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O desprezo presidencial à pandemia no AM

Do IHU, 08 Junho 2021
Por Ivânia Vieira



"As duas visitas e respectivas agendas do presidente Jair Bolsonaro ao Amazonas no momento de agravamento da pandemia da Covid-19 em vários Estados brasileiros aguardam respostas esclarecedoras", escreve Ivânia Vieira, jornalista, professora da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), doutora em Comunicação, articulista no jornal A Crítica de Manaus, co-fundadora do Fórum de Mulheres Afroameríndias e Caribenhas e do Movimento de Mulheres Solidárias do Amazonas (Musas).

Eis o artigo.

As duas visitas e respectivas agendas do presidente Jair Bolsonaro ao Amazonas no momento de agravamento da pandemia da Covid-19 em vários Estados brasileiros aguardam respostas esclarecedoras. Ou pedem atenção sobre as reais motivações na inclusão desse Estado nos roteiros das viagens presidenciais oficiais.

Em abril, Bolsonaro veio a Manaus, no dia 23, para inaugurar a segunda etapa do Centro de Convenções do Amazonas ‘Vasco Vasques’ e receber o título de ‘Cidadão do Amazonas’, concedido pela Assembleia Legislativa do Estado (ALE-AM). No dia 27 de maio, o presidente da República foi a São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, para reinaugurar uma ponte de madeira, no KM 91, na BR-307.

Em janeiro, a capital amazonense viveu uma tragédia construída a partir de pactos político-econômico entre governos que levou a morte de mais de quatro dezenas de pessoas por falta de oxigênio em hospital e domicílios. Nesse mesmo mês, até o dia 21, Manaus registrou 1.333 sepultamentos e, em um único dia (21 de janeiro), foram realizados 179 enterros.

Entre janeiro e 23 de fevereiro de 2021 o número de óbitos no Amazonas chegou a 5.288. No ano de 2020, de março a dezembro, o total de mortos por Covid-19 somou 5.285. São números que exprimem um recorte do crime praticado contra a população amazonense, particularmente contra as famílias que viveram o drama do adoecimento e da morte de parentes, muitos dos quais por asfixia. Enquanto isso, o ministro da Saúde da época, Eduardo Pazuello, zanzava por aí e entulhava declarações públicas mentirosas como marionete no roteiro presidencial. O papel melancólico desempenhado pelo ex-ministro está sendo recompensado: Pazuello acaba de ganhar novo cargo, o de secretário de Estudos Estratégicos da Presidência da República.

É no contexto de crise e omissão que o Poder Legislativo Estadual outorga ao presidente da República o título de ‘Cidadão do Amazonas’, aprovado pela maioria dos 24 deputados. Que seja guardada e lembrada a listinha dos deputados que tornavam possível, pelo voto, à concessão do título ao presidente da República nas circunstâncias que se encontrava o Amazonas e o Brasil. O parlamento amazonense decidiu homenagear o algoz do povo.

A inauguração da segunda etapa de um centro turístico é outra situação no mínimo esquisita cujo agendamento só se justifica como parte de um arranjo, a toque de caixa vazia, para substanciar a visita presidencial a Manaus sob medidas restritivas e tão profundamente atingida pela omissão governamental ou pela decisão de transformar a cidade em laboratório do tratamento precoce da Covid-19.

Em São Gabriel da Cachoeira, reinaugurar uma ponte de madeira e silenciar ou ignorar a mais de uma dezena de documentos apresentados por líderes indígenas é atitude de profundo desrespeito e, sem máscara, como fez o presidente da República, de violação dos direitos indígenas. Nos documentos, indígenas denunciaram o abandono em que se encontravam nesta pandemia, as ameaças, as agressões sofridas, as mortes ocorridas. A ponte de madeira reinaugurada na visita presidencial à terra indígena significa o que?

Em São Gabriel da Cachoeira está a maior reserva de nióbio do mundo avaliada, de acordo com notícia publicada pelo ‘O Estado de São Paulo’, em 2010, em US$ 1 trilhão. A jazida, descoberta no final dos anos de 1970, é um dos dados das terras raras (como são chamados o conjunto de 17 elementos químicos encontrados na crosta terrestre). Em 2012, em matéria divulgada por ACRÍTICA, o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) reafirmava a condição do município como detentor de uma das maiores reservas de minérios do Brasil.

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