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Reconhecendo os verdadeiros guardiões da floresta: uma entrevista com David Kaimowitz

Do IHU, 17 Julho 2021
Por  Rhett A. Butlerm, publicada por Mongabay, 14-07-2021. A tradução é de Debora dos Santos Gonzales.




David Kaimowitz descreve sua carreira como uma “jornada de 30 anos para entender o que causa o desmatamento”, que o levou de volta ao ponto de partida: a questão dos direitos à terra.

Em uma entrevista ao fundador da Mongabay, Rhett A. Butler, Kaimowitz fala sobre por que demorou tanto para os povos indígenas serem reconhecidos como guardiões da floresta, a necessidade das ONGs conservacionistas abordarem a justiça social e a capacidade da sociedade de efetuar mudanças significativas

Nos últimos 20 anos, o ambientalismo tem reconhecido cada vez mais as contribuições das comunidades indígenas para alcançar as metas de conservação, incluindo a proteção da biodiversidade e a manutenção dos ecossistemas que nos sustentam. Consequentemente, algumas grandes ONGs conservacionistas que uma geração atrás estavam focadas em estabelecer e fortalecer áreas protegidas hoje estão defendendo os direitos indígenas e ajudando as comunidades a garantir a posse da terra.

Como pesquisador que trabalhou na interseção de florestas, agricultura e comunidades locais por mais de 30 anos, David Kaimowitz tem propriedade para observar a evolução recente do relacionamento do setor de conservação com essas comunidades.



David Kaimowitz com um membro da AMAN na Indonésia. (Foto: Ade Aryani)

“Os povos indígenas e as comunidades locais têm sido cada vez mais transformados em heróis, em vez de vilões”, disse Kaimowitz, que atualmente atua como gerente do Forest and Farm Facility, uma parceria entre a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), o Instituto Internacional para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (IIED) e a Aliança AgriCord. Ele atribui essa mudança a três fatores: mudanças nas realidades locais, um crescente corpo de evidências e mensagens mais adequadas.

“À medida que mais e mais florestas não manejadas por povos indígenas e comunidades locais desaparecem, a comunidade conservacionista percebeu que cada vez mais essas são as únicas florestas restantes; pelo menos, as únicas florestas intactas com grandes áreas não transformadas”, explicou Kaimowitz à Mongabay. “Uma [quantidade de] literatura crescente mostrou que, dado um ambiente político favorável, os povos indígenas e as comunidades locais muitas vezes cuidam das florestas de propriedade comum e de outros recursos naturais de forma sustentável.

“Os próprios povos indígenas e grupos comunitários da floresta se tornaram mais eficazes em transmitir suas mensagens e fazer com que suas vozes sejam ouvidas. Eles se tornaram forças políticas poderosas em muitos países e no cenário global, e os grupos conservacionistas tiveram que ouvir.”

Mas, embora a conservação esteja mudando, ela ainda não foi transformada: os povos indígenas e as comunidades locais ainda enfrentam marginalização, falta de engajamento significativo e sub-representação, especialmente na tomada de decisões de conservação em papéis de liderança. Kaimowitz diz que as organizações conservacionistas precisam se tornar mais inclusivas.

“Quanto mais essas organizações refletem a verdadeira diversidade das sociedades mais amplas, melhor elas serão capazes de fazer isso”, comentou.

“A conservação tem duas linhagens fortes e de longa data. Uma remete aos nobres e magnatas, que queriam impedir os moradores de caçar animais grandes que capturavam para obter troféus. A outra encontra sua voz entre aqueles que dependem (e muitas vezes cuidam) da natureza para sobreviver. A questão é quem falará pela conservação? O xerife de Nottingham, protegendo a caça e as aves de sua majestade, ou Robin Hood, com seus homens (e mulheres) alegres, vivendo na floresta. Essas mesmas tensões não resolvidas ainda persistem hoje; e vai determinar o futuro dos movimentos.”

Em algumas partes do mundo, essas tensões foram agravadas pela pandemia da covid-19, que levou alguns grupos conservacionistas internacionais a desistir de projetos, desencadeou um colapso no ecoturismo, interrompeu o acesso aos mercados e o fluxo de remessas, e levou alguns moradores das cidades de volta ao campo para cultivar. Em alguns lugares, esses desenvolvimentos levaram as comunidades locais a praticar a agricultura de subsistência e a caça em áreas protegidas ou a se tornarem caçadores ilegais, colocando-as em conflito com os conservacionistas.

A pandemia, diz Kaimowitz, tem sido devastadora para as comunidades locais, causando “profunda dor” e perda do conhecimento tradicional com a morte de idosos. Mas a covid-19 também nos mostrou que os governos são capazes de tomar medidas expressivas quando enfrentam uma crise.

“Se a pandemia prova alguma coisa, é que as elites políticas e econômicas podem tomar medidas extraordinárias para evitar o desastre, se assim decidirem”, comentou. “Muitas coisas que ‘não podiam ser feitas’, de repente foram feitas. Os bancos centrais e ministérios das finanças sacaram seus talões de cheques e gastaram dinheiro que supostamente não possuíam. Tanto os governos quanto a sociedade em geral assumiram seu papel. Não foi fácil nem tranquilo, mas o mundo em grande parte se retirou do abismo.

“Algo semelhante terá que acontecer para evitar mudanças climáticas catastróficas e perda de biodiversidade; e há sinais de que as elites estão entendendo a mensagem.”

Kaimowitz falou sobre essas questões e muito mais durante uma conversa em abril de 2021 com o fundador da Mongabay, Rhett A. Butler.

Eis a entrevista.

O que despertou seu interesse nos direitos à terra e nas mudanças no uso da terra?

Minha vida inteira girou em torno de uma preocupação interligada com a justiça social e o meio ambiente.

O interesse pelo direito à terra vem dos cursos de graduação que fiz, destacando as enormes desigualdades na posse de terra na América Latina. Ficou claro que, em lugares onde os recursos naturais representam uma grande parcela da riqueza econômica, quem os possui e administra influencia todos os aspectos da sociedade.

Estudamos reformas agrárias em sala de aula, mas nunca imaginei que um dia eu mesmo estaria envolvido em uma. Então, por pura coincidência, ingressei em um programa de doutorado em Wisconsin, logo depois que os nicaraguenses derrubaram o ditador Anastasio Somoza em 1979. A universidade tinha acabado de obter financiamento para um projeto do Ministério de Desenvolvimento Agrário e Reforma Agrária (MIDINRA) da Nicarágua, e eu me tornei assistente de pesquisa. Quando Somoza caiu, os sandinistas assumiram o controle de muitas fazendas grandes e especialistas proeminentes se aglomeraram no país para debater o que fazer com elas. Como profissional iniciante, foi uma oportunidade incrível de testemunhar a história sendo feita.

Logo depois, o MIDINRA me contratou diretamente, e fomos convidados a registrar histórias orais de anciãos de aldeias na região norte de Segovias. Os anciãos falaram sobre as principais mudanças na forma como cultivaram durante sua vida e a rápida perda da cobertura florestal e da fertilidade do solo. Isso deixou claro o quanto a vida diária e o ambiente podem mudar em um único ciclo de vida.

Mesmo assim, não me concentrei na mudança do uso da terra até a década de 1990, quando as Nações Unidas realizaram a Cúpula da Terra no Rio de Janeiro e “desenvolvimento sustentável” se tornou a palavra de ordem. Eu tinha lido sobre como os subsídios do governo e os crescentes mercados de exportação de carne bovina desencadearam o desmatamento em massa de pastagens na América Central. Mas em 1994 a situação havia mudado e o setor pecuário da região estava em crise. Isso me fez pensar se os altos preços da carne bovina e o crédito subsidiado aumentariam o desmatamento, será que preços baixos e nenhum crédito trariam a floresta de volta? (Descobriu-se, não muito; mas essa é uma história para outro dia.)

Esse quebra-cabeça inicial levou a uma busca de 30 anos para entender o que causa o desmatamento. Ironicamente, isso agora me trouxe de volta ao ponto de partida, aos direitos à terra. Porque as evidências mostram que garantir os direitos de posse comunal é uma das maneiras mais econômicas de conter o desmatamento e as pessoas não restauram as florestas a menos que tenham direitos às árvores.

Qual é o seu foco atual na FAO?

A percepção de que os direitos dos povos indígenas e das comunidades locais à terra e às florestas eram tão importantes para proteger as florestas me levou a defender a necessidade de mais financiamento para essa finalidade. Acontece que tais direitos e a gestão de recursos comunitários são fundamentais para enfrentar muitos dos principais desafios globais, incluindo mudança climática, perda de biodiversidade, conflito social e pobreza rural, bem como a perda florestal em si.

Então, deixei meu emprego em pesquisa florestal (no CIFOR) e me mudei para a Fundação Ford para financiar este trabalho. Grande parte dos meus afazeres se concentrou em apoiar os povos indígenas e grupos comunitários e convencer as agências internacionais a fazerem o mesmo. Vários colegas nessas agências acharam os argumentos convincentes, mas não sabiam como poderiam financiar esse trabalho. Surgiram algumas grandes iniciativas, como o Fundo Internacional de Florestas e Posse de Terras, fundos indígenas e territoriais administrados por comunidades no Brasil, o Fundo Nia Tero [Entrevista da Mongabay com Peter Seligmann da Nia Tero] e o programa Mecanismo de Doação Dedicada do Banco Mundial, mas eram todos minúsculos comparados à necessidade.


Riacho na Amazônia colombiana. (Foto: Rhett A. Butler | Mongabay)

Então, tornei-me gerente do Forest and Farm Facility para que pudesse defender essa causa. O Forest and Farm Facility é uma parceria entre a FAO, IUCN, IIED e AgriCord, que apoia organizações florestais e agrícolas na África, Ásia e América Latina, e tem feito um ótimo trabalho desde 2013. Vi uma oportunidade de desenvolver tudo isso e demonstrar que as agências internacionais podem apoiar as organizações rurais de mobilização popular com eficácia e obter resultados em escala.

O FFF se concentra na melhoria dos meios de subsistência e resiliência rurais e na promoção de paisagens mais favoráveis ao clima e à biodiversidade. Fornecemos financiamento e suporte técnico e defendemos organizações de agricultores locais, nacionais, regionais e globais, silvicultura comunitária e povos indígenas. Também ajudamos as organizações a fortalecer sua defesa, empreendimentos comunitários e operações, com atenção especial aos direitos das mulheres e inclusão de jovens, e a facilitar os vínculos entre essas organizações rurais com outros programas financiados internacionalmente e com investidores e compradores privados.

Como os vetores do desmatamento são diferentes hoje do que eram nas décadas de 1980 e 1990?

Não apenas os vetores do desmatamento mudaram desde então, mas o pensamento das pessoas também mudou. O discurso da Cúpula da Terra de 1992 no Rio colocou que a pobreza impulsiona o desmatamento. As políticas ambientais podem ser importantes, mas, em última análise, o jeito era tirar as pessoas da pobreza, para que não precisassem explorar demais os recursos naturais. Enquanto alguns falavam sobre grandes criadores de gado e empresas madeireiras, a culpa pelo desmatamento foi diretamente sobre o cultivo itinerante em pequena escala.


Desmatamento em Kapuas Hulu, em Bornéu, na Indonésia. (Foto: Rhett A. Butler | Mongabay)

Esse discurso provavelmente exagerou quanto ao papel da pobreza e dos pobres no desmatamento da floresta, mesmo naquela época. Mudar para regiões florestais, extrair madeira ou derrubar grandes florestas e substituí-las por plantações ou gado requer mais capital e mão de obra do que as pessoas pobres costumam ter. É verdade que o desmatamento de muitos pequenos fragmentos de floresta pode afetar grandes áreas — e definitivamente vemos isso em algumas regiões — mas isso sempre foi responsável por uma porção menor da perda total da floresta tropical do que muitas pessoas pensavam.

De qualquer forma, desde a década de 1990, grandes empresas e proprietários de terras têm desempenhado um papel mais dominante no desmatamento global, tanto empiricamente quanto no discurso. Uma parte crescente do desmatamento tem sido associada a um pequeno número de commodities, como carne bovina, óleo de palma, soja e celulose e papel, onde apenas algumas centenas de grandes empresas dominam as cadeias de valor globais. A tendência tem sido o desmatamento de áreas maiores (embora isso tenha variado ao longo do tempo e por região).

A mineração, em várias escalas, e a produção de cultivos ilícitos e a lavagem de dinheiro relacionada tornaram-se causas muito mais proeminentes do desmatamento. Em contraste, a produção comercial de madeira perdeu destaque na discussão, em parte porque os recursos madeireiros foram amplamente exauridos em muitas regiões, em especial nas florestas de dipterocarpos e tecas do Sudeste Asiático.

O cultivo itinerante em pequena escala, a extração madeireira e a coleta de carvão e lenha têm cada vez mais desaparecido da agenda global e perdido importância em muitas regiões. A principal exceção tem sido a África Subsaariana, onde pequenas fazendas e recursos de propriedade comum permanecem dominantes e os mercados urbanos em expansão para produtos florestais às vezes alimentam a superexploração.

Você trabalha na interseção de florestas, agricultura e comunidades locais há mais de 30 anos. Nesse período, quais foram as maiores mudanças?

Como comecei a discutir anteriormente, tanto as causas da perda florestal quanto as narrativas sobre elas mudaram. Até certo ponto, a mudança narrativa refletiu tendências empíricas, mas é mais complexa do que isso.

Os povos indígenas e as comunidades locais têm sido cada vez mais transformados em heróis, em vez de vilões. Estudos em diferentes regiões do mundo questionaram os relatórios alarmistas sobre a crise da lenha, os efeitos devastadores da agricultura itinerante e a extensão do desmatamento por pequenos agricultores em geral. Os motivos por trás desses discursos também foram questionados e catalogados como tentativas neocoloniais de justificar a privação de recursos das famílias pobres, como frequentemente ocorria na época colonial.

Uma literatura crescente mostrou que, dado um ambiente político favorável, os povos indígenas e as comunidades locais muitas vezes cuidam das florestas de propriedade comum e de outros recursos naturais de forma sustentável. Elinor Ostrom se tornou a primeira mulher (e a primeira não economista) a ganhar o Prêmio Nobel de Economia em 2009 por demonstrar isso, e foi um sinal claro da mudança de rumo.

Recentemente, escrevi um relatório sobre florestas em territórios indígenas e tribais na América Latina, publicado pela FAO e FILAC, que cita dezenas de estudos relativamente novos que mostram que os habitantes desses territórios administram suas florestas melhor do que outros grupos. O mais surpreendente sobre a reação das pessoas a essa conclusão foi que ninguém ficou surpreso. Em poucas décadas, afirmar que os povos indígenas eram “guardiões das florestas” passou de heresia a um fato estabelecido.

Isso não quer dizer que os pequenos agricultores, ou povos indígenas, nunca destruam as florestas, ou que isso não seja um problema. As famílias rurais pobres exploram claramente os recursos florestais em alguns lugares, e a questão deve ser tratada. No entanto, a maioria dos especialistas agora considera os agentes em grande escala responsáveis pela maior parte da destruição global da floresta tropical e acha que é melhor trabalhar com as comunidades para reduzir a exploração exagerada dos recursos florestais pelos pequenos proprietários, em vez de reprimi-los.

Na última década, parece haver uma consciência muito maior no setor de conservação sobre as contribuições dos povos indígenas e comunidades locais para alcançar os resultados da conservação. O que impulsionou essa mudança?

Parte tem a ver com a mudança de realidades no terreno. À medida que mais e mais florestas não manejadas por povos indígenas e comunidades locais desaparecem, a comunidade conservacionista percebeu que cada vez mais essas são as únicas florestas restantes; pelo menos, as únicas florestas intactas com grandes áreas não transformadas.

Parte também tem a ver com a avalanche de pesquisas rigorosas destacando essas contribuições. Quando fiz minha meta-análise de pesquisa sobre florestas em territórios indígenas e afrodescendentes na América Latina para o Relatório FAO-FILAC, o grande volume de pesquisas recentes de alta qualidade, todas apontando na mesma direção, surpreendeu-me. As florestas desses territórios têm sido mais bem preservadas, mesmo levando em consideração fatores como distância de estradas e fertilidade do solo. Quando os territórios têm direitos formais e apoio adicional, suas florestas ficam ainda melhor.


Terras indígenas, como o território Suruí-Paiter em Rondônia e no Acre, são claramente visíveis em imagens de satélite de partes da Amazônia devido ao nítido contraste com as áreas desmatadas que as cercam. (Foto: NASA)

Por fim, os próprios povos indígenas e grupos comunitários da floresta se tornaram mais eficazes em transmitir suas mensagens e fazer com que suas vozes sejam ouvidas. Eles se tornaram forças políticas poderosas em muitos países e no cenário global, e os grupos conservacionistas tiveram que ouvir.

Ouvimos muito mais sobre a inclusão de partes interessadas nos últimos anos, especialmente no contexto do ano passado entre o movimento de justiça social nos Estados Unidos e as críticas às práticas coloniais de algumas grandes ONGs. Isso está sendo traduzido nos níveis de tomada de decisão dentro das instituições que financiam e implementam projetos de conservação?

As ONGs conservacionistas maiores são grandes burocracias com fortes culturas institucionais, dominadas por brancos de classe média alta, como eu. Em qualquer tipo de burocracia, a mudança transformadora raramente acontece da noite para o dia. Eu realmente acho, porém, que o aumento drástico do movimento pela justiça racial nos Estados Unidos e em outros lugares, e os crescentes movimentos pela justiça ambiental as abalaram profundamente. Elas foram forçadas a enfrentar os elementos sórdidos de seu passado, reconhecer o preconceito implícito contra as pessoas de cor e se concentrar mais em como os problemas ambientais afetam as pessoas pobres e de cor desproporcionalmente.

É difícil dizer até onde isso vai chegar. Muitos dos esforços anteriores para fazer com que essas organizações tratassem de questões de justiça social e racial se extinguiram com o tempo. Mas estou cautelosamente otimista de que desta vez será diferente e veremos mudanças reais. Muitos financiadores que apoiam essas organizações esperam o mesmo.

O que você vê como grandes lacunas que ainda persistem no setor de conservação?

De imediato, há problemas de pessoal, trazendo mais pessoas de cor e de famílias de baixa renda. Mas, de forma mais ampla, a questão é: eles vão adotar uma abordagem que não seja tão elitista? Eles podem falar sobre a vida cotidiana das pessoas comuns de forma que possam compreender e respeitar a experiência de vida e o conhecimento tradicional dessas pessoas, sejam elas rurais ou urbanas? Quanto mais essas organizações refletem a verdadeira diversidade das sociedades mais amplas, melhor serão capazes de fazer isso.

A conservação tem duas linhagens fortes e de longa data. Uma remete aos nobres e magnatas, que queriam impedir os moradores de caçar animais grandes que capturavam para obter troféus. A outra encontra sua voz entre aqueles que dependem (e muitas vezes cuidam) da natureza para sobreviver. A questão é quem falará pela conservação? O xerife de Nottingham, protegendo a caça e as aves de sua majestade, ou Robin Hood, com seus homens (e mulheres) alegres, vivendo na floresta. Essas mesmas tensões não resolvidas ainda persistem hoje; e vão determinar o futuro dos movimentos.

Você passou algum tempo no setor filantrópico. Qual foi sua ajuda mais impactante durante esse tempo? E por quê? Ou, se não foi uma única ação, que tipo de ajuda foi a mais impactante?

O maior impacto veio das concessões de comunicações, que permitiram que líderes indígenas e comunitários fossem ouvidos pela primeira vez. A maior parte da cobertura da mídia sobre florestas tropicais cita funcionários públicos, empresas, ONGs e cientistas do Norte Global. Todos, exceto aqueles que vivem dentro e fora das florestas e geralmente as protegem mais. Quando os políticos plantam uma árvore é uma grande oportunidade para fotos. Os fazendeiros plantam milhões delas o tempo todo e ninguém parece notar.

Financiamos empresas de comunicação, diretores de cinema, assistentes de mídia social, grupos de mídia digital inovadores como a Mongabay, e trabalhamos com músicos e atores para ajudar líderes de mobilização popular e moradores a causarem uma boa impressão, em suas próprias palavras. Não para serem usados como adereços por alguma ONG ou projeto, mas para contarem sua própria história. Do que eles se orgulhavam, o que os preocupava ou o que era preciso mudar.

Foi incrivelmente poderoso e autêntico, como um reality show. Essas pessoas faziam essa caminhada e muitas vezes arriscavam a vida; e tornaram o mundo mais verde e grandioso no processo. Esses eram os verdadeiros Guardiões das Florestas; e sua mensagem ressoou muito além de Wall Street e das torres de marfim.

Minutos atrás, assisti a um anúncio do governo da Guatemala mostrando as concessões florestais da comunidade em Peten. Isso teria sido quase inimaginável poucos anos atrás. Essas comunidades que administram as concessões lutam de igual para igual para impedir que alguns dos grupos mais poderosos da América Central tomem o controle de suas florestas. Mas, uma vez que o público mais amplo ouviu suas histórias, eles venceram a batalha de relações públicas. Agora, até o presidente os quer na foto.

Algo semelhante aconteceu com o assassinato de ambientalistas locais e defensores dos direitos à terra, muitos deles indígenas. Esse é um problema antigo, embora a situação possa estar piorando. Mas os grupos de comunicação foram capazes de lançar uma luz sobre essa situação e ajudar as pessoas a perceberem que não eram apenas disputas locais por terra ou água, os resultados afetam a todos nós. Mártires indígenas como Berta Cáceres em Honduras, Edwin Chota no Peru, Isidro Baldenegro no México, Charlie Taylor na Nicarágua ou Paulo Paulino Guajajara no Brasil morreram em defesa da Mãe Terra, e todos nós temos uma participação nisso.

No início, a Global Witness foi a única ONG de destaque a levantar a questão. Mas, à medida que o apelo recebeu mais atenção, todos os grandes grupos internacionais de direitos humanos aderiram. O problema não está de forma alguma resolvido, mas os autores intelectuais desses ataques não podem mais estar tão confiantes a ponto de agir com total impunidade.

A covid-19 obviamente teve um enorme impacto em todo o mundo. O que você ouviu dos seus parceiros e aliados no campo?

A primeira coisa, claro, é a dor profunda. Perdemos muitos líderes e anciãos. Pessoas que conhecíamos ou esperávamos encontrar. Histórias, sabedoria, línguas perdidas. Doença, fome, mercados perdidos. E muitos governos descaradamente indiferentes.

Mas também, uma resiliência incrível. Um parceiro da Forest and Farm Facility, a AgriCord, pesquisou organizações florestais e agrícolas de mobilização popular na África, Ásia e América Latina e descobriu que praticamente todas haviam se esforçado e estavam respondendo à pandemia. Elas estavam fornecendo máscaras e informações, plantando jardins, encontrando novos mercados, pressionando os governos por apoio e cuidando dos necessitados. Elas não se sentaram e esperaram por ajuda. Elas agiram.

Um estudo da ONU sobre a pandemia e os povos indígenas na América Latina constatou a mesma coisa. Organizações indígenas tomaram a iniciativa e monitoraram a disseminação do vírus, regulamentaram a entrada nas comunidades e forneceram medicamentos tradicionais e ocidentais, muitas vezes com mulheres na liderança.

E quais são os impactos esperados da pandemia sobre o desmatamento no curto prazo?

É difícil dizer. No início, pensei que a economia global praticamente entraria em colapso e, como resultado, o desmatamento diminuiria. Em março e abril passados havia muitos sinais disso. Mas então, os bancos centrais mundiais intervieram com enormes planos de estímulo, o que mudou as coisas. Agora, a economia global está começando a crescer e isso pode facilmente aumentar a pressão sobre as florestas.

A pandemia também afetou a política, não apenas a economia. Por exemplo, alguém poderia argumentar que Trump ainda seria presidente nos Estados Unidos se não fosse pela pandemia, e isso poderia ter afetado o que aconteceu com as florestas. Podemos ver histórias semelhantes acontecendo em outros lugares, mas é muito cedo para dizer quem pode se beneficiar.



(Fonte: Mongabay)

E como você vê o impacto de longo prazo da covid-19 no relacionamento entre a sociedade, especialmente a sociedade ocidental, e o mundo ao nosso redor?

A pandemia fez com que todos nos sentíssemos mais vulneráveis e percebêssemos como nossas sociedades são frágeis e tênues. Agora, quando ouvimos discussões sobre os efeitos devastadores das mudanças climáticas, eles parecem menos abstratos e distantes. A covid-19 foi um alerta, um lembrete de que ainda estamos ligados ao mundo natural e dos muitos vínculos entre as florestas e a saúde. Mas ainda não está claro quantos ouviram o chamado para acordar ou por quanto tempo permanecerão acordados.

A curto prazo, a maioria das pessoas provavelmente está desesperada para voltar a ser como as coisas eram. Para sair, socializar e viajar. Isso tenderá a nos puxar de volta ao status quo. Mas parece haver uma maior consciência do Antropoceno; que os ecossistemas dos quais dependemos estão severamente desgastados e os limites não estão longe. À medida que as pessoas vivenciam isso na vida diária, essa consciência provavelmente aumentará.

O mesmo acontecerá com a reação contrária. Negação, fundamentalismo ocidental. O universo paralelo no Facebook e no YouTube. Muitas pessoas estão com medo e se sentem ameaçadas, o que raramente leva a algo bom.

Você fez muitas pesquisas na América Latina. Embora haja exceções, como um todo, a região está vivenciando um crescente autoritarismo, desmatamento tropical e violência contra os defensores. Por que isso acontece e qual é a sua visão de médio e longo prazo para a região em relação a essas questões?

A América Latina enfrenta dilemas difíceis. A população está cada vez mais urbana, mas as economias dependem intensamente da agricultura rural, petróleo e mineração. O modelo econômico e político predominante na última década foi aumentar as receitas do governo com atividades extrativas e usá-las para programas clientelistas que obtiveram apoio político. Mas esse modelo praticamente chegou ao fim; e os custos ambientais se acumulam. Nem os países podem simplesmente esperar viver das remessas de emigrantes no exterior. A maioria dos países não investiu o suficiente em educação, pesquisa, inovação e tecnologia, para que pudessem fazer a transição para economias menos extrativistas, com base em mão de obra mais qualificada. Além disso, a pandemia deixou a região muito mais endividada e ninguém sabe como pode pagar suas contas.

Tudo isso tende a minar os sistemas políticos existentes, abrindo caminhos para os autoritários. O crime organizado se tornou uma força erosiva, preenchendo espaços onde os governos são frágeis e enfraquecendo-os ainda mais. Enquanto isso, muitos grupos da sociedade civil predominantemente brancos de classe média dirigidos por profissionais preocupados com a conservação, direitos humanos, feminismo e outras questões importantes não conseguiram se conectar com o público em geral, deixando-os vulneráveis a ataques.

Não existem soluções simples ou soluções mágicas, mas minha visão de um possível percurso para o futuro inclui alguns dos seguintes: modelos econômicos que dependem mais de empresas comunitárias e de pequena escala que podem inovar e produzir valor agregado; menos fundos para comprar votos e mais para investir em pessoas e paisagens; renascimento da democracia local, reconhecimento real do caráter plurinacional e multirracial da maioria das sociedades latino-americanas e mais espaço político para mulheres e jovens.

Não será simples e pode não acontecer, mas a região precisa encontrar um caminho a seguir, porque não pode voltar para onde estava.

Quais são as alavancas que precisam ser acionadas para impulsionar a mudança sistêmica a fim de evitar a mudança climática catastrófica e a perda de biodiversidade?

Se a pandemia prova alguma coisa, é que as elites políticas e econômicas podem tomar medidas extraordinárias para evitar o desastre, se assim decidirem. Muitas coisas que “não podiam ser feitas”, de repente foram feitas. Os bancos centrais e ministérios das finanças sacaram seus talões de cheques e gastaram dinheiro que supostamente não possuíam. Tanto os governos quanto a sociedade em geral assumiram seu papel. Não foi fácil nem tranquilo, mas o mundo em grande parte se retirou do abismo.

Algo semelhante terá que acontecer para evitar mudanças climáticas catastróficas e perda de biodiversidade; e há sinais de que as elites estão entendendo a mensagem. Em breve, poderemos ver um investimento verdadeiramente maciço em eficiência energética e energia renovável. Está menos claro se as mensagens da floresta e da biodiversidade estão sendo transmitidas. Não há como atingir as metas climáticas globais sem florestas mais robustas, mas a maioria das pessoas não percebe isso, nem mesmo muitos especialistas.

Em qualquer caso, esses esforços só terão sucesso se resolverem a desigualdade. Um dos motivos pelos quais a ação climática está avançando é que ela está associada a empregos. “Novos acordos verdes” não são apenas slogans políticos partidários, eles são essenciais para alcançar públicos mais amplos. A agricultura e o uso da terra são grandes partes do problema e devem estar na frente e no centro das soluções; mas as políticas devem falar para, e com, as populações rurais e das pequenas cidades, em toda a sua diversidade. Ar mais limpo, mais árvores urbanas, parques e jardins, transporte público. É bom ouvir os cientistas; mas também temos que ouvir os trabalhadores, fazendeiros, enfermeiras e garçonetes, pessoas de fé.

O que você diria aos jovens que estão angustiados com a atual trajetória do planeta?

Eu realmente sinto muito por termos decepcionado vocês. Achamos que sabíamos o que estávamos fazendo e erramos em muitas coisas. Mas não é tarde demais, e há muitas coisas acontecendo que nunca tivemos antes. Novas formas de organizar e comunicar, líderes femininas mais empáticas e responsáveis.

Não importa como as coisas pareçam agora, elas podem parecer diferentes mais tarde. Muitas coisas em que eu costumava acreditar estavam erradas e muitas que eu achava que eram permanentes se mostraram efêmeras. Algumas acabaram piores do que eu esperava, mas outras foram muito melhores. Não importa como as coisas pareçam hoje em dia, elas podem e irão mudar. Enquanto isso, não podemos parar de tentar melhorar as coisas e aprender ao longo do caminho.

Continue exigindo o impossível. Só é impossível até que não seja. Pode ser tarde demais para restaurar muitas das riquezas naturais e culturais que perdemos, mas ainda podemos salvar algumas delas; e definitivamente vale a pena o esforço.

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