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Na Amazônia, o pior ainda está por vir

Do ISA, terça-feira, 27 de Julho de 2021
Por Antonio Oviedo, coordenador do programa de monitoramento de áreas protegidas do ISA


Programa:
Monitoramento de Áreas Protegidas


Queimada é vista as margens da rodovia BR-230 no município de Apuí, Amazonas (Agosto/2020)

Leia artigo publicado nesta terça-feira (27/07) na Folha de S. Paulo

A Amazônia tem um destino certo e triste pela frente em 2021. A explosão do desmatamento e a previsão de inverno mais seco na região devem provocar queimadas piores do que as registradas nos últimos dois anos.

Os efeitos desse avanço desenfreado já são sentidos na terra e no ar. No “dia do fogo”, em 10 de agosto de 2019, produtores rurais de Novo Progresso e Altamira, no Pará, iniciaram um incêndio coordenado para desmatamento e grilagem. Nove dias depois, a fumaça originada transformou o dia em noite em São Paulo, distante pelo menos 3 mil km dali.

Entre 10 e 11 de agosto daquele ano, o Inpe detectou 1.457 focos de calor no Pará. Um dia antes, apenas 101 haviam sido contabilizados. Vale lembrar que o Ibama foi alertado três dias antes, mas não atuou para impedir a ação.

Em 2020, além do aumento de 19,5% de queimadas e incêndios florestais na Amazônia, foi registrado também aumento de 376% de desmatamento por fogo no Pantanal, em comparação à média das últimas duas décadas. O dado mais grave é que 43% da área era virgem.

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Na Amazônia, 65% das áreas queimadas em 2020 eram formadas por florestas, evidenciando que as invasões e o desmatamento avançaram sobre partes preservadas.

Neste ano, entre março e maio, os alertas de desmatamento foram 29% maiores em comparação com o mesmo período de 2020. No intervalo, foram derrubados mais de 199 mil hectares, uma área maior que a capital paulista.

Toda essa madeira tombada deve se tornar combustível para as queimadas no período da seca. As árvores precisam permanecer até três meses no chão para perder umidade e, com isso, queimar mais facilmente. E o período de poucas chuvas, que terminou em abril de 2021, também contribui para o aumento do fogo.

Durante o mês de junho e início de julho, outros 124.819,7 hectares já foram desmatados, aumentando ainda mais a quantidade de combustível pronto a ser queimado e o risco de incêndios.

Se depender do orçamento previsto para o Ministério do Meio Ambiente em 2021 —o menor em mais de 20 anos—, a reversão desse quadro parece impossível. As áreas de fiscalização ambiental e combate a incêndios perderam 27% de verbas em comparação com 2020.

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Para piorar o panorama, as queimadas podem tornar a Covid-19 mais nociva, pois prejudicam a qualidade do ar. Estudos mostram que, durante o período seco em 2020, ao menos 2.195 internações na região amazônica ocorreram devido a doenças respiratórias, a maior parte delas de pessoas com 60 anos ou mais (49% dos casos).

Sabemos que os grileiros formam a maioria dos invasores de áreas protegidas na Amazônia. Para combater essa prática ilegal, os fiscais, o grupo especial do Ibama e a Polícia Federal precisam fazer operações conjuntas nas áreas de maior desmatamento. Elas devem ser reapropriadas, os equipamentos precisam ser confiscados e os invasores, expulsos.

É importante ainda a aprovação pelo Congresso Federal do projeto de lei 11.276/2018, que institui o manejo integrado do fogo. Trata-se de uma aposta válida para contemplar o conhecimento tradicional das comunidades locais e fortalecer práticas educativas que contribuam para o uso adequado do fogo na Amazônia.

Queimada é vista as margens da rodovia BR-230 no município de Apuí, Amazonas (Agosto/2020)|Bruno Kelly/Amazônia Real

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