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Décadence sans élégance

Da Carta Maior, 15 de Junho, 2021
Por Marcio Pochmann


Créditos da foto: (UNICEF)

O mundo econômico vive a maior mudança dos dois últimos séculos, com o deslocamento do que há de mais moderno do Ocidente para o Oriente. Em quatro décadas passadas de contínua aplicação do receituário neoliberal, o capitalismo ocidental cavou o seu próprio túmulo protagonizado pelo avanço gradual do cortejo da décadence sans élégance estadunidense.

No ano passado, a pandemia da Covid-19 abalou a economia mundial, inviabilizando empresas e negócios, o que fez explodir o desemprego, a fome e a miséria. Mesmo com mais de 175 milhões de contaminados e quase 3,8 milhões de mortos contabilizados oficialmente até o momento no mundo, a velha Ordem Global se mostrou insensível e incapaz de assumir o comando de um “novo normal” diante do generalizado sofrimento humano.

Priorizou, fundamentalmente, ações nacionais individualizadas, expressão maior do egoísmo próprio do princípio neoliberal aplicado às sociedades. Talvez por isso que a reunião realizada de 11 a 13 de junho no centro turístico de Carbis Bay em Cornualha (Inglaterra) com os ditos grandes do bloco capitalista global, apresentou-se muito distinta da primeira liderada pelo presidente francês Valéry Giscard d’Estaing (1974-1981) em Paris no ano de 1975.

Naquela oportunidade, por exemplo, o G-7 que respondia por mais de 2/3 do PIB mundial, enfrentava as tensões e riscos da Guerra Fria (1947-1991). Atualmente, contudo, mal consegue responder por 2/5 da riqueza global, o que significa a diminuição de 32% acumulada em 46 anos no conjunto das economias do G-7 em sua participação no PIB do mundial.

Diante da combinação avassaladora da desindustrialização com a hipertrofia do sistema financeiro no capitalismo ocidental, as grandes corporações transnacionais continuam a se deslocar para a China que inteligentemente aproveita para fincar as bases da nova Rota da Seda. Ou seja, a modernidade do século 21 assentada na edificação das cinzas, da novíssima centralidade econômica mundial a partir da Eurásia.

No século 19, a China, conhecida antigamente por antigo Império do Meio, submergiu frente a subordinação imposta pela hierarquia do sistema capitalista erigida desde a ascensão da Inglaterra, outrora oficina do mundo. Nos dias de hoje, a marcha estadunidense declinante, após o sucesso de ter sucedido o Reino Unido como centro dinâmico do mundo ao final da segunda Guerra Mundial (1939-45), encontra o seu próprio descenso concomitante ao agigantamento chinês.

Em 2020, por exemplo, os EUA responderam por 17% da indústria global, o que representou a queda de 37% em relação ao ano de 2007, quando ainda lideravam a manufatura mundial, com 27% de toda a produção do planeta. A derrocada da indústria estadunidense foi acompanhada simultaneamente pela ascensão chinesa, que aumentou a sua participação relativa na manufatura global em 81,2% global nos últimos 13 anos, passando de 16%, em 2007, para 29%, em 2020.

No mesmo sentido de enfraquecimento da “Era Estadunidense”, registrada pela regressão de sua presença no PIB mundial ao patamar anterior à segunda Guerra Mundial, transcorre tanto a perda da supremacia militar quanto o esvaziamento do poder do dólar como moeda internacional. De um lado, o fortalecimento da parceria militar russa-chinesa vem derrubando o mito da invencibilidade militar assentada, até então, nos sistemas antibalísticos estadunidenses

De outro, a geoestratégica do Sul Global avança consideravelmente através de diversas ações cooperativas entre distintas nações. A combinação entre a Organização de Cooperação de Xangai (SCO), o Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura (AIIB) e o banco dos BRICS tem resultado na fusão de ações em torno da Nova Rota da Seda, o que vem assumindo o papel de alternativa ao quase colapso da Ordem Global perseguida pelos EUA desde o fim da Guerra Fria, com a desintegração da URSS, em 1991.

A partir de então, a cada ciclo de crise financeira, o processo da desdolarização torna-se realidade, com o padrão de referência monetário mundial sendo contestado mediante a substituição das reservas internacionais em dólares e títulos do tesouro estadunidenses por ouro. Somente no ano passado, por exemplo, bancos centrais de vários países adquiriram a soma de 651 toneladas de ouro (74% a mais do que em 2017), correspondendo a maior quantidade acumulada desde o início dos anos de 1970, com o fim do padrão ouro-dólar.

Ao ser constrangida, a máquina do financiamento dos deficits dos EUA por meio do endividamento em dólar tem sido, desde a crise de 2008, alternada pela emissão de dólares, também definida por Política Monetária Moderna de compra da dívida pública. No sentido inverso, a profusão de moedas digitais, tendo a experiência mais ousada estabelecida pela criptomoeda estatal chinesa.

Dante de tudo isso, a primeira reunião presencial do G-7 desde o início da pandemia da Covid-19 em 2020, perdeu a oportunidade protagonizar o “novo normal” no mundo. Com a ausência de nações emergentes e que realmente alimentam a nova centralidade econômica global, os “sete grandes” se revelaram protagonistas do atraso, disparando vários ataques à China no documento final.

Ao parecerem apostar mais no reatamento de outra guerra fria, o G-7 pode estar revelando o tamanho dos pés de barro ao qual está situado. Desespero que não ajuda o soerguimento da velha Ordem Global, mas aprofunda a décadence sans élégance.

Marcio Pochmann é Professor e pesquisador do Cesit/Unicamp e da Ufabc

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