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O dispositivo de poder neoliberal e seus efeitos subjetivos no atual contexto de pandemia

Do IHU, 26 Junho 2021
Por Ximena Soledad Jaureguiberry


“A crise representada pela atual pandemia deveria deixar como saldo, em nível global, uma profunda transformação deste modelo de exploração da humanidade e devastação ambiental, mas para isso é necessário pensar nos outros, com os outros”, escreve Ximena Soledad Jaureguiberry, psicóloga, formada pela Faculdade de Psicologia, da Universidade Nacional de La Plata, em artigo publicado pela Revista Movimiento, 24-06-2021. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O neoliberalismo não é apenas uma doutrina econômica, mas constitui um vasto arcabouço cultural, político e ideológico que estende a lógica da mercantilização a todas as esferas da vida social. A agenda que subjaz é a de um projeto de sociedade e de ser humano completamente funcional ao sistema econômico imperante.

Neste sentido, foram reveladoras as palavras de Margaret Thatcher, uma das figuras mais representativas do neoliberalismo em nível político: “A economia é o método, o objetivo é mudar a alma” (citado em Harvey, 2009: 9). A matriz cultural neoliberal opera como um dispositivo biopolítico produtor de uma subjetividade alienada.

São vários os teóricos que deram conta dessas estratégias dirigidas de maneira preponderante a produzir uma modelização subjetiva em sintonia com o aparato econômico. Foucault (2007) caracterizou essa produção de subjetividade como a de um “empresário de si”, que dirige sua própria vida como uma empresa, ou aplica à sua própria existência os princípios da administração racional do trabalho, inventados dentro da empresa capitalista.

Marcuse (1993) fez referência ao “homem unidimensional”, caracterizado pela ausência de pensamento crítico e de capacidade para a ação coletiva revolucionária, um produto da sociedade industrial avançada, aprisionado à lógica da circulação de mercadorias cada vez mais inovadoras e à manipulação dos meios de comunicação.

Mais recentemente, Han (2014) menciona o “sujeito do rendimento” que se autoexplora, acreditando estar livre de qualquer coação externa e que vive em prol de um ideal de produtividade e positividade ilimitadas.

Estas são algumas das facetas nas quais se manifestam as transformações subjetivas em sintonia com os discursos mercantilistas vigentes na época.

O suporte e a legitimidade das políticas neoliberais se fundam em sutis estratégias de manipulação que visam mostrar que este estado de coisas é o único possível e desejável, e a produzir trabalhadores-consumidores dóceis, deixando a exclusão como o destino para grandes massas de população.

De acordo com Harvey (2009), “o neoliberalismo se tornou um discurso hegemônico com efeitos onipresentes nas formas de pensar e nas práticas político-econômicas até o ponto de, agora, fazer parte do sentido comum com que interpretamos, vivemos e compreendemos o mundo”. Abaixo, serão analisados seus efeitos em nível socioeconômico e subjetivo, no contexto da pandemia.

A política da morte e a banalização do mal


As políticas neoliberais costumam ser definidas como políticas econômicas de exclusão (Salama, 2003), cujo total fracasso se traduz no agravamento das desigualdades sociais. No entanto, seria talvez mais adequado defini-las como políticas de morte.

Os governos de cunho neoliberal, tanto em nossa região como no resto do mundo, evitaram adotar estratégias de contenção do contágio de COVID-19 e de cuidados da saúde pública, pois tais medidas paralisariam a economia, o que manifesta a verdade desta forma selvagem de capitalismo: só importa a produção e a vida é secundária.

O próprio do capitalismo neoliberal é a mercantilização extrema da vida humana. Daí os discursos que rezam “que morram aqueles que tiverem que morrer” ou “os velhos vivem muito”. Quando pensamos na situação das pessoas idosas e os pobres, que são mais vulneráveis à COVID-19, é evidente que nessas palavras se esconde – e não muito bem – a ideia latente de um genocídio, onde aqueles que sobrevivem “são os melhores e os mais aptos”... leia-se: aqueles que podem permanecer em suas casas ou em seus countries, ou que vão buscar suas vacinas em Miami.

“O darwinismo social, ou seja, a ideia da sobrevivência do mais forte em um cenário de concorrência feroz, é uma concepção pseudocientífica que faz parte da matriz neoliberal da cultura. Se na primeira metade do século XX serviu para justificar práticas eugênicas e genocídios, no contexto atual da pandemia, serve para justificar o abandono à sua sorte dos setores mais frágeis da população: os idosos e os trabalhadores informais” (Flax, 2021: 14).

O neoliberalismo implanta uma cultura de morte cujas consequências são a devastação econômica, social e ecológica e a devastação subjetiva. No entanto, uma questão paradoxal a ser analisada é por que essas consequências não geram efeitos de mobilização social proporcionais à sua gravidade. Mais surpreendente ainda é que setores pertencentes às classes trabalhadores, muitas vezes, aderem a essas políticas e, em definitivo, a essa visão desumanizada do mundo. A resposta está em uma extensa operação de manipulação ideológica.

Em A banalização da injustiça social, Cristophe Dejours (2006: 17) questiona por que o sofrimento dos excluídos não provoca indignação social, protesto, nem chama à ação coletiva. A resposta a esta interrogação está dada pela imposição e o sucesso do discurso economicista, que atribui todo o sofrimento à “causalidade do destino e nega a responsabilidade e a injustiça na origem do dito mal-estar, com a adesão em massa de nossos concidadãos, com seu corolário, a resignação ou a ausência de indignação e de mobilização coletiva”.

A adesão acrítica e irreflexiva ao discurso economicista seria uma manifestação do processo de “banalização do mal”. Banalidade do mal é um conceito cunhado pela filósofa alemã Hannah Arendt (1969) para descrever como um sistema de poder político pode trivializar o extermínio de seres humanos, quando realizado como um procedimento burocrático, e com o qual, a partir das estruturas de um poder totalitário, formam sujeitos incapazes de pensar sobre o sentido moral de seus atos, alinhados a tal ponto que a interiorização do dever e a obediência a um regime os levam a justificar como normal o extermínio ou a eliminação de outras pessoas.

Embora as análises de Arendt se referem ao nazismo e podem ser aplicadas a outras formas de totalitarismo, com base em Dejours, é válido sustentar que a banalização da injustiça social é claramente uma forma de banalidade do mal. Retomando a análise que este autor realiza: “A exclusão e o mal-estar infligidos a outros em nossas sociedades, sem mobilização política contra a injustiça, estariam relacionados justamente com uma separação entre mal-estar e injustiça sob os efeitos da banalização do mal no exercício dos atos civis ordinários por aqueles que não (ou ainda não) são vítimas da exclusão, mas que contribuem para excluir e agravar a infelicidade de partes cada vez mais importantes da população” (Dejours, 2006: 17).

A superfluidade do semelhante


Na indiferença diante das condições de vida dos setores mais vulneráveis, opera uma violência silenciosa a que estamos acostumados, que não é questionada, que não é vista. O ambiente individualista em que vivemos nos torna alheios à essa realidade que acaba se naturalizando.

Individualismo, sucesso, meritocracia e toda uma mitologia sobre o self made man são discursos legitimadores do sofrimento dos outros e propulsores de uma forma de exclusão que reforça a exclusão econômica. Os excluídos não estão fora apenas do circuito da produção e do consumo e do acesso aos direitos fundamentais para a vida, mas também se busca excluí-los do olhar de seus semelhantes, apagá-los do campo discursivo.

Nessas formas de violência social não é possível localizar de forma direta o agente, e por isso ficam invisibilizadas. Só se evidencia a violência – ideologizada – veiculada pelos meios de comunicação, que insistem até o extremo no aumento da insegurança cidadã como forma de esconder o aumento real da insegurança social, ou seja, o perigo de exclusão.

O fato de considerar os coletivos mais vulneráveis como ameaças faz parte da mesma estratégia ideológica que busca isolar os sujeitos, (des)subjetivar, banalizar o sofrimento e escondê-lo sob discursos moralizadores (Farré e Jaureguiberry, 2008). Estas formas de violência social não imediatamente perceptíveis são manifestações da cumplicidade da sociedade com um sistema que arrasa com a vida de milhares de seres humanos.

Neste sentido, é interessante a distinção feita por Slavoj Žižek (2009) entre violência subjetiva e violência sistêmica. Se a violência subjetiva permite delimitar claramente quem a exerce, puni-lo e “demonizá-lo”, a violência objetiva está enraizada nas próprias origens do sistema capitalista, sendo própria dele, mas é difícil ser delimitada porque “esta violência já não é atribuível aos indivíduos concretos e suas intenções, mas é puramente objetiva, sistêmica, anônima (Žižek, 2009: 23).

Essa violência se espalha e permeia o campo social e, portanto, as visões de mundo dos próprios sujeitos. Uma de suas piores manifestações é a indiferença, onde nossos semelhantes se tornam meros números, dados, danos colaterais, ou mesmo inimigos. Uma verdadeira banalidade do mal.

Na obra antes mencionada, Arendt denuncia como fonte desta banalidade do mal a impossibilidade de pensar do ponto de vista alheio, do desconhecimento do outro, e também a razão instrumental, o ideal de eficiência próprio do capitalismo, cujo correlato é a naturalização do sofrimento resultante de transformar qualquer injustiça em um produto necessário do sistema.

Correlativamente, cria-se um quadro ideológico discursivo cuja finalidade é a legitimação da injustiça, dotando aqueles grupos que a padecem com características negativas. Mecanismo denegatório que torna aqueles que são vítimas de todos os males sociais suas encarnações. Porque aí está a questão de fundo: a exclusão social como categoria implica – mediante a construção ideológica – um estatuto do ser.

Não se trata do que fazem ou do que não fazem, nem do que têm ou não, trata-se do que são. Ao rotular um determinado grupo de pessoas como “delinquentes”, “vagabundos” ou “folgados”, institui-se um sentido que socialmente se cristaliza, torna-se parte do senso comum e se repete de forma acrítica e irrefletida em palavras e em atos, transformando os cidadãos em engrenagem de uma maquinaria cega que busca negar constantemente direitos como a liberdade, a igualdade e a vida.

A subjetividade neoliberal


Conforme foi mencionado, na estrutura capitalista atual, em sua vertente neoliberal, não apenas se busca a concentração da riqueza em oligopólios econômicos, como também supõe uma vontade de globalização de seus valores, apropriando-se da vida em geral e da subjetividade em particular, no político e no simbólico.

Em La era de la desolación (1999), o filósofo argentino Dardo Scavino destaca que a partir do poder são desarticulados os laços sociais, substituindo-os pela competitividade, o individualismo e a percepção do semelhante como inimigo. Tal operação não busca apenas maximizar os lucros que pode extrair dos sujeitos em sua qualidade de força de trabalho e consumidores. Busca também romper qualquer laço de solidariedade e qualquer pertença de classe social, como um modo de limitar o poder da ação coletiva.

O sujeito neoliberal, o empresário de si que se administra como uma empresa e busca se capitalizar de modo constante, não acredita na luta de classes, nem sequer na existência de classes. Vive em prol de um ideal de produtividade e positividade ilimitadas (Han, 2014), alimentado por discursos vazios de qualquer ação política.

É o que se junta ao coro do “sim, você pode” e suprime qualquer negatividade, queimando máscaras e reivindicando sua liberdade de ir ao shopping. Acredita que é livre enquanto se autoexplora para não se tornar um excluído a mais. É sujeito ideal do neoliberalismo, pois é incapaz de qualquer tipo de ação transformadora.

A participação, o interesse e o compromisso político exigem um sentido do social que atualmente encontra obstáculos para a sua construção. Exigem, além disso, consciência de classe, já que a perda ou diminuição da consciência de classe não é um fato menor como mecanismo de suporte e legitimação. Com o estímulo para que certos segmentos da classe trabalhadora, a partir dos discursos hegemônicos – individualizantes e moralizadores –, considerem aqueles que estão em condições de exclusão inimigos públicos, perde-se qualquer possibilidade de luta coletiva.

Em La nueva lucha de clases, Žižek (2016: 74) diz: “A tarefa da esquerda é reunir a classe trabalhadora”. A luta de classes é o antagonismo fundamental que subjaz em boa parte dos conflitos que se apresentam no social. Nesta obra, Žižek propõe mudar radicalmente a relação que temos com os mais vulneráveis: não devem ser tratados como seres fracos e oprimidos, mas devem ser tratados como companheiros de luta, com quem pensamos caminhos conjuntos na luta revolucionária.

É importante destacar que para Žižek a luta de classes se identifica com um momento da dialética hegeliana: o reconhecimento. Por meio da luta de classes, a distinção interior-exterior, inclusão-exclusão, se dissolve e abre-se a possibilidade para um espaço de reconhecimento mútuo. Talvez este seja o único caminho que nos permita transitar o longo caminho que vai de “meu vizinho é meu inimigo” até “a pátria é o outro”.
Palavras finais

O laço social como fundamento de toda ação política é uma ameaça para o mercado. Por isso, o “individualismo” se estabelece como característica fundamental da subjetividade contemporânea, sendo que a política está justamente no extremo oposto: o da solidariedade e o compromisso social.

No atual contexto de pandemia, o neoliberalismo busca criar uma ficção de sociabilidade encarnada nos runners, na ida aos shoppings e bares, que se opõe à noção de verdadeiro laço social, enquanto construção coletiva que se sustenta no cuidado do outro. Por mais paradoxal que soe, a maior demonstração de solidariedade e laço social hoje é ficar em casa: “É difícil ignorar a suprema ironia do fato de que o que nos uniu e nos conduziu à solidariedade global, expressa-se no nível da vida cotidiana em ordens rigorosas para evitar contatos próximos com os outros, inclusive para se isolar” (Žižek, 2020: 25).

Este é o paradoxo da liberdade: para os teóricos liberais, a liberdade é fazer “qualquer coisa”, sempre e quando “qualquer coisa” respeite as necessidades do mercado. Sendo que em uma sociedade democrática, a liberdade é um direito fundamental que, como todo direito – como qualquer produto simbólico capaz de regular e sustentar a vida humana –, se constrói com outros e implica limitações.

Mas não se deve perder de vista que a lei encarnada pelo Estado sempre entrará em contradição com a ausência de lei própria do mercado. Daí os ataques ferozes e constantes a qualquer tipo de política de cuidado da saúde que possa afetar a produção. Assim, há aqueles que saem para falar de “infectadura”, buscando mostrar as medidas de prevenção como uma espécie de estado de exceção arbitrário e totalitário, sendo que tais medidas são a expressão do funcionamento da lei e da existência de um contrato social que se opõe ao “salve-se quem puder”.

Nada mudará se continuarmos comprando o discurso do “salve-se quem puder”, porque no final das contas – no ritmo em que anda nosso mundo – ninguém se salvará. A crise representada pela atual pandemia deveria deixar como saldo, em nível global, uma profunda transformação deste modelo de exploração da humanidade e devastação ambiental, mas para isso é necessário pensar nos outros, com os outros.

Parece uma coisa simples, mas em um mundo infestado de informação [?], objetos de consumo e incerteza, a vida, os seres humanos e seus sofrimentos se tornaram meros dados que não levam à reflexão. Por isso, talvez hoje não haja ação mais revolucionária do que recuperar o pensamento crítico, coletivo, como precondição para qualquer ação transformadora.

Bibliografia

Arendt H (1951): Los Orígenes del Totalitarismo. Madrid, Alianza, 2006.

Dejours C (2006): La banalización de la injusticia social. Buenos Aires, Topia.

Farré J y X Jaureguiberry (2018): Cuestión social, políticas neoliberales y subjetividad. ConCiencia Social, 3.

Flax J (2021): “La matriz neoliberal y la pandemia”. Erasmus, 23.

Foucault M (2007): Nacimiento de la biopolítica. Buenos Aires, FCE.

Han B (2014): Psicopolítica. Neoliberalismo y nuevas formas técnicas de poder. Barcelona, Herder.

Harvey D (2009): Breve historia del neoliberalismo. Madrid, Akal.

Marcuse H (1993): El hombre unidimensional. Ensayo sobre la ideología de la sociedad industrial avanzada. Buenos Aires, Planeta.

Salama P y J Valier (1994): Neoliberalismo, pobrezas y desigualdades en el tercer mundo. Buenos Aires, Ciepp.

Scavino D (1999): La era de la desolación. Ética y moral en la Argentina de fin de siglo. Buenos Aires, Manantial.

Žižek S (2020): “El coronavirus es un golpe al capitalismo a lo Kill Bill”. En Sopa de Wuhan. Buenos Aires, Aspo.

Žižek S (2016): La nueva lucha de clases: los refugiados y el terror. Barcelona, Anagrama.

Žižek S (2009): Sobre la violencia. Seis reflexiones marginales. Buenos Aires, Paidós.

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