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LUTA E REPRESENTATIVIDADE: ENTENDA A HISTÓRIA DO DIA DA MULHER NEGRA E A IMPORTÂNCIA DE TEREZA DE BENGUELA

25 de julho marca o Dia da Mulher Negra, a data é considerada um símbolo de resistência; para falar sobre o assunto, o Aventuras na História entrevistou com exclusividade com a historiadora, Wania Sant’Anna. Confira!


Quadro de Tereza de Benguela -
Divulgação/ GreatBlacks/Wikimedia Commons


Do UOL, 25 de Julho 2021
Por PENÉLOPE COELHO 
 

Este domingo, 25 de julho, marca a celebração do Dia da Mulher Negra no Brasil, a data é considerada um marco para reiterar a história de resistência e a luta das mulheres negras.

Em entrevista exclusiva para o Aventuras na História, Wania Sant’Anna, consultora para Diversidade & Inclusão da Daniel Advogados, vice-presidente do Conselho Curador do IBASE e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro, nos levou em uma jornada detalhada sobre o assunto.

Internacionalmente, a celebração também é conhecida como o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino Americana e Caribenha, reconhecida pela ONU desde 1992.

De acordo com Wania, a data internacional foi criada através de uma “decisão coletiva formulada na cidade de São Domingos, capital da República Dominicana durante o primeiro Encontro da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha [...] com o objetivo específico de lutar contra o racismo, a discriminação racial e contra o sexismo”.

A historiadora revela que a data é de extrema importância para compreender o passado, a fim de mudar o presente e o futuro.
“O 25 de julho é uma data com essa vibração: resgatar o passado, fazer a crítica necessária sobre o nosso presente e dizer a sociedade qual futuro desejamos".


Fotografia de Wania Sant’Anna / Crédito: Divulgação/ Arquivo Pessoal

Tereza de Benguela

Já no Brasil, o dia passou a ser comemorado desde 2014, durante o mandato da ex-presidente Dilma Rousseff. Em território brasileiro, esse dia também presta uma homenagem para a líder quilombola Tereza de Benguela, mulher que se tornou heroína para o povo negro do país, principalmente para as mulheres.

Durante o período da escravidão, após a morte do marido, a Rainha Tereza — como ficou conhecida — liderou o Quilombo de Quariterê, localizado no atual estado do Mato Grosso. Na época, sua liderança se destacou.

“Os quilombos foram criados por escravos que conseguiam fugir dessa condição de privação legal de sua liberdade e submissão à produção colonial e julgo de senhores de escravos”, explica Sant’Anna.

De acordo com a especialista, os estudos a respeito de Tereza revelam uma liderança de grande importância histórica.
“Ela teria abrigado mais de 200 habitantes, seria autossuficiente na produção de alimentos, realizavam comércio na região, produziam tecidos e utensílios. Outra característica importante e comprovada em fontes históricas tem a ver com sua forma de gestão.”

Segundo Wania, o quilombo em questão contou com a “formação de um Parlamento, uma espécie de Senado presidido pela própria Tereza de Benguela na condição de rainha – ou seja, haveria uma gestão 'democrática' também nas decisões que envolviam a sobrevivência daquela comunidade”.


Imagem ilustrativa de uma manifestante / Crédito: Getty Images

“Considerando os anos de existência e resistência desse quilombo, incluindo os embates como poder colonial na localidade, essa experiência de gestão da comunidade nos parece muito importante, reflete o grau de organização interna – havia economia e também política nessa estratégia de resistências”, afirmou a historiadora.

Assim como a figura de Zumbi dos Palmares e muitos outros líderes quilombolas, Tereza de Benguela também foi muito importante, é preciso que ela seja lembrada e reconhecida, principalmente quando falamos sobre representatividade, por isso, a Rainha Tereza é homenageada nesta data.

Segundo Sant’Anna, o legado da líder quilombola se refere também a uma história de resistência à escravidão.
“Subverte qualquer ideia de que africanos traficados como escravos para o Brasil foram completamente submetidos ou que aceitaram a condição de escravos sem qualquer tipo de rebeldia, revolta ou construção de alternativas. A escravidão não foi uma experiência pacífica, seja do ponto de vista individual (as fugas demonstram) ou coletivo (a existência dos quilombos, por todo o país atestam)”, afirma.

A luta continua

No último ano, o racismo foi uma pautas mais comentadas na mídia, desde a morte de George Floyd, nos Estados Unidos, protestos antirracistas dominaram as ruas ao redor do globo.

Sabe-se que a luta contra o racismo continua, já que as consequências da escravização deixaram marcas que infelizmente perduram até os dias atuais. Quando falamos de mulheres negras, a situação pode ser ainda mais alarmante:
“As mulheres negras não ocupam a base da pirâmide social por mero acaso. Muito ao contrário, o estado de subordinação e interiorização sistemática das mulheres negras brasileiras é resultado de ações objetivas e situações concretas”, relata a consultora.

Segundo a doutoranda, o racismo e a discriminação racial impactam todas as esferas de existência e realização das mulheres negras: “Temos problemas na educação, na saúde; as mulheres negras são aquelas mais negativamente afetadas pelo desemprego, subemprego, informalidade e discriminação salarial de gênero”, pontua.

Para a especialista, para que cada um consiga fazer sua parte contra o racismo no país, incialmente é prioritário que se reconheça os verdadeiros lutadores.

“Uma das coisas importantes a serem feitas no Brasil contra o racismo é reconhecer, verdadeiramente, a organização política das organizações do movimento negro e das mulheres negras no país. Por aqui não haverá qualquer luta antirracista sem que antes, e, sobretudo, se reconheça o sujeito político autorizado dessa luta”, finaliza.

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