Pages

“Homem, acorda” - um apelo que soa esperançoso

Do IHU, 11 Junho 2021
Por Josi Mara Nolli




"Estaria o homem adormecido, indiferente ao que se passa ao seu redor? Nada o escandaliza, nada o afronta? Sentir-se afrontado diante de alguma situação que incomoda é ter compromisso de mudança, postura ativa, colocar-se à frente como sujeito de ação e de transformação, romper com o que o torna inerte, sobretudo, o individualismo", escreve Josi Mara Nolli, mestra em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), formada em Comunicação Social - Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCC) e docente nas áreas de Comunicação e Educação.

Eis o artigo.

“Homem, acorda”! Esse apelo feito pelo filósofo francês Emmanuel Mounier (1905-1950) para uma Europa marcada por profundas crises econômicas, políticas e sociais, parece pertinente e propício no contexto da sociedade contemporânea profundamente marcada por uma mudança de época.

Desigualdade social, guerras, degradação do meio ambiente em uma escala sem precedentes e a pandemia da Covid-19 compõem o cenário mundial. E, parece, soma-se a esse cenário, o individualismo - resultado, possivelmente, do que se constata na sociedade contemporânea - o homem fechado em si mesmo em uma atitude de defesa que se caracteriza por um profundo egoísmo, por vezes, passivo diante dos acontecimentos que ferem, sobretudo, a sua própria dignidade.

Estaria o homem adormecido, indiferente ao que se passa ao seu redor? Nada o escandaliza, nada o afronta? Sentir-se afrontado diante de alguma situação que incomoda é ter compromisso de mudança, postura ativa, colocar-se à frente como sujeito de ação e de transformação, romper com o que o torna inerte, sobretudo, o individualismo.

A sociedade contemporânea passa por um momento de profundas incertezas e inseguranças que tendem a acentuar o individualismo. Muitos se acham sem perspectivas, confusos diante dos rumos da economia e mesmo esgotados por uma dinâmica de mercado que diz de uma necessidade de ter sem medidas, mas é vazio de sentido humanizador. Mas, ao mesmo tempo, o homem parece ter acostumado com esse movimento e a única coisa que passa a ter importância são suas atitudes de fechamento e de defesa, geradoras de solidão. Esse movimento tende a minar suas relações com o outro e com o que o cerca. Tudo passa a ter valor de uso. As relações que se estabelecem, nesse contexto, são meramente utilitaristas. E nessas relações não cabem o respeito, o cuidado, a solidariedade.

Nesse sentido, o afrontamento é uma via de compreender-se como pessoa - a que se relaciona, que se coloca como agente da História, que se caracteriza também pela comunhão porque capaz de considerar o outro, “ser com”. É a que aceita, adere, diz sim, mas também é a que sabe dizer não diante dos conformismos, é a que questiona, que participa. Diante das situações, circunstâncias, fatores e sistemas de negação da pessoa não devem existir indiferença e silêncio. Existir como pessoa, na perspectiva de Mounier , é romper com o que nega a pessoa. O risco de se aceitar tudo é o de submersão.

Nesse movimento, o apelo de Mounier, “Homem, acorda”, pode ganhar dimensões práticas à medida que o homem deixa de ser paciente diante dos acontecimentos e torna-se agente, deixa de ser passivo e torna-se ativo. O homem adormecido, desse ponto de vista, é o que ainda não despertou para ser pessoa, acostumado que está com o individualismo que o condiciona à comodidade de preocupar-se tão somente consigo.

Na sociedade contemporânea, o individualismo pode ser constatado de modo evidente nas práticas de consumo excessivo. A ética e os valores humanos perdem espaço para práticas que comportam a dimensão do consumo. E a lógica do ter mais, a ilusão de que o sentido pleno da existência está no fato de poder consumir muito, está esvaziando o ser humano de sentido. Essa ilusão é uma “cantiga de ninar” para manter o homem adormecido, sem grandes ações e quase nenhuma transformação.

A dimensão material faz parte da dimensão total da pessoa, portanto, também confere à pessoa dignidade - alimentar-se, morar, vestir-se, trabalhar etc. São, inclusive, direitos sociais previstos na Constituição de 1988 (Art. 6). Mas a lógica impregnada pelo capitalismo é de um consumo exacerbado que não leva em conta suas consequências para o homem e para o planeta. É um ter demasiado que coloca em risco o sistema-vida e sistema-Terra, que é indiferente aos que vivem na mais profunda miséria, que não se importa com a dor do outro. “Encontramo-nos mais sozinhos nesse mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência. Em contrapartida, aumentam os mercados, onde as pessoas desempenham funções de consumidores ou de espectadores” (FRATELLI TUTTI, 12).

Que chaga para a sociedade quando a pessoa é tratada como coisa, valendo como coisa. Reflexos, certamente, de uma sociedade em que a adesão e a aceitação do que nega a pessoa, se não absolutas, são no mínimo prevalecentes. Reflexos também do homem que, indiferente, não diz “não”, não afronta. Como afirma Mounier: “o inseto que se confunde com um ramo, para se fazer esquecer na imobilidade vegetal, prefigura o homem que se enterra no conformismo para não assumir as responsabilidades próprias, o que se entrega às ideias gerais ou às efusões sentimentais para não ter que afrontar fatos e homens”.

O afrontamento, na visão mounieriana, é também força, mas “não a força bruta do poder ou da agressividade em que o homem renuncia a si próprio para imitar o choque material, mas a força humana, simultaneamente interior e eficaz, espiritual e manifesta”.

“Homem, acorda”! Essa exortação de Mounier, é um apelo no tempo presente, um imperativo que se justifica pela urgência de sua prática. Diz de um “agora”. É para hoje, para o momento em que se encontra a sociedade – em um cenário pandêmico e de degradação do planeta. É um desafio para se pensar o presente e as práticas que valorizem a pessoa - ser considerada por seu valor absoluto e que valorizem a nossa Casa Comum.

“Homem, acorda”! É um apelo que, parece, deve ecoar na própria consciência do homem, como quem repete para si mesmo, ciente de suas responsabilidades. Pressupõe um movimento espontâneo, de quem tem a iniciativa de mudar da condição de adormecido para a condição de acordado. Mas é também um apelo que pode vir de fora - por exemplo, da educação e das tantas áreas do conhecimento que, em diálogo, deveriam promover esse “acordar”. É como “alguém” que sacudindo o homem adormecido o quisesse consciente, dinâmico, responsável e agente de transformação.

Seja como for, trata-se de um chamado para o homem viver e existir como pessoa e não tão somente como um molde sobre o qual se imprimem ideias, instruções e convicções. Para Mounier, “ser é amar”. Contudo, ao amor de que fala o filósofo, soma-se uma dimensão prática - “o amor é luta”, no sentido de um caminho a percorrer em favor da vida, da solidariedade, da fraternidade, de um sentido humanizador. É, portanto, ação. Os que buscam percorrer esse caminho não cedem à indiferença e ao individualismo. E não cedem porque esse percurso se faz de afrontamento - o dizer “não” ao que nega a pessoa.

Nas palavras do Papa Francisco, “o individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade. Nem pode sequer preservar-nos de tantos males, que se tornam cada vez mais globais. Mas o individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer. Ilude. Faz-nos crer que tudo se reduz a deixar à rédea solta as próprias ambições, como se, acumulando ambições e seguranças individuais, pudéssemos construir o bem comum” (FRATELLI TUTTI, 105). Essa ilusão mantém o homem adormecido em seus próprios interesses, espectador dos males e sofrimentos do mundo, acomodado na condição de quem apenas assiste, sem o compromisso de sair de si e ir ao encontro do outro.

O primeiro passo para uma sociedade menos individualista e mais humana e fraterna deve ser dado pelo próprio homem. Daí a urgência de o homem acordar. Acordar para as ações - as pequenas ações – aquelas que de fato promovem grandes transformações ao seu redor. Ser capaz de gestos concretos de amor é existir como pessoa, é humanizar-se, é vencer o vírus do individualismo.

No atual contexto de pandemia, por exemplo, é um gesto de amor o esforço para nos protegermos e protegermos o outro. O outro não é uma “coisa” separada que deve ser tratado com indiferença. O outro é parte da nossa vida. Cuidar do outro é uma forma de romper com o individualismo e compreendermo-nos mutuamente “pessoa”. E esse cuidado se dá também nos pequenos gestos, nas boas ações possíveis de serem realizadas por cada um no dia a dia. As transformações mais significativas e as grandes surpresas se dão no cotidiano, em espaços como o lar, a escola, a comunidade, o trabalho; no que se pode chamar ordinário (comum, simples) - o trato, os gestos, as palavras. Nesses espaços é que pode frutificar o exercício da amabilidade proposto pelo Papa Francisco. Amabilidade que, pressupondo estima e respeito, quando se torna cultura numa sociedade, é capaz de transformar profundamente o estilo de vida, as relações sociais, o modo de debater e confrontar as ideias (FRATELLI TUTTI, 224).

Podemos mesmo afirmar que a amabilidade de que nos fala o Papa Francisco é uma de forma de afrontamento (no sentido posto por Mounier, de não aceitar as formas de negação da pessoa), à medida que a prática de seu significado, contribui para a valorização da pessoa - alegria, gentileza, hospitalidade, solicitude. Gestos que implicam sair de si em uma atitude de encontro e diálogo, portanto, uma forma de dizer “não” ao individualismo que nega a pessoa. São atitudes ao alcance de todos. A capacidade de realizar o extraordinário no ordinário cotidiano.

“Homem, acorda”! É um processo. É um apelo que, sobretudo em um contexto de pandemia, soa esperançoso. E a esperança, afirma Mounier, semeia começos!

Notas:

[1] MOUNIER, Emmanuel. O personalismo. Trad. João Bénard da Costa. 3ª ed. Santos, SP: Martins Fontes, 1974

[2] PP, Francisco. Fratelli Tutti: sobre a fraternidade e a amizade social. Disponível aqui. Acesso em: 18 de nov. de 2020.

Nenhum comentário:

Postar um comentário