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DETER/INPE confirma recorde de desmatamento em maio: 67% de aumento

Do IHU, 15 Junho 2021
Por Karen Mota, publicada por EcoDebate, 11-06-2021



Dados do sistema DETER, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados hoje comprovam que os alertas de desmatamento na Amazônia não param de crescer.

Os dados do mês de maio mostram um aumento de 66,7% na área com alertas de desmatamento em relação aos registrados em maio de 2020. Com 1.391 Km2, foi o mês com maior área de alertas neste ano, e o maior maio da série Deter-B. No mês de junho somente nos 4 primeiros dias foram 329,66 km² de alertas.

A divulgação do número recorde de queimadas na Amazônia e Cerrado em maio reforçam ainda mais o quanto duas das maiores reservas de biodiversidade no planeta estão sendo colocadas em risco dia após dia. Além de um presidente e um ministro do meio ambiente atuando contra a proteção ambiental, o Congresso tem contribuído com essa política de destruição, enfraquecendo deliberadamente as leis que protegem a floresta e seus povos.

“O resultado de maio não poderia ser diferente já que os retrocessos na governança ambiental só aumentam. Os reflexos dessa destruição já são sentidos na baixa histórica dos reservatórios no Sudeste e Centro-Oeste, com ameaças de falta d’água, contas de luz mais caras e risco de racionamento de energia”, comenta Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace.

Enquanto isso o Congresso Nacional discute projetos de lei que vão piorar ainda mais a situação, à exemplo dos PLs 2633/2020 e 510/2021, que visam flexibilizar os critérios da regularização fundiária, o que na prática anistia grileiros, enquanto cerca de ⅓ do desmatamento na Amazônia é ocasionado por grilagem. Além disso, os PLs 191/2020 e 490/2007 são um verdadeiro ataque aos povos indígenas e seus territórios, pois visam abrir terras indígenas para atividades predatórias como mineração e avanço do agronegócio.

Além da pecuária, principal vetor histórico do desmatamento na região, a produção de grãos voltou a pressionar a floresta direta e indiretamente. O preço da soja aumentou 57% em relação à 2020, impulsionado por aumento da demanda e baixa dos estoques americanos (o menor patamar da história do país, segundo a USAID) o que provocou uma alta expressiva do valor na Bolsa de Chicago.

Estudo publicado ontem pela revista científica Nature Sustainability mostra que a soja foi responsável, direta ou indiretamente, por cerca de 10% do desmatamento ocorrido na América do Sul desde 2000. O estudo, liderado pelo cientista Matthew Hansen da Universidade de Maryland, com a participação de pesquisadores dos Estados Unidos, Brasil e Argentina, constatou com base em análise de imagens de satélite e dados de campo que a soja foi responsável por avançar em áreas desmatadas nos diferentes biomas (Figura 1). Puxada por forte demanda internacional e pela histórica dependência das economias sul-americanas da produção e exportação de matérias primas baratas para o mercado global, a área ocupada pelo cultivo de soja na América do Sul dobrou no período: passou de 26,4 milhões de hectares em 2002 para 55,1 milhões de ha. O Brasil liderou essa expansão.

“Apesar de a moratória da soja, em vigor desde 2006, ter contribuído para a forte redução dos índices de desmatamento diretamente para soja no bioma Amazônia ao vetar a comercialização de soja produzida em áreas desmatadas após 2008 naquela região, o estudo de Hansen mostra que a expansão da soja se deu largamente em áreas previamente ocupadas por pecuária na Amazônia – deslocando parte dessa atividade para outras áreas até então cobertas por floresta na região, o que resulta em desmatamento indireto não tratado pela moratória – bem como no Cerrado e outras regiões onde a moratória também não vigora. Segundo o estudo, 6% da área desmatada desde 2000 nos países da América do Sul estudados pelos cientistas estão ocupados pela soja”, afirma Paulo Adário, especialista sênior em florestas do Greenpeace Brasil.

Com a anunciada retomada da economia global pós-recessão da Covid19, puxada pela China, Estados Unidos e Europa – fortes importadores de commodities agropecuárias e minerais -, a desmontagem da legislação e das instituições ambientais no Brasil de Bolsonaro, a destruição dos recursos naturais do Brasil e de outros países sul-americanos só tende a se agravar. Nesse cenário, a eventual aprovação do acordo de livre-comércio entre a União Europeia, altamente dependente de commodities e os países do Mercosul liderados pelo Brasil soa como apagar fogo com gasolina.

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