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Atos genocidas contra indígenas do Amazonas na CPI Covid-19

Do IHU, 01 Junho 2021
Por Ivânia Vieira



"Quanto mais decresce a popularidade do presidente Jair Bolsonaro maior intensificação é feita na agenda presidencial de rua, nas aparições em eventos e visitas a municípios com prévia organização dos aglomerados humanos", escreve Ivânia Vieira, jornalista, professora da Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), doutora em Comunicação, articulista no jornal A Crítica de Manaus, co-fundadora do Fórum de Mulheres Afroameríndias e Caribenhas e do Movimento de Mulheres Solidárias do Amazonas (Musas).

Eis o artigo.

A Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI) encaminhou aos membros da ‘CPI da Covid-19”, no Senado, documento de oito páginas no qual relata o descaso do Governo Federal no combate ao coronavirus entre os indígenas do Amazonas com número de mortes crescente (306, até o dia 29/abril) e também de uma série de violações dos direitos indígenas e de práticas de genocídio.

O documento chega à CPI no momento em que está agendada visita, para esta semana, do presidente da República à região do Alto Rio Negro, no Amazonas. O Rio Negro concentra 23 povos indígenas e 16 línguas indígenas distribuídos em mais de 700 aldeias. Líderes indígenas de alguns desses povos relatam o agravamento das condições de vida em inúmeras das comunidades com a pandemia da Covid-19 e a falta de política pública adequada tanto aos indígenas quanto à população em geral.

O governo federal e a Presidência da República, como instância máxima de poder, ignoraram o caráter devastador do novo coronavirus na população brasileira e abandonaram à própria sorte os povos indígenas. Enquanto o Brasil ultrapassa a 450 mil mortes e o Amazonas chega a 13 mil óbitos pela Covid-19, o presidente do País faz aglomerações, não utiliza máscara e desqualifica o tempo inteiro as medidas de prevenção adotadas em protocolos internacionalmente elaborados.

Os depoimentos na CPI da Covid-19 têm apresentado elementos esclarecedores sobre os desvios de atitudes por agentes públicos no enfrentamento da pandemia. São atitudes dessa ordem que contribuíram para agravar drasticamente o adoecimento e morte de brasileiros, muitos deles asfixiados, como ocorreu em Manaus e em outros municípios amazonenses por falta de oxigênio.

Quanto mais decresce a popularidade do presidente Jair Bolsonaro maior intensificação é feita na agenda presidencial de rua, nas aparições em eventos e visitas a municípios com prévia organização dos aglomerados humanos. Há prazer visível por parte do presidente da República nesse tipo de atitude enquanto a taxa de morte aumenta.

Para a maioria dos indígenas a realidade ao longo da pandemia é de omissão e morosidade governamentais em todos os níveis submetendo as comunidades a ameaça efetiva de contaminação pelo coronavirus e à morte.

São os relatos dos indígenas sobre o um cotidiano de sofrimento que integram o documento apresentado, oficialmente, aos senadores membros da coordenação dos trabalhos da CPI, como contribuição e pedido de providências. Dados da Fundação Vigilância Sanitária (FVS) do Estado do Amazonas, incluídos do documento, indicam que até o dia 17 de maio de 2021, Manaus contabilizou 406 casos confirmados de Covid-19, 56 hospitalizações e 25 óbitos de indígenas residentes na cidade, o que representa uma das taxas mais elevadas de letalidade, de 6.2, entre os povos indígenas. Que essas vozes ecoem e sejam ouvidas para ser configuradas nos atos concretos da comissão e de lá substanciem a tomada de decisão efetiva no esforço de reparação pelo Estado brasileiro na construção dessa tragédia, desse genocídio.

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