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Edgar Morin e o seu centenário. Odisséia, complexidade e incerteza Edgar Morin retratado em aquarela de Marcos Beccari.

 Foto: Pixabay. Edições: IHU


Do IHU, 08 Julho 2021



Um século de complexidades. O mundo perpassa hoje por um das maiores crises humanitárias e civilizacionais da história, o que é um dos maiores desafios para as ciências: compreender o todo depois de um pensamento e um modo de vida dominante extremamente fragmentado. "De fato, a importante revelação dos impactos que sofremos é que tudo aquilo que parecia separado está conectado, porque uma catástrofe sanitária envolve integralmente a totalidade de tudo o que é humano", escreveu Edgar Morin no despertar da pandemia. Para alguns pensadores, os anos pandêmicos, 2020 e 2021 até então, podem fazer emergir um novo ciclo político, econômico, ambiental e científico. Para outros, é uma continuidade do que se viveu, e talvez gere uma intensificação ainda maior. Porém, para o filósofo francês que completa 100 anos no dia de hoje, vivemos "aventura incerta na qual se desenvolverão as forças do pior e do melhor, estas últimas estando ainda debilitadas e dispersas. Saibamos enfim que o pior não é certo, que o improvável pode irromper, e que, no titânico e inextinguível combate entre inimigos inseparáveis são Eros e Tânatos, é sensato e revigorante tomar parte de Eros".

Edgar Morin, nascido em 08 de julho de 1921, em Paris, na França, viveu uma vida de complexidades, não apenas pela teoria que leva este nome, mas por assim encarnar os desafios da vida. Em 100 anos, transitou por eventos históricos, transformações de ordens internacionais, revoluções políticas, econômicas, científicas e culturais, pessoal e intelectualmente transgrediu as fronteiras físicas e abstratas do pensamento, e diante de tudo, ainda se diz inconcluso: "mesmo que eu morra amanhã, meu pensamento sempre ficará inacabado". Na Segunda Guerra Mundial fez parte da Resistência Francesa, para combater a "nação mais culta da Europa" que se tornara "a mais bárbara". Percebeu as fissuras, ou "brechas", que o movimento em Maio de 68 causaria, "debaixo da linha de flutuação da civilização burguesa ocidental. Não era a revolução".

O autor transitou das ciências clássicas, compartimentadas, para uma explicação transversal do mundo. Segundo o próprio Morin, tornou-se um "humanólogo" ainda jovem, até migrar para outras áreas do conhecimento e elaborar "O Método". Esse itinerário do pensamento de Morin, foi tema do artigo de Maria da Conceição de Almeida, publicado no Cadernos IHU Ideias. Para Almeida, a "fecundidade da construção do Método por Edgar Morin está no fato de tentar religar, no domínio da ciência, o que já se encontra direta ou indiretamente interconectado no mundo das materialidades e das topologias imaginárias. Longe, pois, das transposições mecânicas de conceitos, oriundos da biologia, da física ou da teoria da informação, trata-se mais propriamente de aproximar, relacionar, fazer dialogar e buscar pontos de confluência entre as complexas singularidades da matéria e do espírito, mesmo que não se deva descuidar dos perigos da extrapolação indevida das metáforas".

Morin coloca o seu percurso intelectual na figura do caminhante da poesia de Antonio Machado "caminante, no hay camino / se hace camino al andar". Para Almeida, está é a expressão odisseica do francês: "Sem uma bússola que indica uma direção pré-definida se torna o caminhante; recusa a ortodoxia qualquer que seja ela; empreende, ao longo de sua vida, uma Odisseia do pensamento. Como o Ulisses da Odisseia, que se confundia com os habitantes dos lugares por onde passava, Edgar Morin sabe transitar pelas diversas searas do conhecimento e matizar a relação indissociável entre “amor, poesia e sabedoria”, conforme o título de um de seus livros".

Embora a grande obra de Morin seja o "O Método", desenvolvida ao longo de 30 anos, em seis volumes, há uma vasta produção do autor em constante atualização e sintonia com os seu percurso na vida. Assim como explica Almeida, Edgard de Assis Carvalho, filósofo e tradutor de artigos de Morin para o português, o pensamento de Morin não é uma resposta certa para os desafios do mundo, "mas a complexidade deve ser vista como desafio constante a ser posto em prática na vida social em seu conjunto em prol de um mundo mais justo, equitativo e ético, e isso no nível do indivíduo, da sociedade e da espécie".

Em entrevista concedida à edição especial da Revista IHU On-Line em homenagem a Edgar Morin, Carvalho resume a produção do Método da seguinte forma:

"O volume um – A natureza da natureza (Europa América: Portugal 1987. Porto Alegre: Sulina, 2003)– estabelece a dialogia entre ordem e desordem que marca a passagem das leis da natureza à natureza das leis. A unidade complexa da natureza contém relações entre todo e partes, emergências e reorganizações de padrões organizatórios aleatórios. A natureza não é regida unicamente por relações de causa e efeito e, em si mesma, não é portadora de uma finalidade estabelecida a priori.

O volume dois – A vida da vida (Europa América, 1999. Sulina, 2001)– penetra a fundo na ecologia, pelo simples fato de que os ecossistemas são sistemas vivos que, a todo tempo, integram a organização biológica na ordem cósmica.

O volume três – O Conhecimento do Conhecimento (Europa América, 1996. Sulina, 2002)– abrange o processo do conhecimento e a abertura bioantropossociológica e é o ponto de partida para a análise do inacabamento humano. Conhecer é computar, e essa computação é tecida pelo entrelaçamento dos itinerários racional-lógico-dedutivo e simbólico-mítico-imaginário.

O volume quatro – As ideias: habitat, vida, costumes, organização (Sulina, 2002. Europa América, 2002) – incursiona pelas noosferas e noologias, ou seja, esses circuitos de ideias que organizam as percepções do sujeito. Os sistemas de ideias que conformam as teorias e conceitos devem ser abertos, biodegradáveis, jamais eternos e fixos. Funcionam como operadores de organização do mundo da vida.

O volume cinco – A humanidade da humanidade: a identidade humana (Sulina, 2003. Europa América, 2003) – estabelece uma relação crítica com o conceito de identidade e adverte contra os sentidos do relativismo que não consegue enxergar além das fronteiras de raça, sexo, religião. A identidade nunca é pura, pelo simples fato de que ordens individuais, sociais e cósmicas estão em constante interação, e nem sempre de modo harmônico. Por vezes são antagônicas e contraditórias.

Finalmente o volume seis – A Ética (Europa América, 2005. Sulina, 2005) – ilustra as contradições contemporâneas que cercam a ética individual e a ética da polis. É preciso redefinir o pensamento da ética e a ética do pensamento. Qualquer ato ético é uma religação com o mesmo e o outro, com a comunidade, a humanidade, o cosmo".

O historiador Gerson Egas Severo, em entrevista concedida à Revista IHU On-Line, explica que o paradigma da complexidade é um modo de rompimento com o antropocentrismo. Assim, Edgar Morin "fusiona" as ciências humanas e biológicas, fazendo-as ciências da vida. "A reposição dos seres humanos no centro de um universo que contempla o mais macro e o mais micro não nos deve, entretanto, deixar enganar: não se trata do homem como medida de todas as coisas de Protágoras e nem do antropocentrismo de corte renascentista-iluminista (em seu elogio à ciência, Marcelo Gleiser fala do homem como medidor de todas as coisas...). Trata-se, mesmo, do contrário: o saber-se parte de um Universo, de um planeta, de um passado compartilhado, de uma sociedade presente e futura, implica precisamente um 'descentramento' dos seres humanos, um passo para o lado, um deslocamento – um cosmocentrismo? – que promoverá uma visão de si mesmo, bem como do mundo e das coisas do mundo, em uma perspectiva mais adequada porque relativizada", afirmou Severo.

O sociólogo italiano Giuseppe Furmarco, em artigo publicado pelo IHU no Cadernos Teologia Pública, procura estabelecer as relações entre Morin e a encíclica Laudato Si', do Papa Francisco. Em um recorrido de conceitos, alguns dos apontamentos centrais para Furmarco é que tanto na obra de Morin quanto na encíclica está presente a necessidade de uma nova civilização, que parte por uma nova forma de pensar e agir com o mundo. Furmarco destaca "que muitos são os lugares em que a Encíclica se entrecruza, cada vez, com a cultura ecológica e contra uma cultura antropocêntrica, por uma epistemologia da complexidade e para a denúncia do chamado 'paradigma tecnocrático' em muitos outros lugares a Encíclica converge com a abordagem do 'pensamento moriniano' da inter-poli-transdisciplinaridade, como antídoto ao saber fragmentado e reducionista e ao 'paradigma da disjunção e da separação' (como é chamado, normalmente, por Morin)".



Laudato Si’, teoria da complexidade e ecologia integral. Palestra do Prof. Dr. José Roque Junges, no XVIII Simpósio Internacional IHU "A virada profética de Francisco".

A relação entre a Laudato Si' e o pensamento complexo foi reconhecida por Morin, em entrevista ao La Croix, e traduzida e publicada em português pelo IHU. "Nós vivemos uma época de deserto do pensamento, um pensamento fragmentado em que os partidos que se dizem ecologistas não tem nenhuma real visão da magnitude e da complexidade do problema [...] Neste 'deserto' atual, pois, eis que surgiu esse texto que vejo bem estruturado, e que responde a esta complexidade! Francisco definiu a 'ecologia integral', que não é, sobretudo, esta ecologia profunda que pretende converter ao culto da Terra e subordinar tudo a ela. Ele mostra que a ecologia toca profundamente as nossas vidas, a nossa civilização, os nossos modos de agir, nossos pensamentos".


Edgar Morin e Papa Francisco no Vaticano em 2019 (Foto: Vatican News)

Francisco e Morin encontraram-se em 2019, quando compartilharam seus pensamentos sobre a necessidade de reforma dos saberes escolares, questão amplamente pesquisada e desenvolvida pelo francês, e embarcada pelo Papa Francisco para o Pacto Educativo Global. No último sábado, em homenagem da UNESCO ao centenário de Morin, Francisco enviou uma carta, na qual dirigia os agradecimentos "pela ênfase na necessidade de alcançar o progresso moral e intelectual para evitar as catástrofes, a consciência de um destino comum da humanidade, destino frágil e ameaçado, prendeu toda a sua atenção promovendo a necessidade de uma política de civilização com vistas a colocar o homem no centro e não o poder do dinheiro".



Homenagem da UNESCO aos 100 anos de Edgar Morin

Os cem anos de Edgar Morin deixaram e deixarão seu pensamento inacabado, mas ainda hoje, em constante movimento e provocações. Suas obras vastas e complexas ainda tem muito a inspirar para os anos vindouros. Por fim, Morin expressa uma inspiração concreta a todos, escrita no seu artigo publicado durante um crítico momento da pandemia de coronavírus: "Toda crise me estimula, e esta, de imensas proporções, pela qual passamos agora, me estimula enormemente"

Para ler um pouco mais sobre a vida e obra de Morin confira abaixo os eventos, lista de entrevistas e artigos publicados pelo IHU

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