entre as duas ondas).

As explicações sobre a alta nas internações e a baixa nos óbitos não estão fechadas, e diferem dependendo da faixa etária analisada. Para crianças, Bastos acredita que podemos estar diante de infecções por outros vírus que costumam afetar a faixa dos 0 a 9 anos de idade e que estão camufladas pelo SARS-CoV-2.

“Vamos supor que uma criança dê entrada no hospital com SRAG causada por outro patógeno, mas também esteja infectada com o coronavírus. Ou seja, ela teve uma segunda infecção. Nesse caso, não se trata de uma SRAG causada por covid, e sim de uma SRAG em pessoa com covid confirmada. É uma possibilidade que levantamos tendo em vista que o padrão de aumento registrado nessa faixa etária não se repete entre outros grupos de menores de idade, como o de 10 a 19 anos”, explica, n’O Globo.

No site da Fiocruz, ele completa que a alta demanda nos laboratórios tem levado a se testar primeiro para covid-19 e, dando positivo, não se fazem testes para outros vírus que provocam doença grave nas crianças pequenas.

Quanto aos idosos, uma hipótese é que muitos estejam se descuidando após a vacinação, aumentando suas chances de contrair o vírus. Outra é que os casos estejam se concentrando entre quem não tomou as vacinas. Os números também podem refletir a perda da proteção dos imunizantes ao longo do tempo – a alta veio antes nos maiores de 80, que se vacinaram primeiro, semanas depois nos septuagenários, então nos sexagenários. Há também a possibilidade de a alta ter a ver com a baixa proteção da CoronaVac para maiores de 80 anos, que foi observada recentemente em outra pesquisa. Essa foi a vacina tomada por grande parte dos idosos dessa faixa. Seja qual for a explicação, a manutenção das mortes num nível baixo é uma boa notícia, e é preciso ver o que acontece daqui por diante: “Pode ser que as vacinas sejam mais eficazes em evitar óbitos, ou que essas pessoas hospitalizadas que vemos agora ainda não tenham morrido”, pondera o autor, na Folha.

AINDA AS CRIANÇAS

A covid longa é rara em crianças e adolescentes, segundo um estudo britânico publicado ontem no Lancet Child & Adolescent Health. Os pesquisadores analisaram 1,7 mil pessoas de cinco a 17 anos que haviam testado positivo para o vírus e manifestado sintomas. Na maioria dos casos, elas melhoraram após seis dias, em média. Só 4,4% tiveram sintomas por mais de quatro semanas, e 1,8% por mais de oito semanas.

Crianças com teste negativo para coronavírus mas com outras doenças respiratórias, como resfriados, ficaram doentes por em média três dias, e 0,9% tiveram sintomas por mais de quatro semanas.

RÁPIDO AVANÇO

No estado do Rio, a variante Delta cresceu 50% em apenas dez dias e já atinge um em cada quatro infectados. Em 23 de julho, o boletim da secretaria de Saúde mostrava que ela respondia por 16% dos registros, contra 78% da Gama. No de ontem, os números eram 26% e 66%, respectivamente.

O percentual de vacinados no estado está próximo ao do país como um todo: cerca de 48% da população tomou alguma dose de vacina e 20% estão com o esquema completo. Isso é muito pouco para controlar uma forte onda da Delta, como os Estados Unidos vêm demonstrando dia após dia. Sabemos que o boom de casos e hospitalizações por lá é impulsionado por quem ainda não foi imunizado – o epidemiologista Anthoni Fauci, conselheiro da Casa Branca, chegou a chamar a situação atual de ‘pandemia dos não-vacinados‘. E, mesmo que o país esteja com uma cobertura muito acima da brasileira, o estrago está sendo grande, com estados voltando a enfrentar falta de leitos.

Olhando para o Rio, parece que o plano de reabertura completa da capital não poderia vir em pior hora. O prefeito Eduardo Paes (PSD) anunciou um ano de festas começando agora em setembro, quando serão liberados eventos em espaços abertos e, para vacinados, a presença em boates e similares. A expectativa é eliminar a obrigatoriedade de máscaras já em novembro (exceto no transporte público e em estabelecimentos de saúde), caso a vacinação esteja avançada.

Mesmo que mais adiante seja preciso voltar atrás nesses planos, a mensagem dada agora, no anúncio, é a de já estamos quase no fim do pesadelo – o que não é necessariamente verdade. Essa mensagem, por si só, já tem potencial para mudar comportamentos e, de quebra, gerar danos.

“É algo completamente especulativo e contraproducente. É desestimulante para as pessoas se protegerem. A comunicação tem que ser adequada com a população. Fazer a comunicação informando que em breve vamos estar livres de máscara e tudo vai voltar ao normal é uma mensagem errada. Estamos ganhando algumas batalhas, mas a guerra está longe de ser vencida”, diz Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, no UOL.

NEM CHORO, NEM VELA

Imagine a seguinte situação: alguém envia um e-mail ao Ministério da Saúde. Na mensagem, solicita uma audiência no mesmo dia, para dali a quatro horas. O endereço eletrônico está errado, mas mesmo assim a pessoa vai até a pasta e é atendida por um de seus secretários mais importantes na pandemia.

Pois esse alguém é Amilton Gomes de Paula, e essa situação aconteceu no dia 22 de fevereiro quando Arnaldo Medeiros (Vigilância em Saúde) o recebeu para tratar de “vacinas”. A título de comparação, a Pfizer ficou meses sem resposta, tendo 53 e-mails ignorados pelo governo.

O “reverendo”, contudo, negou ontem à CPI que tivesse contatos no ministério ou no Palácio do Planalto para facilitar-lhe o acesso.

Ao menos outros três encontros com autoridades dentro do ministério se seguiram – e o pano de fundo dessa história você já sabe qual é: a oferta de 400 milhões de doses da vacina comercializada apenas com ONU e governos pela farmacêutica AstraZeneca, feita por uma obscura empresa dos EUA chamada Davati e intermediada por estranhos mercadores, dentre eles um policial militar que acabou denunciando à imprensa que o negócio envolvia interesses outros: uma propina de 1 dólar supostamente pedida pelo então responsável pela compra de insumos no Ministério da Saúde, Roberto Dias.

Foi Amilton Gomes de Paula quem encaminhou ao ministério a oferta da Davati. O valor por dose mudou de US$ 10 para US$ 11. Os senadores suspeitam que esse aumento está relacionado à propina.

Nas trocas de mensagens entre Gomes de Paula e o PM Dominguetti, o reverendo dava a entender que tinha contatos quentíssimos no governo. Sempre dando notícias sobre o desenrolar das negociações, afirmou que a primeira-dama tinha “entrado no circuito” e disse que esteve no dia 15 de março com “quem manda” – que seria o presidente Jair Bolsonaro.

Mas no depoimento à comissão, onde esteve o tempo todo orientado por um advogado, ele mudou de ideia e afirmou que tudo não passava de “bravata”.

Mas o fato é que Amilton Gomes de Paula deve ter sido apontado como intermediador entre a Davati e o governo federal por alguma razão, certo? Fotos suas com o senador Flávio Bolsonaro e com a ministra Damares Alves não ajudaram a construir a imagem de alguém que caiu de paraquedas na Esplanada. À CPI, ele afirmou ter sido “usado” para facilitar o acesso da empresa ao ministério. Ora, só se usa quem tem utilidade… “Entendemos que fomos usados de forma odiosa para fins espúrios e que desconhecemos”, disse o reverendo.

O reverendo admitiu que, se o contrato fosse fechado, a Davati tinha prometido uma “doação” à Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah), organização fundada por ele – e que, ao contrário do que o site diz, não tem conexões com a ONU ou a CNBB. Gomes de Paula também reconheceu que tem uma dívida ativa de quase R# 30 mil com a União.

O governo Bolsonaro não se esforçou para defender o reverendo: “Não sei se vossa senhoria foi enganada, ludibriada ou se é parte de uma tríade de golpistas”, disse o governista-mor Marcos Rogério (DEM-RO). Depois da fala, Gomes de Paula caiu em prantos, pediu perdão e disse estar arrependido.

“O senhor chorou e se arrependeu do quê?“, questionou o presidente da CPI, Omar Aziz. “De ter estado nessa operação das vacinas”, respondeu o reverendo.

“Amilton Gomes de Paula é um consultor que não sabe explicar como atua sua consultoria. Não sabe direito o telefone dela. Um pastor evangélico formado na Assembleia de Deus, representante da Igreja Batista e com o título de reverendo concedido pela Igreja da Unificação do sul coreano Sun Myung Moon, que admite mentir, mesmo diante de uma série de documentos que o contradigam. É também um empresário, que afirma atuar no ramo de projetos de resíduos sólidos, mas não demonstra um só trabalho que tenha concluído. É um missionário que se apresenta como representante de várias instituições, que nenhuma o reconhece como seu membro. Presidente de uma ONG registrada na área da educação e produção cinematográfica, mas que negocia vacinas. É um bolsonarista, que parece ter sido abandonado pelo governo Jair Bolsonaro, ainda que tenha se esquivado de responder quais são suas conexões com o Ministério da Saúde”, resume magistralmente Afonso Benites, no El País.

BARROS SIM, BRAGA NETTO NÃO

Antes do depoimento, os senadores aprovaram 130 requerimentos. E, afinal, passou a quebra de sigilos telefônico, telemático, fiscal e bancário do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR). Já o pedido para convocação do ministro da Defesa, general Braga Netto, foi retirado da pauta.

HOJE

Nesta quarta, a CPI ouve o ex-diretor de logística do Ministério da Saúde, coronel Marcelo Blanco.

PIXULÉ

Vazaram depoimentos no inquérito da Polícia Federal que investiga se Bolsonaro prevaricou, ou seja, não tomou providências ao ser informado sobre as supostas ilegalidades no contrato com a Precisa Medicamentos.

Segundo O Globo, o deputado Luis Miranda (DEM-DF) relatou ter ouvido poucas e boas de Eduardo Pazuello. O ex-ministro da Saúde teria reclamado de pressão feita pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), para liberar os tais “pixulés”.

“No final do ano, eu tomei uma pressão tão grande que eu não sei exatamente, entendeu, como resolver”, teria dito o general ao deputado, e na sequência afirmado: “o Arthur Lira botou o dedo na minha cara e falou assim: ‘Eu vou te tirar dessa cadeira’. (…) É aquela história lá que eu falei, o negócio do tal do pixulé”.

O Lira reagiu. Em nota enviada à imprensa, disse que que Miranda terá que responder por suas afirmações no Conselho de Ética da Câmara.

Também em depoimento à PF que veio à tona ontem, o dono da Precisa, Francisco Maximiano, saiu-se com essa: “foi orientado” a telefonar para o servidor Luis Ricardo Miranda, irmão do deputado. Mas não se lembra de quem o orientou. O empresário argumentou que a ligação para um funcionário da área técnica não significou pressão pelo avanço das negociações.



Maíra Mathias e Raquel Torres
Maíra Mathias e Raquel Torres são editoras do Outra Saúde.


Nenhum comentário:

Postar um comentário