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É sempre nunca


Do A Terra É Redonda, 05 de Junho 2021
Por PRISCILA FIGUEIREDO*

Hans Hofmann, Efervescência , óleo, tinta nanquim, caseína e esmalte em painel de madeira compensada, 54,375 "x 35,875", 1942.

Cinco poemas.

Para Adriana Braga
(“’O Rafael [Braga] vai ser solto amanhã, sexta’”, eu disse. Ela respondeu de forma resignada:
………………………………………………………………………………………………………………….‘Nunca me dizem nada’.[1]).

O Rafael vai ser solto amanhã
avisou, em visita, a jornalista,
e a mãe, mal disfarçando o orgulho
já ferido por saber de segunda mão,
branca, infamiliar e fina,
a notícia que aguardava tanto,
então se ressente
mais que se resigna:
“Nunca me dizem nada…”

Nunca lhe dizem nada!
é sempre nunca
é sempre nada
são sempre eles

Ainda os rins lhe doíam,
como um cinturão apertando
a memória e a expectativa.
Foram muitas as notícias que esperou,
foram muitos os chamados
por que despertou mais cedo
e, desviando de sua rota,
jamais chegaram.

Muitos foram os que evaporaram
na madrugada, e seu rumor
ela jurava ter ouvido
de dentro dos sonhos
ou remando no ar.

é sempre nunca
é sempre nada

Tossindo muito,
o rapaz se aproximou da casa,
fraco, mutilado de guerra,
um envelope de remédios entre os dedos —
não deve ter ouvido a mãe dizer:
“Vem justo agora
que eu ia tomar o meu café!”

Quase não era justo mesmo que abrisse
mão do café e de seus míseros minutos,
fazendo tempo que já o tomava sozinha.
O que vinham a ser em contraste
com o ano inteiro
desde que o filho estivera preso?
Quantas vezes, quantas
se preparou em vão,
perseverou, andou, andou
tão constante quanto leviano
era o processo no tribunal?

Sobre a mesa,
inesperados,
como os repórteres todos,
os gerânios ainda ouviam
“nunca me dizem nada…”
desaparecendo no ar.



Aquele soberbo Fícus
faz tempo que está em litígio com a rua…
Não bastou ser um titã para romper
uma a uma as amarras de concreto que constrange
os ancestrais, amplos movimentos.
Se nos afastamos, vemos bem a imagem de um
formidável veleiro atracado na calçada.

Ele, em quem esperaram alegria, sombra vasta e beleza,
ele, a quem jamais perguntaram o que desejava
nem o de que precisava,
mais de uma vez deve ter fabulado em seu exílio:
“São tantos assim como eu,
somos robustos –cerraremos fileiras;
nosso cipoal
haverá de enlaçar e esganar esta cidade inteira!”.

Deformado, coberto de varizes grossas,
a dor e o ódio lacerando o outrora pacato
coração de madeira,
quer agora nos mostrar, não sem lamento,
o orgulho de gigante a rebentar o teto de cimento,
até que lá no alto,
na maçaroca de fios, elétrica e feia,
baterá com a cabeça,
enroscando os braços prisioneiros.

Transformado em fera, a quem tentam amordaçar,
será morto, mas morrerá brioso.



Nunca fui fã de poemas que falassem da poesia –
a razão exata disso? Não sei
mas não custa tentar saber:
deve ser porque ao poeta, nesse dia,
não lhe ocorre nada, nada mesmo –
nenhum rumor, um ritmo,
nenhuma palavra em especial o inspira,
tilinta em seu espírito,
uma qualquerzinha de que ele pudesse
derivar por mero acaso um mundo,
ou um mundo em ocaso, talvez o seu mesmo,
e tudo isso acontecendo sem que ele
previsse nada de nada.

(Como não previa Saul que o fossem saudar
como rei, quando tinha apenas saído a buscar
as jumentas perdidas de seu pai.
Depois de um mago lhe falar de seu
elevado destino, ainda assim Saul
quis saber do destino das jumentas:
“não ocupes o teu coração com elas
porque já se acharam.”)

Também pode ser,
no caso dos que concebem em sonho,
que a sua usina entre em greve,
nem mais um verso abotoe
na noite inconstante e inconsciente.
Esse tipo no entanto não se aflige, espera.

Às vezes também ocorre de o cansaço
levá-lo pela mão até a poesia
sem que precise para isso falar dela.
Ele segue a divisa:
“Mais faz quem Deus ajuda
que quem cedo madruga” –até porque
cedo, na sua cama, ele ainda
está fazendo poesia.

Mas não sendo ele dessa espécie demiúrgica,
então começa a dizer como está fatigado,
como quase está desistindo,
a poesia anda mais impossível, as palavras
prostituídas e sem frescor, e tirá-las da rua
é duro como quebrar pedra (coisa que ele mesmo
toda hora está fazendo).

Reclama tanto até por fim se espantar:
“Não é que escrevi um poema!”.
Me sinto um pouco ludibriada – não sei
se vocês se sentem também.



Você viu como a lua ontem estava linda?
Vi, vi sim, minto envergonhada, o suficiente
para minha amiga descrever mais um pouco
como era deslumbrante a imensa bola de fogo
e suas fulgurações vermelhas no céu cinza.
Mas eu não tinha visto nada na verdade –
faz tempo que não estico o pescoço para cima…

Em todo caso perguntei: e hoje
você acha que ela continua assim, desse jeito?
Não, o último dia do eclipse foi ontem!
É por isso que ela parecia ser de sangue.
Eu fico quieta e com uma certa culpa
por viver com a cabeça… na lua
justamente,
a do passado e dos devaneios,
revendo as noites claras de uma quadra na infância,
do cinema, dos filmes de lobisomem,
da poesia de todos os tempos.

– Mas e este satélite de meu tempo?, me repreendo.

A culpa mesmo é da cidade, vou lá
caçar poesia entre empenas e espigões?
Já me dei por vencida nesta luta,
me resignei – há coisas mesmo
inalcançáveis na vida,
e então olho para a frente, às vezes pra trás,
para os lados, é certo, de vez em quando
para baixo – pedra e merda no caminho empatam –,
mas se não goteja bem em cima da minha cabeça
ou não sigo os passos dum gato ou do vizinho,
dirigir os olhos para o alto é cada vez mais raro;
quando viro a nuca para trás, erguendo o queixo,
já sinto que não é mais hábito, como se a
dobradiça tivesse enferrujado.

Deve ser por isso que não gosto
de fogos de artifício; a “merencória monja”
entrou na mesma ordem, e nessa ordem
não distingo a natureza do artefato.
Por um momento as pessoas param e dizem
“Olha que lindo!”, mais filmam que olham
qualquer que seja o espetáculo;
me puxam, me fazem levantar da mesa, e
me controlo pra não ser estraga-prazeres.

Não, me deixem em paz,
os muros de cimento nos enterraram vivos;
a cidade é uma cama de espetos, e entre estes
estrelas vêm meter seus braços de detentas.
Conformada, não careço de horizonte —
quantas espécies não vivem sob a terra
e têm passado muito bem sem ele?
“Mas temos as telas!”
Então –não está mais que bom?



Midas

“Númen (lhe respondeu) manda que tudo
Que tudo que eu tocar se torne em ouro”
(Ovídio, Metamorfoses, trad. de Bocage)

Sabia o deus que o desejo era insano,
mas grato a Midas pelos festejos
de dez dias, lhe concede o mal que o outro,
por equívoco e cobiça, julgava bem.
Galho, terra, maçãs e portas,
iguarias, licor, janelas, a mão
de sua companheira, a de
seus filhos, o próprio tornozelo
– não há o que toque que fuja a ser ouro,
e se este maravilha, logo tosta o olho.

A paisagem perde as cores, tudo para onde
estica o braço metaliza, silencia.
Os sons recuam,
as águas pesam de douradas,
os pássaros, brilhosos, caem duros.
Não pode mais comer
que ouro não se come,
nem tem com que matar a sede.
Todo rosto a sua carícia torna rígido.

Não pode mais dizer se o pão dourado
sobre a mesa estava quente ou já esfriava,
se o regato ia manso ou se apressava.
Por desconsolo chama o cão amigo para perto,
mas ao lhe por a mão seca-lhe o focinho,
amarela o preto do pelame inteiro –
todo ele agora é um animal de ouro,
sarcófago de si, que já está morto.

Que monótona se tornou a vida de Midas:
as noites rasgam claras como o dia,
o dia mais claro como jamais fora.
Tudo o que cintila é cinza de tudo.
Sileno em sua complacência não pensara
que atendendo ao pedido empobrecia –
de ouro! – a paisagem de todos.
Logo viu o rei, desaparecidas as cores
e a natureza própria das coisas,
que lábios fulvos e duros não beijavam,
e as mantas de metal – como pesavam!

Desejou então rever o mundo plástico, onde os
entes se dissolvem beijam refluem concedem,
e mergulhou na corrente de um rio. Os deuses
são benignos, disse Ovídio, que ainda nos contou:
ali lavou o corpo e lavou o crime – e o mundo,
concluímos, foi a ele como aos outros
devolvido de novo.

*Priscila Figueiredo é professora de literatura brasileira na USP. Autora, entre outros livros, de Mateus (poemas) (Bem te vi).

Nota

[1] A partir de reportagem de Juliana Passos para a revista Piauí, 19 de setembro de 2017. O poema, escrito no mesmo ano, foi revisto mais uma vez para a presente publicação, mas já tinha sido publicado antes na revista InSURgência: Revista de Direitos e Movimentos Sociais, 4(1), 2018.

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