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A variante delta do coronavírus, mais contagiosa, se espalha por países da América Latina

Mutação descoberta na Índia parece mais infecciosa e com certa capacidade de evitar a imunidade, mas não necessariamente mais mortal e resistente a todas as vacinas


Um grupo de pessoas espera em observação após receber a vacina Pfizer-BioNTech na Cidade do México em 11 de maio.PEDRO PARDO / AFP


Por JORGE GALINDO
Do El País, 03 JUL 2021


A Argentina, Brasil, Chile, Cuba, Equador, México e Peru já detectaram em seus territórios a variante do SARS-CoV-2 que mais atenção gera no mundo. A delta, detectada primeiro na Índia e já presente em pelo menos 92 países, se destaca de suas predecessoras genéticas por uma capacidade maior de contágio.

Em 21 de junho, o diretor-executivo da OMS disse que a delta era uma variante “mais rápida e que afeta os mais vulneráveis ao contágio de modo mais eficiente que suas predecessoras”. Essa característica essencial transforma a B.1.617.2 em uma “variante de preocupação” para o Centro de Controle de Doenças norte-americano (CDC). Ainda não é uma “variante de consequência elevada”, a categoria de maior perigo no esquema do CDC. Mereceria tal categorização caso se considerasse que “as medidas de prevenção e médicas existentes veem sua efetividade particularmente reduzida em comparação com variantes anteriores”. Felizmente, ainda não é o caso da delta.

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A evidência disponível só permite assumir que possivelmente a variante delta infecta mais facilmente do que suas predecessoras, talvez cause mais risco de hospitalização, mas não é necessariamente mais mortal, e certamente várias das vacinas em uso funcionam bem contra ela, apesar de parecer demonstrar uma certa capacidade melhorada para driblar defesas imunológicas já adquiridas. Resta confirmar se todas as vacinas serão igualmente eficientes.

Mais contagiosa

O objetivo principal do vírus é permanecer, sobreviver. Para isso precisa infectar, uma necessidade marcada por dois motivos: o mais óbvio é que se não o fizer, desaparecerá. O desenlace de qualquer batalha entre nossos corpos e uma infecção é a morte do vírus, por nossas defesas conseguirem acabar com ele e porque ao não consegui-lo, nossa morte causa a do patógeno. De modo que precisa encontrar novos anfitriões. Mas (e essa é a segunda razão), além disso, cada salto de um corpo a outro significa uma minúscula peça em um quebra-cabeças evolutivo. As ideais para o vírus são aquelas que aumentam sua transmissibilidade, dando a ele ferramentas extras para se agarrar aos corpos que estiverem ao seu alcance. E tudo indica que a delta é uma mutação que conseguiu se tornar dominante na Índia, Rússia, Portugal, Indonésia e no Reino Unido graças a algumas dessas ferramentas, chegando a pelo menos 92 países hoje.

Nas palavras de Wendy Barclay, professora de virologia no Imperial College de Londres, a delta teria dado “aptidão” à permanência do vírus nas vias respiratórias. “O vírus que surgiu em Wuhan não foi excelente nesse sentido, de modo que se transmitiu, mas não tão bem como poderia. A variante alfa deu um passo além para melhorar essa característica com uma determinada mutação, e a variante delta se baseou nisso e deu um segundo passo agora, um passo maior, para melhorar essa característica”, disse Barclay. Um resultado dessa e outras possíveis ferramentas acrescentadas é a maior carga viral na respiração, segundo um trabalho de Ravindra Gupta e sua equipe na Universidade Cambridge.

Estabelecer o efeito agregado dessas mudanças é mais difícil. As estimativas preliminares do Reino Unido, primeiro país europeu em que a delta atingiu com força e dono de um dos sistemas de vigilância genômica de vírus mais avançados do mundo, indicam que a delta é 40%, 50% e até 60% mais infecciosa do que a alfa, uma variante que já havia melhorado sua capacidade de contágio em relação à versão original do vírus surgida em Wuhan. Essas porcentagens indicam a diferença na taxa secundária de ataque entre delta e alfa, ou seja: a probabilidade de que uma pessoa portadora de SARS-CoV-2 versão delta a transfira a outra, em comparação com uma que porta a versão alfa.

Mas os intervalos de confiança são muito amplos. Neil Ferguson, epidemiologista de referência no Imperial College e assessor do Governo britânico, situou a melhora da delta entre 30% e 100%. A capacidade de contágio de um vírus, como afirmou há poucos dias o porta-voz mexicano da pandemia, Hugo López-Gatell, depende enormemente do contexto. Discernir se uma vantagem em velocidade observada em um país se manterá, aumentará e diminuirá em outros é analiticamente perigoso.

Ainda assim, dada a incidência acumulada do contágio na América Latina e suas condições diferenciais de partida (particularmente a densidade urbana e a dificuldade de amplas camadas da população para se proteger no caso de necessidade), a hipótese de partida em relação ao potencial de contágio da delta deve ser mais pessimista. Também é preciso acrescentar que até uma melhora pequena na transmissibilidade pode ter consequências gigantescas dada a lógica exponencial de qualquer pandemia, amplificadas em cada nova onda.
Mas não (necessariamente) mais mortal

Uma nova onda de contágio sempre trará mais mortes em termos absolutos, mas isso não significa necessariamente que a variante que a provoca é mais mortífera.

Com a delta, estudos preliminares na Escócia e outras partes do Reino Unido estimaram uma probabilidade multiplicada quase por dois de hospitalização nos pacientes delta em relação aos alfa. Mas, ainda que o dado tenha sido obtido levando em consideração diferenças de idade, sexo e status de vacinação, é cedo para extrapolar que a delta seja, efetivamente, mais virulenta. A hospitalização não é um indicador rigoroso, nem que viaje nitidamente de país para país e de momento a momento dentro de um mesmo país, uma vez que está sujeito a critérios mutáveis dependentes do contexto.

De fato, em sua última avaliação da evidência disponível, o próprio Governo britânico falava do risco de maior hospitalização como uma descoberta certa, mas preliminar, ainda considerada como pouco confiável na falta de estudos melhores e mais variados. De qualquer modo, o contágio aumentado é suficiente para preocupar as autoridades, ainda que as respostas à delta dentro da América Latina sejam notavelmente variadas.

Tentando se antecipar a ela, Alberto Fernández decretou uma severa limitação de entrada na Argentina: somente 600 pessoas por dia podem chegar por via aérea, apesar da delta continuar somando casos, inclusive, de pessoas que entraram em seus aviões com PCR negativo no local de origem. As autoridades epidemiológicas mexicanas, por sua vez, relativizam a preocupação, ainda que tenham encontrado essa variante em mais de 10% das amostras genéticas do vírus coletadas em junho e enviadas à iniciativa GISAID. O Ministério da Saúde colombiano dá como certo que chegará ao país. O peruano acredita, até mesmo, que predominará.

Efetivamente, conter a contagiosa delta com restrições à mobilidade pode ser particularmente complicado em uma região de fronteiras porosas e exausta econômica e socialmente. A vacinação parece uma estratégia muito mais segura, desde que adquira o ritmo e eficiência necessários.

As vacinas funcionam (até onde sabemos)


O maior medo diante de qualquer variante do vírus que se demonstra como mais eficiente no contágio é que tal eficiência também a ajude a superar a imunidade produzida pelas vacinas disponíveis.

A capacidade de escape imunológico sobre as defesas adquiridas por infecções passadas existe na delta, e pôde ser vista na Índia. Ao mesmo tempo, estudos de laboratório permitiram comprovar perdas de capacidade diante da delta entre leves e modestas nos anticorpos produzidos pelas vacinas da AstraZeneca, Janssen, Moderna e Pfizer. Vão na mesma direção declarações de oficiais do Governo chinês em relação às desenvolvidas pela Sinovac e Sinopharm, de forte presença na América Latina, assim como anúncios realizados pelos desenvolvedores da russa Sputnik. Mas o essencial não é que tenha ocorrido uma redução, e sim que esta não foi absoluta. Se trata, de fato, de indícios positivos, que podem ser lidos como que vacinas desenvolvidas com base em versões anteriores do vírus ainda são capazes de produzir anticorpos que funcionam com as mais novas.

Além disso, o verdadeiro teste de vacinas em uso ocorre no mundo real. Os dados do Reino Unido são, mais uma vez, reveladores. Lá, um cálculo rápido resultante da divisão de mortes confirmadas entre casos detectados para cada variante indica 2% para Alfa, e 0,3% para a delta. Essa redução sêxtupla não obedece necessariamente às características da mutação, e sim ao momento em que esta se propagou, com uma porcentagem muito maior de população vacinada. Ajuda, também, a tornar menos provável a hipótese de maior letalidade intrínseca da delta.

Em uma análise mais afinada, as autoridades britânicas compararam a efetividade das vacinas utilizadas no país (AstraZeneca e Pfizer) no momento de reduzir probabilidades de sintomas e de hospitalização. Os resultados são claros: a proteção, uma vez completada a pauta de vacinação de duas doses, é considerável, mas é sensivelmente menor com somente a primeira das duas.

Os dados conhecidos para a Sputnik V, anunciados pela própria farmacêutica Gamaleya, são semelhantes aos que já mantinha à variante original: por volta de 90% de redução de probabilidade de sintomas. Ao contrário dos dados para a Pfizer e AstraZeneca, entretanto, neste caso vêm exclusivamente de informações do fabricante, ainda sem o contraste por parte de autoridades sanitárias e científicas.

Com as outras vacinas usadas na região a informação também é limitada. Tanto a Janssen como a Moderna anunciaram que as pequenas reduções em resposta de anticorpos observadas em laboratório não são significativas, e antecipam que as duas vacinas funcionarão bem contra a Delta. Mas ainda não existem dados do mundo real comparáveis aos anteriores. Assim como não há para as farmacêuticas chinesas Sinovac e Sinopharm, cuja efetividade de partida contra casos sintomáticos é um pouco menor do que as outras. As mensagens vindas da China não têm clareza suficiente para extrair conclusões e fornecer dados, necessários para definir não só se as vacinas são a resposta à delta (algo que, pela experiência britânica, parece difícil de refutar), como para confirmar quais são a melhor resposta possível.

No começo de sua distribuição, os gargalos na oferta mundial de vacinas ofereciam um guia simples de comportamento para todos os governos do mundo: a melhor vacina é a que chega primeiro à população. Com o relaxamento da demanda, a ampliação da disponibilidade, e a prioridade mundial passar a ser não só evitar desenvolvimentos graves da doença e sim controlar a contínua emergência de variantes que colocam em risco a eficiência de ferramentas disponíveis, essa decisão será mais complicada de tomar.

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