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Israel e EUA, parceiros na geopolítica da barbárie

No início do século XX, a sede do sionismo transferiu-se Londres para os EUA. Por meio de organizações, articularam poderoso lobby na Casa Branca, captando recursos para colonizar territórios palestinos e perpetuar o apharteid



De OUTRASPALAVRAS, 30 de Junho 2021
Por Bruno Beaklini


Uma pergunta recorrente gira em torno de quais fatores operam para gerar os excedentes de poder da entidade sionista? Em outras palavras, porque o Estado de Israel consegue exercer tamanha pressão sobre o jogo de poder mundial, apesar de ser um evidente violador do direito internacional? Uma resposta evidente é a relação de complementaridade com os Estados Unidos da América, e as instituições fundamentais que operam essa “aliança essencial”. Este pode ser o indício da resposta, e retrata a enorme capacidade da Organização Sionista Mundial, fundada em 1897, do Fundo Nacional Judaico/JNF, fundado em 1901, da Agência Colonial fundada em 1929 e do Comitê de Relações Americano-Israelense. As três últimas instituições estão ligadas umbilicalmente à imigração de europeus de fé judaica no Estado criado pelas treze colônias da América do Norte.

Na própria definição do JNF, a entidade foi criada para:

“A JNF é uma organização sem fins lucrativos e ONG das Nações Unidas (organização não governamental) que dá a todas as gerações de judeus uma voz única na construção de um futuro próspero para a terra de Israel e seu povo. JNF começou em 1901 como um sonho e visão de restabelecer uma pátria em Israel para o povo judeu em todos os lugares”.

A primeira observação cabível é o anacronismo. O Fundo foi criado em 1901, é uma entidade reconhecida pela ONU, que foi criada no colapso do Sistema Internacional no pós-2ª Guerra. Ou seja, a Organização das Nações Unidas foi criada em 1945, quarenta e quatro anos após a inauguração do JNF. Com o intuito colonizador explícito, o site oficial afirma sua atividade-fim:

“JNF se esforça para levar uma melhor qualidade de vida a todos os residentes de Israel e traduzir esses avanços para o mundo além. A JNF está ‘tornando verde’ o deserto com milhões de árvores, construindo milhares de parques em Israel, criando novas comunidades e cidades para as gerações de israelenses chamarem de lar, reforçando o abastecimento de água de Israel, ajudando a desenvolver técnicas inovadoras de agricultura árida e educando jovens e idosos sobre a fundação e importância de Israel e do sionismo. JNF é o maior fornecedor de programas sionistas nos EUA. Seu trabalho é dividido em sete áreas de programa: Silvicultura e Inovações Verdes, Soluções Hídricas, Construção da Comunidade, Educação e Defesa Sionista, Pesquisa e Desenvolvimento, Locais de Herança e Deficiências e Necessidades Especiais”.

Basicamente opera, segundo suas próprias palavras, como um catalizador de recursos financeiros para “colonizar” Israel. Nenhuma citação aos árabes nativos. Poderia se comparar a um Fundo Calvinista de Colonização Africânder, ou a coleta realizada pelas cooperativas alemãs para apoiar colonos de origem holandesa contra a ofensiva britânica em 1880. Trata-se de uma minoria ocidental, composta por perseguidos religiosos. Na origem, foram incentivados a invadirem as terras de nações ancestrais africanas e depois se viram diante de um xadrez geopolítico de gravíssimas dimensões. Pode até ter existido, mas desconheço se havia um esforço comum para garantir as terras da Nação Zulu, justamente lutando contra dois impérios, britânico e germânico. Qualquer semelhança, não é coincidência alguma.

Já Agência Colonial Judaica para Israel proclama que:

“Desde a fundação e construção do Estado de Israel até o plantio e cultivo das sementes da amizade entre comunidades judaicas separadas pela distância, desde 1929, temos trabalhado para garantir um futuro judaico vibrante para as gerações vindouras”.

Assim, a Organização Sionista Mundial, um guarda-chuva para o projeto colonial judaico, foi seguido por duas estruturas permanentes, ambas baseadas na vibrante e crescente economia estadunidense no início do século XX. Na cronologia, WZO operava por dentro do decadente Império Austro-Húngaro, e teve certo peso na geopolítica dos Balcãs e Mediterrâneo, onde Viena se confrontava com Istambul até a improvável aliança na 1ª Guerra Mundial. O JNF antecede a primeira guerra mundial, logo, pôde transacionar com os “proprietários” estrangeiros de terras na Palestina ainda sob a tutela do Império Otomano. A Agência data de 1929, concomitante com a inoperância da Liga das Nações (1919-1946), a conspiração aplicada do famigerado Acordo Sykes-Picot-Sazanov e fez a balança do lobby israelense mudar seu epicentro de Londres para à costa leste dos EUA.

Nos anos seguintes, a soma da projeção de poder da Alemanha nazista, o crime de lesa humanidade do Holocausto e a pressão do lobby a favor das colônias de eurojudeus na Palestina Ocupada pelos britânicos, só fez crescer. Ao fim da 2ª Guerra Mundial, as duas superpotências aliadas vitoriosas sustentaram a autoproclamação do Estado de Israel. Consequentemente, tanto EUA como a antiga União Soviética, de fato, apoiaram a Nakba, a catástrofe, o pogrom gigantesco aplicado contra as famílias palestinas de maioria camponesa. Logo na sequência, a entidade sionista se alia aos decadentes impérios de França e Inglaterra e promovem a Guerra do Sinai em 1956. O jogo internacional da Guerra Fria já tinha afiançado a aliança estratégica de Tel Aviv com Washington, assim como a zona quase exclusiva no Golfo Pérsico, através das monarquias dos Ibn Saud à frente da ARAMCO e dos Pahlavi, à frente do consórcio internacional que governava da IOP após o golpe de 1953.

Dentro da lógica da bipolaridade, considerando que a URSS veio a ter boa relação com os países pan-arabistas, os EUA reforçam a posição sionista. O Comitê de Relações Públicas Americano Israelense, AIPAC, fundado em 1963, afirma sua Aliança Essencial:

“A relação EUA-Israel é uma parceria mutuamente benéfica que reforça os valores morais e os interesses estratégicos da América e promove a paz e a estabilidade. Essa relação com a única democracia no Oriente Médio é um pilar fundamental da estrutura de segurança regional da América. Israel é um farol de interesses e valores compartilhados em uma região criticamente estratégica. Ao contrário de outros aliados, Israel insiste em se defender sozinho, contando com a América apenas para ajudar a garantir que tenha os meios para isso. Israel nunca pediu aos americanos que sacrificassem suas vidas; em vez disso, o povo israelense se defende enquanto defende os interesses vitais da segurança nacional dos EUA. Uma forte relação estratégica entre Estados Unidos e Israel e cooperação bilateral aprimorada em segurança interna, segurança cibernética, espaço, sustentabilidade e outras áreas importantes está ajudando os países e outras nações ao redor do mundo a enfrentar os desafios mútuos emergentes”.

Além do JNF, da Agência Colonial e do AIPAC, outra instituição central opera tanto para popularizar a defesa do Estado de Israel, confundindo o combate ao antissemitismo como a defesa do Apartheid Israelense. Trata-se da Liga Anti-Difamação (ADL) cuja história tem passagens importantes no apoio da luta pelos direitos civis, mas que está absolutamente capturada pelo chauvinismo sionista. No plano da projeção militar, a Instituição Judaica para Segurança Nacional da América (JINSA) tem relevante papel na relação direta com o complexo industrial militar em todos os setores estratégicos (energia, cibernético, aeroespacial, advocacia pública, sistemas de armas, indústria bélica). Este conjunto de grupos de pressão e lobbies, diretamente vinculados ao Tesouro dos EUA e coincidindo a agenda orçamentária com a rubrica de Defesa do imperialismo, consegue garantir a preservação do projeto sionista como um interesse central do império.

Evidente que nem todo judaísmo é sionista, mas que, a partir dos financiamentos advindos dos Estados Unidos, esta hegemonia se materializa. Pela lógica do jogo real da política, o lobby pró-Israel dentro da sociedade estadunidense é constitutivo do Apartheid e garante a permanência do projeto colonial. Logo, romper essa “legitimação” financiada pela dívida pública do império é objetivo estratégico de todas as forças que apoiam a libertação da Palestina.



Bruno Beaklini
É brasileiro de origem árabe-libanesa e apoiador da Causa Palestina e do pan-arabismo socialista desde 1982.

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