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Eduardo Coutinho e a arte do encontro

No Dia do Cinema, três filmes do cineasta estarão disponíveis para streaming gratuito. Com a fricção entre mundos, ele revolucionou o documentário com premissa simples: ouvir o outro faz com que ele se revele (ou se reinvente) diante das câmeras



De OUTRASPALAVRAS, 18 de Junho 2021
Por José Geraldo Couto, no Blog do Cinema do Instituto Moreira Salles


Como todo dia é dia de alguma coisa, 19 de junho, sábado, é o dia do cinema brasileiro, essa criatura hoje tão maltratada. Para comemorar a data, o Sesc Digital resolveu colocar no ar por um mês, gratuitamente, três filmes do nosso maior documentarista, Eduardo Coutinho: Santo forte (1999), Peões (2004) e Jogo de cena (2007). Completa a programação o ótimo documentário Eduardo Coutinho, 7 de outubro (2013), de Carlos Nader, em que o diretor comenta momentos de sua filmografia e explicita suas concepções.

A escolha dos filmes foi bastante feliz, pois ilumina o percurso das inquietações éticas e estéticas do diretor na última e mais fértil fase da sua obra. O marco inaugural dessa etapa tardia, iniciada quando Coutinho estava com 66 anos, é justamente Santo forte, extraordinária incursão, ou antes imersão, no imaginário religioso popular. O filme consiste unicamente de conversas com moradores da favela carioca Vila Parque da Cidade, divididos entre o catolicismo, as igrejas evangélicas, a umbanda e o espiritismo kardecista, frequentemente mesclando várias dessas religiões.
Ouvir o outro

Quando mostrou Santo forte aos amigos mais próximos, alguns deles disseram que ninguém iria querer ver aquela sucessão de cabeças falantes. Mal sabiam que ali estava o cerne de um método cinematográfico que daria notoriedade internacional ao diretor e que se baseia numa atitude aparentemente muito simples: ouvir o outro, fazer com que ele ou ela se revele e se reinvente diante da câmera.

“A fala humana, o corpo que fala”, resume Coutinho no documentário de Carlos Nader. Existe coisa mais essencial e empolgante? Pouco importa se o que a pessoa diz é verdade ou mentira. O que importa é essa autoimagem construída no encontro com o realizador. A câmera não está lá para captar uma realidade dada, mas sim para suscitar o encontro, que é o verdadeiro objetivo.

Santo forte, a despeito de seu assunto de grande impacto – a presença do sagrado no cotidiano de um punhado de indivíduos –, pode ser visto ainda como um esboço, ou a primeira sondagem de um território novo. O próprio Coutinho, anos depois, lamentaria ter recorrido no documentário a algumas muletas do cinema convencional, como por exemplo o plano “ilustrativo” em que aparece uma imagem da pomba-gira, sobre a qual estava falando um personagem (o termo que ele preferia para seus entrevistados).

Falei em método alguns parágrafos acima. Talvez o mais correto fosse dizer “métodos”, no plural, pois a cada um de seus filmes seguintes Coutinho criaria um, embora todos partissem dessa mesma base: ouvir o outro. Em cada um deles o diretor estabelecia suas regras e suas interdições – sua “prisão”, como ele mesmo dizia. Em Babilônia 2000, por exemplo, tratava-se de ouvir moradores do morro Babilônia, na zona sul do Rio, na véspera do ano novo, sobre seus projetos e perspectivas para o novo milênio. Em Edifício Master, entrava-se num punhado de apartamentos de um prédio de Copacabana para conversar com seus moradores.


Eduardo Coutinho no set de Moscou, 2008. (Foto de Bianca Aun)
A diferença como trunfo

Nesse contexto, Peões ocupa um lugar singular. Seu projeto (sua “prisão”) é reencontrar operários do ABC paulista que participaram do movimento sindical liderado por Lula no final dos anos 1970 e início dos 80. Diferentemente do que ocorre nos outros filmes dessa última fase, o documentário utiliza material de arquivo daqueles anos, ainda que de forma discreta e original.

Alguns dos personagens encontrados se aposentaram, outros continuam na ativa, outros fazem bicos para sobreviver. A partir dessas histórias pessoais, Peões acaba traçando indiretamente um quadro das transformações sofridas pelo movimento operário brasileiro – e pela própria estrutura da indústria – nas últimas décadas. E o filme se conclui com um dos momentos mais sublimes da obra de Coutinho, aquele em que, depois de explicar por que não quer que seu filho seja peão de fábrica, o operário olha para o cineasta e pergunta: “Você já foi peão?”

No documentário de Carlos Nader, Coutinho desdobra essa pergunta em outras: você já foi mulher? Já foi negro? Já foi índio? Ele será sempre o não peão, o não negro, o não mulher, o não índio. Por isso o outro, ou outra, será sempre único e terá algo de inacessível, irredutível. Mas o cinema pode suscitar e registrar o encontro, a fricção, entre esses diferentes, e a faísca de vida resultante. “Fazer da diferença um trunfo”, dizia ele.

A ideia dos entrevistados como personagens que se autoconstroem diante da câmera, num misto de sinceridade e fingimento, é elevada a um novo patamar em Jogo de cena, no qual se embaralham os depoimentos de mulheres “comuns” e de atrizes conhecidas (Marilia Pêra, Andrea Beltrão, Fernanda Torres) que relatam em primeira pessoa as mesmas histórias de vida.

As balizas limitadoras aqui são duas: todas as personagens são mulheres e todos os depoimentos são dados num palco de teatro vazio. O resultado é desconcertante, sobretudo porque há uma atriz desconhecida (ou pouco conhecida) que repete uma das histórias narradas, de tal maneira que ficamos sem saber qual das duas é a mulher que viveu aquilo e qual a atriz que simulou ter vivido. Em algum momento, todo mundo “chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”.

O documentário Eduardo Coutinho, 7 de outubro é o complemento perfeito para essa visão ou revisão da obra de Coutinho como um vívido e inquieto work in progress. Ali, além de momentos marcantes de outros filmes (Edifício Master, O fim e o princípio, As canções) comentados pelo próprio cineasta, somos brindados com suas reflexões sobre a vida (“um absurdo sem remissão”), sobre as entrevistas como “relações eróticas no sentido mais amplo”, sobre sua recusa ao que é perfeito e acabado (“Gosto de tudo que é inacabado, impuro, imperfeito, precário”) e sobre o ato de filmar, que ele definia como “um meio de estar vivo”.


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É isto: Eduardo Coutinho (1933-2014) continua vivo nas centenas de encontros que ele construiu e filmou.

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