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O fascismo – em nome de deus

Do A Terra É Redonda, 11 de Julho 2021
Por CAIO VASCONCELLOS*


Imagem: Matheus Natan

Comentários sobre análises de Theodor W. Adorno

Pouco debatido mesmo entre especialistas na obra de Theodor Adorno[i], The Psychological Technique of Martin Luther Thomas apresenta uma das mais instigantes contribuições do frankfurtiano para a interpretação da mecânica da sedução fascista no interior das democracias de massa. Infelizmente ainda sem tradução para o português, o livro se compõe pela crítica imanente dos discursos de Martin Luther Thomas, um líder religioso – e agitador fascista – cujas pregações eram transmitidas via rádio pela costa oeste dos Estados Unidos durante a década de 1930.

Enquanto a linguagem e a temática religiosas serviam de substrato para Luther Thomas tocar a sensibilidade e reavivar certos valores em seus ouvintes, a sua voz conduzida pelas ondas de rádio produziria uma falsa sensação de proximidade e intimidade do pastor com o público, dotando suas mensagens de um matiz interessadamente desinteressado.

Mais do que um caso de manipulação pura e simples de sua audiência, as práticas discursivas e os mecanismos retóricos empregados por Luther Thomas são interpretados por Adorno a partir do prisma do entrecruzamento de tendências sociais-objetivas e aspectos individuais-subjetivos no capitalismo tardio. Em vez de meramente replicar a mecânica de sedução de Hitler, o pastor estadunidense operaria uma intricada dialética com elementos de continuidade e de ruptura em relação ao líder da Alemanha nazista.

Valendo-se dos vieses e da presença ostensiva da Indústria cultural, Luther Thomas tomaria proveito de contradições sociais do contexto socioeconômico da época e de limites internos às democracias de massa para transformar o fanatismo e o fervor religioso de seus ouvintes em plataforma de ódio político, racial e de classe – e, ao mesmo tempo, em um ótimo negócio.

Inicialmente, Adorno se debruça sobre a caracterização da personalidade e do tipo de liderança corporificada por Luther Thomas. Diferentemente de políticos liberais estadunidenses, cujos discursos se esquivavam de referências diretas às suas intimidades e às suas vidas privadas para construir uma argumentação, à primeira vista, técnica e impessoal, as pregações de Luther Thomas eram marcadas por fortes apelos emocionais, com traços claros de histeria, expondo suas fraquezas pessoais e, inclusive, suas supostas dificuldades financeiras.

Enquanto os primeiros buscariam ancorar suas propostas em certa objetividade e em princípios formais de racionalidade, o pastor estadunidense espelhava a irracionalidade que marca o conjunto da vida social no capitalismo tardio. Como uma espécie de resposta ao desamparo, ao desespero e ao vivo sentimento de solidão promovido pelas engrenagens dessa sociedade, a sugestão de perda de controle emocional não visava reconstruir laços de solidariedade entre os fiéis, mas torná-los obedientes às vontades do líder e passivos diante dos imperativos da totalidade social.

Se, na aurora do capitalismo, a noção de uma individualidade autocentrada e autônoma se apresentava como pressuposto para fazer frente à dinâmica concorrencial seja entre os capitais, seja por postos de trabalho, a era dos monopólios parece exigir outro tipo de formação e de conduta subjetiva. Cercados por mercadorias em todos os lados, no conjunto de suas atividades e em todas as suas relações, os indivíduos sofrem pressões avassaladoras para assumir uma postura a um só tempo mais pragmática e mais frágil ante os colossos econômicos, políticos e socioculturais.

Transmitida por uma grande emissora de rádio estadunidense, a histriônica voz de Thomas transfigura as frustrações produzidas pela lógica de autovalorização de valor em estímulo à violência e à agressividade contra grupos e minorias tratados como inimigos. Atraídos pela promessa de um novo reino purgado não dos pecados, mas de pretensos pecadores, os seus ouvintes são também incitados ao autossacrifício e ao sadismo, dando corpos e braços a um movimento cujo objetivo único é a ascensão de uma forma de governo – autoritária e repressora – condizente com o altíssimo grau de centralização e concentração econômica vigentes.

Ante tal influxo, a opinião pública em uma sociedade formalmente democrática não serve de barreira, enquanto a estrutura monopolística dos meios de comunicação faz as vezes de catapulta. Ainda que o maior enraizamento social de valores democráticos nos Estados Unidos em comparação com a Alemanha nazista impedia Luther Thomas de adotar discursos abertamente antidemocráticos, o recrudescimento autoritário e a perseguição de seus inimigos puderam ser defendidos de maneira sub-reptícia. Insuflada sem rodeios para o núcleo duro que comparecia às cerimônias comandadas de corpo presente pelo pastor, a desbragada violência de suas pregações viajava pelas ondas do rádio por meio do uso calculado de ambivalências, seja para camuflar suas intenções, seja para recuos estratégicos. Como se falasse com espíritos, a linguagem cifrada e indireta do pastor tinha destinatários precisos, apostando que parte do público pudesse ouvir apitos para cães.

Uma das características nos discursos de Luther Thomas ressaltada por Adorno seria a bem temperada ausência de lógica interna em suas emissões radiofônicas, não havendo relações plausíveis entre as suas premissas e as suas inferências, entre as causas e as consequências em suas prédicas. Inexistiam maiores espaços de argumentação ou de explanação de seus tortuosos raciocínios, enquanto as suas conclusões sempre coincidiam com as convicções prévias – repetidas ad nauseam – de um típico cristão conservador. Essas associações ilógicas, contudo, não deveriam ser interpretadas como falta de argucia ou destreza intelectual nem de seus ouvintes e menos ainda de seu emissor – as incongruências manifestadas do plano simbólico são resolvidas no campo da prática.

Segundo Adorno, movimentos fascistas em ditaduras e em democracias replicariam a estrutura de funcionamento de organizações mafiosas – ou, se quisermos em uma terminologia mais atual, milicianas. Em um mundo comandado por monopólios, o pertencimento a esses coletivos pode oferecer algum alento e sensação de proteção aos mais incautos e temerosos. Porém, ampliando a impotência subjetiva vivenciada cotidianamente em uma sociedade petrificada como uma segunda natureza, agitadores fascistas como Luther Thomas agem para reforçar a crença de que as raízes de suas frustrações e infelicidade são intelectualmente insondáveis, e podem ser acessadas apenas por vias emocionais – espreitando por todos os lados, o inimigo se esconde em qualquer lugar, e se infiltra, inclusive, dentro do exército dos sediciosos.

Todavia, atingindo camadas mais superficiais da psique dos indivíduos, essa sensação de insegurança é uma parte da explicação da adesão subjetiva a movimentos fascistas. Ainda que costume se apresentar como uma forma de reação, o fascismo possui seus móbiles internos e caminha por suas próprias pernas. Importando práticas imperialistas e impulsos coloniais para dentro de fronteiras nacionais, os insultos e as agressões fascistas se apresentam como se fossem um mecanismo de defesa. Embora o butim de uma guerra civil anime algumas de suas fileiras, o afeto mais geral e o mais decisivo para a massa dos sediciosos é a realização da verdadeira utopia das máfias, a reedição da mítica noite das facas longas – e é isso que confere coerência lógica às afirmações desencontradas e às palavras de ordem de seus líderes. Importa pouco que teorias da conspiração que circulem pelas ondas de rádio careçam de critérios mínimos de verossimilhança, a sedução fascista se assenta na ameaça, mesmo que apenas sugerida, de violência real e sem fim.

A esse respeito, convém chamar atenção para outra diferença importante entre o nazifascismo e os novos cruzados conduzidos por Luther Thomas. Além do conteúdo antissemita que também fazia parte de seu arsenal discursivo, o pastor sai à procura de outros bodes expiatórios mais adequados ao contexto estadunidense. Bastante em voga na época, os epítetos comunismo e bolchevismo internacional nomeavam os inimigos que Luther Thomas prometia subjugar. Tal como alhures, os termos não faziam referência direta à URSS ou a alguma outra experiência socialista concreta. Tampouco se tratava de uma crítica ao marxismo, posto que Luther Thomas seria demasiado consciente dos perigos que seu movimento corria caso sua audiência entrasse em contato com uma teoria que apontasse para as causas objetivas da opressão e da dominação que vivenciam cotidianamente.

Na verdade, comunistas e bolcheviques eram todos os fantasmas que assombrassem o seu rebanho. A urgente batalha que os novos cruzados estadunidenses são clamados a tomar partido visa restaurar os bons tempos de outrora, valores e práticas de vida tradicional que, supostamente, estariam em avançado estágio de degeneração. A estatização de propriedades privadas, a dissolução da família nuclear burguesa, a corrupção da moralidade cristã e a ruína da pátria permeavam as pregações de Luther Thomas.

Ainda que a insólita associação entre banqueiros e comunistas aparecesse com certa frequência em seus sermões, as ansiedades e o ódio de seus seguidores seriam alimentados com mais vigor por projeções sobre outro grupo social específico. Atualizando um velho lema burguês de que não deveria ser permitido a ninguém comer sem trabalhar, a cólera do rebanho de Luther Thomas se direcionava sobretudo aos desempregados e demais desafortunados que, à época, subsistiam graças às políticas assistenciais do New Deal de Franklin Delano Roosevelt.

Além de dar tração ao movimento liderado por Luther Thomas, esse novo bode expiatório não suscitava perigosas fantasias apenas entre os diretamente sintonizados com as suas emissões radiofônicas. Em Personalidade autoritária, Adorno chama atenção para a recorrência de associações espúrias, típicas em variados estratos da população estadunidense, que identificavam como privilegiados os setores mais vulneráveis, e como uma ditadura a estrutura mínima de seguridade social. Malgrado partilhassem a mesma e intransponível distância em relação aos donos do poder econômico, a massa dos fascistas em potencial crê ser capaz de se diferenciar dos ainda mais explorados ao encorpar um movimento que restitua, integralmente, o poder de mando e desmando aos que comandam o maquinário de produção.

Ao manter as fontes da riqueza material fora do alcance das urnas, a democracia concebida em termos formais atiça os ânimos dos sediciosos por confessar cedo ou tarde que a ação dos governantes, no limite, não ultrapassa um jogo de cena. Com a engrenagem que amplia as contradições entre a desigualdade econômica e a igualdade política formal a salvo, o ressentimento contra esse estado de coisas tende a se insinuar contra a forma democrática enquanto tal, e particularmente contra aqueles que, direta ou indiretamente, representem algum obstáculo ao deslizar acelerado de roldanas e linhas de produção.

Ademais, junto aos conteúdos sociais, políticos e econômicos mais palpáveis, Adorno aponta para aspectos e motivos subjetivos profundos enredados aos descaminhos que conduziriam indivíduos – de distintas colorações partidárias e apartidárias – ao fascismo. A hipótese do frankfurtiano se baseia em certa predisposição psicológica ao chamado complexo de usurpação. Ainda que em intensidade distinta, o medo de ser um filho ilegítimo se inscreveria em processos normais de formação subjetiva moderna – inclusive, o próprio mito de Édipo seria legível nessa chave.

Longe de uma determinação inata, a consciência desse temor cresce à medida em que se aguça a cisão entre o que seria da ordem da natureza e o que é garantido por nossa civilização. Alicerçada no instável terreno do pátrio poder e da monogamia, a casa de qualquer família burguesa só pode manter alguma integridade quando seus membros projetam sobre outrem – sobretudo naqueles que sejam estranhamente familiares – a pecha de ser o verdadeiro usurpador.

Tanto em ditaduras como em democracias, o fascismo mobiliza elementos de desintegração de ordenamentos arbitrários – social, político econômico, familiar e subjetivo – para afirmação autoritária e violenta dessa mesma ordem. Para tanto, as fantasias sobre os seus inimigos devem ser calibradas a fim de que cumpram uma dupla função – o bode expiatório deve ser concebido como alguém que esteja espaçosamente dentro da sala, mas espacialmente sempre próximo da porta da rua, isto é, à serventia da casa.

Remoendo a sua própria amargura e impotência, os fascistas atuam para colocar os poderes, as classes e seus ressentimentos em seus lugares. De modo direto e provocativo, a mecânica de sua sedução se assenta sobre alucinações e fantasmagorias que assombram as mentes e os corpos dos senhores sobre supostas conspirações dos dominados – talvez seja o caso dos escravos lhes darmos razão.

*Caio Vasconcellos é doutor em sociologia pela USP. Autor, entre outros livros, de O Moloch do presente – Adorno e a crítica à sociologia (Alameda).

Nota

[i] Uma exceção que foge à regra é o artigo de Iray Carone, publicado com o título “Fascismo on the air” (https://www.scielo.br/j/ln/a/cf6ZhL3pz75vnZCGQdq4mNs/?lang=pt). Carone é também autora de um livro bastante interessante sobre as pesquisas do frankfurtiano sobre o rádio, Adorno em Nova York – os estudos de Princeton sobre a música no rádio (1938-1941), que igualmente recomendo a leitura.

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