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A ‘Guerra Eterna’ beneficia os afegãos? Siga o dinheiro

Do Brasil 247, 26 de Agosto 2021
Por Pepe Escobar, para o Asia Times, Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais


Quem comprou ações da Lockheed Martin, da Northrop Grumman, da Raytheon e de outras empresas do setor de defesa dos Estados Unidos ganhou uma nota preta

Pessoas carregam bandeira do Afeganistão durante protesto em Cabul 19/08/2021 REUTERS/Stringer (Foto: Stringer/Reuters)

Depois de 20 anos e estarrecedores 2,23 trilhões de dólares gastos em uma "guerra eterna" insistentemente narrada como promoção da democracia e proteção do povo afegão, é legítimo perguntar que resultados o Império do Caos tem para mostrar.

Os números são desastrosos. O Afeganistão continua sendo a sétima nação mais pobre do mundo: 47% da população vive abaixo da linha da pobreza, segundo o Banco de Desenvolvimento Asiático. Nada menos que 75% do orçamento do agora dissolvido governo de Cabul provinha de ajuda externa. Segundo o Banco Mundial, essa ajuda foi responsável por 43% da receita da economia - sugados pela corrupção maciça do governo.

Nos termos do acordo Washington-Talibã assinado em Doha em fevereiro de 2020, os Estados Unidos deverão continuar a financiar o Afeganistão durante e após a retirada.

Agora, com a Queda de Cabul e o iminente retorno do Emirado Islâmico do Afeganistão, vai ficando claro que o uso de táticas de poder brando financeiro pode ser ainda mais letal que uma mera ocupação da OTAN.

Washington congelou 9,5 bilhões de dólares em reservas do Banco Central Afegão, e o Fundo Monetário Internacional cancelou seus empréstimos ao país, incluindo 460 milhões de dólares que fazem parte do programa de combate à covid -19.

Esses dólares custeiam os salários do setor público e as importações. Sua falta levará a um sofrimento ainda maior para o "povo afegão" como consequência direta da inevitável desvalorização da moeda, da alta dos preços dos alimentos e da inflação.

Um corolário dessa tragédia econômica é a clássica pirueta "agarre o dinheiro e corra": O ex-presidente Ashraf Ghani fugiu do país após, ao que consta, encher quatro carros com a quantia de 169 milhões de dólares em dinheiro vivo e deixar 5 milhões na pista de pouso do aeroporto de Cabul.

Isso segundo duas testemunhas: um dos guarda-costas do presidente e o embaixador afegão no Tajiquistão. Ghani negou as acusações de pilhagem.

No Tajiquistão, e também no Uzbequistão, foi negada permissão de pouso ao avião de Ghani, que então seguiu para Oman, até Ghani ser bem-recebido na UEA – muito próxima a Dubai, uma meca global de contrabando, lavagem de dinheiro e crime organizado em geral.

O Talibã já declarou que um novo governo e uma nova estrutura política e econômica só serão anunciados após as tropas da OTAN saírem definitivamente do país, o que acontecerá no próximo mês.

As complexas negociações para a formação de um governo "inclusivo", repetidamente prometidas pelo porta-voz do Talibã, são na verdade conduzidas, no lado não-talibã, por dois membros de um conselho de três: o ex-presidente Hamid Karzai e o eterno rival de Ghani, o dirigente do Alto Conselho para a Reconciliação Nacional, Abdullah Abdullah. O terceiro membro, que atua nas sombras, é o chefe guerreiro transformado em político e duas vezes primeiro-ministro, Gulbuddin Hekmatyar.

Karzai e Abdullah, ambos muito experientes, são vistos pelos americanos como "aceitáveis", o que poderia contribuir para facilitar um futuro reconhecimento oficial do Emirado Islâmico do Afeganistão pelo Ocidente e para a retomada de financiamentos por instituições multilaterais.

Mas há miríades de problemas, inclusive o papel muito ativo desempenhado por Khalil Haqqani, que preside a Comissão do Conselho de Paz do Talibã, cujo nome consta da "lista de vigilância ao terror" e que sofre sanções da ONU. Haqqani está encarregado não apenas da segurança de Cabul mas também de participar, juntamente com Karzai e Abdullah, nas discussões sobre a formação de um governo inclusivo.

Como o Talibã funciona


Há duas décadas o Talibã vem operando fora do sistema bancário ocidental. O grosso de sua receita vem de impostos de circulação aplicados às as rotas de comércio (por exemplo, com o Irã) e nas taxas sobre combustíveis. Consta que os lucros com as exportações de ópio e heroína (o consumo interno não é permitido) representem menos que 10% de sua receita.

Em muitas aldeias do interior profundo do Afeganistão a economia gira em torno de pequenas transações em dinheiro e escambo.

Recebi uma cópia de um artigo proveniente dos escalões mais altos da inteligência acadêmica paquistanesa examinando os desafios que o novo governo afegão tem pela frente.

O artigo observa que "a rota de desenvolvimento a ser seguida tenderá a ser fortemente pró-povo. O Islã do Talibã é socialista, com aversão ao acúmulo de riqueza nas mãos de poucos e, o que é importante, repúdio à usura.

O artigo prevê que os passos iniciais em direção aos projetos de desenvolvimento devem partir de empresas russas, chinesas, turcas, iranianas e paquistanesas – e também de alguns poucos setores governamentais. O Emirado Islâmico "espera pacotes de desenvolvimento de infraestrutura" a custos "acessíveis ao atual PIB do país".

O PIB nominal do Afeganistão em 2020 foi de 19,8 bilhões, segundo dados do Banco Mundial.

Espera-se que novos pacotes de ajuda e investimentos cheguem de países-membros da Organização de Cooperação de Xangai (Rússia, China, Paquistão) ou de países observadores da OCX (Turquia e atualmente o Irã – programado para passar à condição de membro pleno na próxima cúpula da OCX, a ter lugar no mês que vem, no Tajiquistão). Fica implícita a ideia de que o reconhecimento pelo Ocidente será uma tarefa de Sísifo.

O artigo admite que o Talibã não teve tempo para avaliar que a economia será o vetor decisivo na determinação da futura independência do Afeganistão.

Mas essa passagem do artigo talvez traga a chave da questão: "Em suas consultas junto aos chineses, eles foram aconselhados a irem com calma e a não criarem problemas para o sistema mundial do Ocidente se apressando a falar sobre o controle estatal do capitalismo, sobre uma economia livre de juros e sobre os lanos de desligar-se do sistema financeiro baseado no Fundo Monetário Internacional. Mas como o Ocidente recolheu todo o dinheiro do tesouro público afegão, é provável que o Afeganistão se candidate a pacotes de ajuda de curto prazo dando como garantia sua base de recursos".

FMI-OTAN como irmãos de armas


Perguntei a Michael Hudson, professor de economia da Universidade do Missouri, em Kansas City, e da Universidade de Pequim, que curso de ação ele recomendaria ao novo governo. Sua resposta foi: "Em primeiro lugar, fazer o FMI morrer de vergonha por atuar como braço da OTAN".

Hudson se referia a um artigo publicado no Wall Street Journal, de autoria de um ex-consultor do FMI que agora trabalha para o Atlantic Council, dizendo que "agora, uma vez que o reconhecimento está paralisado, os bancos de todo o mundo hesitarão em negociar com Cabul. Essa medida dará aos Estados Unidos força de pressão para negociar com o Talibã".

O Afeganistão, portanto, talvez esteja seguindo o mesmo caminho que a Venezuela: o FMI não "reconhecendo" um novo governo por meses, e até anos a fio. E sobre o confisco do ouro afegão pelo New York Fed – na verdade, uma conjunto de bancos privados - vemos os ecos da pilhagem do ouro da Líbia e do confisco do da Venezuela.

Hudson vê todo o citado acima como "um abuso do sistema monetário internacional" – que supostamente seria um serviço público - atuando como braço da OTAN controlada pelos Estados Unidos. A atuação do FMI, principalmente no que diz respeito aos novos direitos de retirada, deve ser vista como um teste decisivo para a viabilidade do Afeganistão governado pelo Talibã.

Hudson vem agora trabalhando em um livro sobre o colapso da Antiguidade. Suas pesquisas o levaram a Cícero, em Pro Lege Manilia (A Favor da Lei Maniliana), escrevendo sobre a campanha militar de Pompeu na Ásia e seus efeitos sobre as províncias, em uma passagem que se aplica perfeitamente à "guerra eterna" do Afeganistão:

"As palavras não conseguem expressar, cavalheiros, o quão amargamente odiados nós somos entre as nações estrangeiras, em razão da conduta libertina e ultrajante dos homens que, em anos recentes, enviamos para governá-los. Pois, naqueles países, que templos acreditais que foram respeitados como sagrados por nossos oficiais, que estado foi inviolável, que lar suficientemente guardado por suas portas fechadas? Ora, eles buscam cidades ricas e florescentes para encontrar razão de guerrear contra elas para satisfazer sua ganância pelas pilhagens".

Passando dos clássicos a um nível mais prosaico, o WikiLeaks vem tocando repetidamente uma espécie de Grandes Sucessos do Afeganistão, relembrando a opinião pública, por exemplo, de que ainda em 2008, não havia uma "data final predefinida" para a "guerra eterna".

Mas a avaliação mais concisa talvez tenha vindo do próprio Julian Assange:

"O objetivo é usar o Afeganistão para lavar o dinheiro saído das bases tributárias dos Estados Unidos e da Europa através do Afeganistão e de volta às mãos da elite transnacional de segurança. O objetivo é uma guerra eterna, não uma guerra vitoriosa".

A "guerra eterna" pode ter sido um desastre para o bombardeado, invadido e empobrecido "povo afegão", mas foi um retumbante sucesso para o que Ray McGovern tão memoravelmente definiu como o complexo MICIMATT (Militar-Industrial-Contra-Inteligência-Mídia-Academia-ThinkTank). Quem comprou ações da Lockheed Martin, da Northrop Grumman, da Raytheon e de outras empresas do setor de defesa dos Estados Unidos ganhou uma nota preta.

Os fatos são realmente sombrios. Barack Obama – que presidiu sobre uma volumosa "lista de mortes" afegã – dá uma festa de aniversário e convida os novos-ricos woke. Julian Assange sofre tortura psicológica aprisionado em Belmarsh. E Ashraf Ghani fica matutando sobre como gastar os 169 milhões de dólares na máfia de Dubai, dinheiro que alguns dizem ter sido devidamente surrupiado do "povo afegão".

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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