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A criação do Nordeste e outras reflexões

Região foi inventada com base em fatores geográficos, mas também políticos – e a imagem de abandono foi fixada com ajuda até da arte. Mas, naqueles nove estados, há mais que raiz: seus galhos avançam por toda a civilização brasileira


De OUTRASPALAVRAS, 15 de Junho 2021
Por Flávio José Rocha


Pintura: Candido Portinari, detalhe de Retirantes (1944)

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Esta é a segunda parte do texto de Flávio José Rocha. Leia a primeira parte: Ao olhar o Nordeste, o que o Brasil vê?

Falar sobre o Nordeste pode se tornar repetitivo e até mesmo cansativo, já que é tema de debates há mais de um século. Sobre ele criou-se um prisma discursivo a irradiar sentenças que se pretendem definitivas. Não é pouco sentenciar que há uma necessidade infindável de encaixar tudo o que lá se origina. No entanto, como já afirmei na primeira parte desta reflexão, não é possível negar que há peculiaridades próprias daquele espaço territorial que o distinguem. A questão é que algumas se sobressaem sobre outras por interesses de alguns grupos.

Mas, afinal, o que é o Nordeste? A esta pergunta muitas pessoas vêm se debruçando há décadas e, em muitos casos, limitam mais do alargam a compreensão sobre um território multifacetado como aquele. Há os que o descrevem com uma fixação nas raízes e não percebem que os galhos avançam em várias direções, especialmente com a urbanização crescente e as consequências deste deslocamento com os seus imbricamentos sociopolíticos, econômicos e culturais. Avanço que pode ser sentido com as novas gerações conectadas às tecnologias digitais e os universitários surgidos pela expansão do ensino superior com as instituições federais criadas no interior dos estados nordestinos durante os anos dos governos petistas. Não há dúvida de que é uma geração que aprende e apreende o mundo de uma outra maneira se comparada aos seus antepassados. Mas é preciso que se admita que também não existiria este espraiar dos galhos sem as raízes profundas.

De certo, podemos afirmar que aquela foi uma terra tão violentada em todos os sentidos pelos primeiros invasores europeus a ponto de se acreditar que o Pau Brasil, explorado à exaustão naquele território havia sido extinto (PINTO, 2000). No que tange às violências contra os povos originários que lá habitavam quando do início da invasão, cito como exemplo o massacre dos indígenas que habitavam a Serra da Copaoba, localizada na Paraíba, em 1574, e que entrou para a historiografia oficial como a Tragédia do Engenho Tracunhaém1. Há vários outros casos de violências contra os povos indígenas descritos no livro A presença indígena no Nordeste (OLIVEIRA, 2011) e certamente muitos outros foram apagados ou sequer encontraram acolhida nos registros na história oficial.

Para entendermos a complexidade que envolve esta região, é necessário voltar para um tempo em que o termo Nordeste sequer existia. Até os anos 1930, era comum referir-se aquela região apenas como Norte. O escritor Durval Muniz de Albuquerque Jr. conta em seu livro A invenção do Nordeste e outras artes (1999, p. 81) que “O termo Nordeste foi utilizado inicialmente para designar a área de atuação da Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas – IFOCS.” Foi somente em 1970, durante a Ditadura Civil-Militar imposta ao país, que a Bahia foi designada como parte da divisão territorial atual e a delimitação regional ganhou o desenho com os nove estados como o conhecemos hoje. Isso mostra que as fronteiras, em muitos casos, são acordadas por interesses econômicos e políticos e que o que hoje conhecemos por Nordeste nem sempre teve este desenho.

Se na primeira parte desta reflexão fiz um resgate de soluções apresentadas por alguns nomes até a primeira metade da década de cinquenta do século passado, tentarei, e já aviso que será com lacunas, refletir sobre outras pessoas que pensaram e pensam o Nordeste, oferecendo caminhos para os seus “problemas”. Repito que há lacunas e outras pessoas merecem entrar nesta lista, que como todas as listas, é excludente. A falta de mulheres, afro-descentes e indígenas nas esferas de poder que traçam estes caminhos escancara que a exclusão tem grupos preferenciais. Isso demonstra os limites das falas e decisões sobre o Nordeste, um lugar plural em termos de gênero, raça e etnia, mas que ainda não estão representados nos círculos do poder de decisão. Muitas propostas para as questões econômicas ou climáticas do Nordeste nasceram ou foram inspiradas longe de lá. Um exemplo deste disparate foi, por exemplo, ter a sede do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – DNOCS – localizada na cidade do Rio de Janeiro por décadas. Técnicos que visitavam a região periodicamente decidiam sobre grandes projetos e investimentos sem muito contato com a realidade local. Mas “Deixemos de coisas, cuidemos da vida”, como disse o sertanejo Belchior, e sigamos com alguns nomes que nas últimas décadas influenciaram de alguma forma as decisões e as visões sobre o Nordeste.

Celso Furtado

Celso Furtado2 era filho de um desembargador da Paraíba e foi um economista nascido naquele estado. Ele saiu daquela região aos dezenove anos para só retornar definitivamente décadas depois já como um economista respeitado. Além de superintendente da SUDENE, foi Ministro do Planejamento nos anos 1960 e Ministro da Cultura nos anos 1980, durante o governo Sarney. No campo ideológico, ele era nacional-desenvolvimentista3 e um grande defensor da implantação do capitalismo industrial moderno no país através da intervenção do Estado como mediador e planejador, somando a esta implantação o conteúdo social (BIELSCHOWSKY, 2009). A Economia do Desenvolvimento era vista como a “bola de cristal” que daria a resposta para todos os problemas a serem enfrentados pelos países “atrasados” e as respostas quase sempre passavam por consumir o modelo dos países “desenvolvidos” no campo da agricultura mecanizada e da industrialização. Seus representantes vinham dos países do Norte ou eram jovens dos países do Sul que tinham aperfeiçoado os conhecimentos acadêmicos nos Estados Unidos e/ou na Europa, como é o caso Furtado. Aqui não abordaremos a obra de Celso Furtado, objeto de estudos de grandes especialistas e merecedora de muita atenção. Destacaremos o seu período à frente da SUDENE.

Pouco se comenta, mas Furtado foi, por exemplo, contra a reforma agrária no Semiárido. Em seu discurso de posse na SUDENE ele não fez menção alguma sobre este que é um dos principais motivos das desigualdades socioeconômicas daquela região. Ele acreditava que um dos principais problemas do sertão era que este estava superpovoado e dependente da agricultura de subsistência (no que em parte estava correto), e, por isso mesmo, a sua população estava à mercê das estiagens. Em um debate em 1959, Furtado (2009(a), p. 62) afirmou que, “Na economia da caatinga, a divisão de terra seria o tiro de misericórdia, inclusive com a possível liquidação da pecuária. Reforma agrária, para o homem da rua significa divisão de terra, eliminação do proprietário do latifúndio. Eliminação da renda da terra. Se fizéssemos isso na caatinga, nós a despovoaríamos, desorganizando completamente a economia da região, o que seria um grave erro.” Mas isso não significa que ele era contra a Reforma Agrária como um todo, pois defendia que ela fosse feita no litoral, onde estão as grandes plantações de cana de açúcar. O sonho de Furtado era redimensionar a propriedade da terra naquela área (era um crítico da monocultura do açúcar), como estava previsto no documento elaborado pelo Grupo de Trabalho de Desenvolvimento do Nordeste – GTDN. Sua intenção foi boicotada pelo Presidente Juscelino, numa clara demonstração de que a SUDENE tinha mais o papel de propaganda eleitoral do que de transformadora da realidade nacional. Furtado propôs primeiro a industrialização e a mudança no processo de produção agrícola junto com a relocação do “excedente populacional” do Semiárido, já que ele acreditava que era o aumento da população sertaneja uma das grandes causas dos problemas com a chegada das estiagens prolongadas. Sobre a primeira proposta, a economista Tania Bacelar Araújo (2009, p. 38) afirma que a industrialização era vista como a grande catalisadora para o desenvolvimento do Nordeste e “Por pensar assim, Furtado buscou construir uma aliança com parte do empresariado do Sudeste.” A industrialização também era vista como sinal da entrada do Brasil na modernidade, algo bem ao gosto do Presidente Juscelino, o padrinho político de Furtado. A industrialização promovida não respeitou, na grande maioria dos casos, a realidade local. Se tomarmos o exemplo da indústria têxtil, ela necessita de grande quantidade de água para a lavagem de peças de vestimentas, por exemplo, além de poluir os mananciais com produtos químicos. Um contraponto ao observarmos que Furtado afirmava que no Semiárido havia um divórcio entre homem e natureza, dada a insistência em produzir alimentos em um lugar com imprevisibilidade pluviométrica, algo ainda muito recorrente. Por isso hoje se fala em Indústria Seca para vencer a Indústria da Seca (SILVA, 2018).

Sobre a ideia de transferir a população para outras áreas do país, esta não era uma novidade e já havia sido incentivada desde a época do Império. Em debate realizado no ISEB, em 1959, ele chegou a afirmar que “O Nordeste poderá ir mordendo cada vez mais a orla da Floresta Amazônica, à medida que for incorporando ao seu processo de expansão econômica os vales, por exemplo, do Maranhão, de Goiás e do Pará.” (FURTADO, 2009(a), p. 57). Um discurso, digamos, nada amigável ao meio ambiente, visto que a sua intenção era tornar a Amazônia “produtiva” dentro dos padrões do desenvolvimentismo.

Vale lembrar, para ser justo com Furtado, que ele teceu críticas sobre a multiplicidade das ações no Semiárido feitas pelos diversos órgãos governamentais criados ao longo das primeiras seis décadas do século XX que não dialogavam entre si. Além disso, ele já dizia abertamente que o problema da região não seria solucionado apenas armazenando a água em grandes açudes e criando campos de irrigação em uma região com grande evaporação e “tendência à rápida salinização”. Com relação a transposição do rio São Francisco, Furtado disse em uma entrevista nos anos noventa: “Eu não me interessei por este projeto desde o começo porque era uma panaceia. Minha reação imediata foi de cautela. Sempre perguntei: a quanto chega o investimento? Nunca ninguém conseguiu me dizer quanto custaria. Em segundo lugar, quem vai ser beneficiado com isso? São os proprietários de terras? Então terão novos açudes para evaporar? Portanto, o problema não está em ter mais água, mas em usar bem a água que já existe.” (TAVARES; ANDRADE; PEREIRA, 1998, p. 44). Exatamente o que dizem quase todos os hidrólogos que estudam a questão da água no Nordeste atualmente.

Sobre a SUDENE, grande marco de Furtado, ao contrário do que foi propagado ao longo das últimas décadas, a sua criação foi mais uma resposta às derrotas eleitorais sofridas pelo Presidente Juscelino Kubitschek nas eleições de 1958. O Presidente Kubitscheck aproveitando-se da repercussão de um encontro dos bispos do Nordeste liderados por Dom Helder Câmara, realizado na cidade de Campina Grande, em 1956, lançou as bases para o que viria a ser a SUDENE, com a criação do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste – GTDN. O planejamento era a grande peça de marketing da SUDENE. No entanto, em uma avalição mais meticulosa percebe-se que este planejamento não dialogava com a diversidade de povos e ambientes do lugar. Não era um planejamento com, era um planejamento para, no velho estilo “nós estamos aqui para ensinar vocês.” Tratava-se mesmo de impor um modelo de industrialização e agricultura mecanizada importados de outros países e vistos como uma panaceia. Alguns projetos liderados pela SUDENE enricaram muitas pessoas do mundo dos negócios através dos seus financiamentos generosos. Não por acaso, apesar de ter a palavra Nordeste na sua nomenclatura, a SUDENE atende muitos municípios de Minas Gerais e até do Espírito Santo. E o número destes municípios do Sudeste não para de crescer no mapa desta instituição, já que o Câmara dos Deputados aprovou no último dia 27 de maio a inclusão de mais 81 municípios mineiros e 3 capixabas.4

Em 1984 Furtado (2009(b), p. 24) afirmou em uma palestra no Primeiro Encontro sobre Alternativas Econômico-Sociais para o Desenvolvimento do Nordeste promovida pela UFPB que “Ninguém duvida que o impacto das secas seria menos negativo se a economia nordestina fosse mais bem adaptada à realidade ecológica regional, particularmente se a estrutura agrária não tornasse tão vulnerável a produção de alimentos populares.” Há uma clara mudança na sua percepção sobre a interação entre economia e natureza que esteve ausente no momento em que chefiou a SUDENE, mas aí já era tarde para mudar os rumos alicerçados com os generosos incentivos à industrialização naquela área. Não cabe uma condenação a Furtado, ele é fruto de um momento em que a visão de mundo apontava que o modelo industrial ocidental seria a única via para o planeta. Porém, também é inegável que este modelo incentivado através da SUDENE influenciou gerações e resultou em muitos problemas socioeconômicos e ambientais para o Nordeste.

José Guimarães Duque

É a partir de seus limites e não de suas potencialidades e possibilidades que o Nordeste é muitas vezes apresentado. José Guimarães Duque, um agrônomo mineiro que adotou o Nordeste como morada viu por lá mais potencialidades do que limites. É claro que nem tudo que propôs é perfeito, mas isso não invalida a inovação de pensar a partir do lugar e não para o lugar.

Duque debruçou-se sobre a biodiversidade presente naquela região e advogou por uma relação diferente com a vegetação xerófila do Semiárido para a melhora da qualidade de vida dos habitantes daquele meio, como pode ser lido em seu livro O Nordeste e as lavouras xerófilas (1980). Também era um crítico da falta de diálogo entre os projetos impostos pelos governos e os técnicos que os implantavam com os moradores locais. No seu livro Perspectiva Nordestina (1982, p. 23), ele afirma que “Os projetos oficiais, em geral, carecem de prudência e poder de conquistar a simpatia, a aprovação e o auxílio dos habitantes, que eles pretendem beneficiar. A soluções alternativas, modestas, como a procura, na tendência de improvisação do povo, de novas formas de sucesso inculcadas pelo sentir da natureza em redor em face dos desejos inatos do camponês, foram esquecidas ou desprezadas pelo Técnico, que preocupado ela artificialização do meio, julgou-se superior na compreensão e na experiência do habitante nativo, olvidando que este foi plasmada pelas relações, pelas emoções e pelos sacrifícios da vida.” É esse diálogo, reclamado por Duque, que move a Articulação do Semiárido Brasileiro – ASA – uma rede composta por centenas de ONGs que trabalha com a ideia de convivência com o Semiárido através de projetos de sustentabilidade financeira e ambiental junto aos seus habitantes.

A Caatinga é o bioma que ocupa a maior área territorial do semiárido e a única com aquelas características no planeta. Embora ela ainda se encontre em fase de estudos, sabe-se que “hiberna”, isto é, perde as suas folhas para economizar energia durante o verão e nos grandes períodos de estiagem. No entanto, a imagem que foi propagada da Caatinga é a de uma área pobre em biodiversidade e dominada por arbustos com galhos secos, o que está bem longe da verdade como atestam as recentes pesquisas científicas, desfazendo certos mitos sobre aquele bioma. Ainda há muito o que se revelar sobre o mesmo, já que foi de pouca atração para os estudiosos por décadas. Não há dúvidas de que o trabalho de Duque foi um grande avanço para mostrar a sua riqueza.

Durval Muniz Albuquerque Jr.

O escritor Durval Muniz vem há anos chamando a atenção com o seu livro A invenção do Nordeste e outras artes (1999), originado da sua tese de doutorado. Muniz argumenta que o que se convencionou chamar de Nordeste é uma invenção para manter os privilégios das elites nordestinas. Nas palavras dele (1999, p. 72), “A descrição das ‘misérias e dos horrores do flagelo’ tenta compor a imagem de uma região ‘abandonada, marginalizada pelos poderes públicos’”. Essa fixação de uma imagem imutável no inconsciente coletivo brasileiro acabou por favorecer a manutenção de uma estrutura de poder que parece eterna e se retroalimenta. Elas, as imagens, convencem grande parte da população brasileira de que algo deve ser feito urgentemente naquela região “miserável” e este algo está sempre atrelado pelos governos à construção de grandes obras como os açudes, as barragens, os grandes projetos de irrigação, a rodovia Transamazônica, a Ferrovia Transnordestina ou a transposição do rio São Francisco. As questões fundiária e hídrica que sustentam as desigualdades socioeconômicas sempre estiveram fora de questão em qualquer dessas ações governamentais, salvo pequenos ajustes por pressão de movimentos sociais que reivindicam as reformas agrária e hídrica.

Muniz acredita que foi a partir dos anos vinte do século passado que emergiu uma ideia fabricada sobre a região e que, como afirma, começou a “Invenção do Nordeste”. Segundo ele (1999, p. 61), “A escolha de elementos como o cangaço, o messianismo, o coronelismo, para temas definidores do Nordeste, se faz em meio a uma multiplicidade de outros fatos que, no entanto, não são iluminados como matérias capazes de dar uma cara à região. A escolha, porém, não é aleatória. Ela é dirigida pelos interesses em jogo, tanto no interior da região que se forma, como na sua relação com outras regiões.” A criação imagética do Nordeste como uma área sempre assolada pelas secas, com milhares de pessoas seguindo líderes messiânicos e a necessitar da ajuda governamental para salvar o seu povo ganhou corpo através do incentivo da própria elite local para barganhar verbas públicas e assim salvá-la de falência econômica, defende Durval.

Imagens não nascem do nada e é isso que Durval quer mostrar. Para ele as artes em suas diferentes expressões foram as grandes propagadoras destas representações que se tornaram clássicas sobre aquela região, sendo difundidas através da pintura e outras expressões como o teatro, a literatura, a música, o cinema e a televisão. A questão que Durval coloca é de extrema importância e seu livro é leitura obrigatória para uma reflexão sobre o Nordeste. Por outro lado, não é verdade que a arte do e sobre o Nordeste apenas se fixou na imagem da pobreza e da miséria da região. Basta ver a leva de cantores e cantoras que arrebatou o Brasil nas últimas quatro décadas com um som e uma estética que refletem a minha afirmação. Na música, posso citar Belchior e Alceu Valença. No cinema, as temáticas abordadas são cada vez mais plurais como mostram os filmes Boi Neon e Divino Amor, dirigidos por Gabriel Mascaro, Praia do Futuro, de Karim Ainouz. É verdade que são filmes realizados na última década, mas Baile Perfumado, dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas, em 1996, é uma película feita no sertão e que exibe muita água e terra verde ao contrário dos famosos filmes sobre cangaceiros feitos na mesma região que o antecederam.

Não resta dúvidas que a obra de Muniz inova ao trazer novos dados e argumentos para desmontar um roteiro escrito por décadas e ela vem reverberando, vejam só, nas artes. Já foi montada uma peça teatral pelo Grupo Carmin5 com mesmo nome e a cantora Juliana Linares acaba de lançar um novo trabalho musical dando nome ao seu álbum de Nordeste ficção. Estes artistas foram inspirados pela obra de Durval no anseio por novas e múltiplas imagens da região onde vivem, mas elas também não deixam de representar interesses.

Roberto Mangabeira Unger

Roberto Mangabeira Unger, professor da Harvard University, foi Ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos – SAE – entre os anos 2007 e 2009 e voltou a assumir este cargo durante o governo da Presidenta Dilma por alguns meses em 2015. Baiano de nascimento, cedo foi morar nos Estados Unidos onde fez carreira.

Se durante os anos do Presidente Fernando Henrique Cardoso houve um desmonte dos vários órgãos que trabalhavam com assuntos tidos como próprios do Nordeste, a exemplo da SUDENE e do DNOCS, a situação foi revertida neste âmbito com o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Grupos e comissões de estudos foram formados, e a SUDENE e o DNOCS receberam o antigo status e um orçamento condizente para os seus trabalhos. Além disso, foi criado o Instituto Nacional do Semiárido – INSA –, e foram incentivados vários estudos sobre o Nordeste em órgãos que subsidiam o planejamento do governo federal como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – e o Instituto de Pesquisas Aplicadas – IPEA. Mais uma vez o planejamento surgiu como uma da resposta para os problemas daquela região.

É sob o comando de Unger que a SAE lançou, em 2009, a publicação O desenvolvimento do Nordeste como projeto nacional: um esboço. Há vários tópicos, mas não é nossa intenção analisarmos detalhadamente sua reflexão. Nela se pode constatar algumas novidades ou meras repetições de antigas receitas que não foram testadas, foram mal testadas, ou o foram e fracassaram. Seu esboço,como Unger o chamou, tem o mérito de trazer novidades em alguns campos e omitir-se em outros polêmicos, como a questão agrária. Exalta a originalidade, a criatividade e o empreendedorismo do povo nordestino, no Semiárido em especial, e sugere o distanciamento da industrialização como pivô central para o desenvolvimento, foco de Celso Furtado. A isso ele chama de “ilusão são paulismo”. Porém, crê que microempreendimentos e pequenas cooperativas não resolvem a questão da inclusão, em especial no sertão, o que denomina de “ilusão do pobrismo”. Unger tenta se distanciar do passado e procura não se atrelar a propostas dos grupos que desenvolvem “pequenos” projetos no interior do Nordeste. Ele aposta que serão as pequenas e médias empresas, aí incluídas as voltadas para as novas tecnologias, a merecerem atenção. Em suas palavras, “O Nordeste não é para ser versão tardia de São Paulo de meados do século passado. O Nordeste deve pôr sua própria originalidade a serviço da originalidade do Brasil, ao abrir novo caminho de desenvolvimento nacional.” (UNGER, 2009, p. 13). O problema está em que este novo enfoque ficou apenas como uma possibilidade, já que as propostas não apontam como lidar/dialogar com questões essenciais como o modelo de desenvolvimento dissociado da cultura, do modo de vida e do meio ambiente locais. E o resultado deste tipo de ação sem diálogo com o lugar já é bem conhecido no Nordeste. Em nenhum momento Unger fala da participação popular na construção deste projeto, embora peça que o governo não tenha medo do pensamento contraditório. Em um jogo semântico, diz que “O Nordeste é o maior órfão do modelo de desenvolvimento construído no país no último meio século. Convém ao país que o Nordeste se rebele contra esse modelo de desenvolvimento. Ao se rebelar contra ele, falará pelo Brasil.” (UNGER, 2009, p. 25). Uma visão de um Nordeste com uma fala regional uníssona.

Por fim, embora traga algumas novidades, o seu Projeto Nordeste ainda se veste com a velha roupa da aposta nas grandes obras como mecanismo propulsor da melhoria das condições de vida da população.

Para onde caminha o Nordeste?

Apesar dos esforços empreendidos por pesquisadoras e pesquisadores na busca por descrever a pluralidade e as riquezas naturais, econômicas e culturais daquela área nas últimas décadas, a exemplo de Manoel Correia de Andrade com o seu livro A terra e o homem do Nordeste (1964), eles ainda não conseguiram atingir o imaginário brasileiro, já que por décadas ela foi uma região retratada muitas vezes como geograficamente não diversa, hidricamente pobre, economicamente dominada por oligarquias, culturalmente focada no passado e socialmente atrasada e, por tudo isso, a necessitar de quem a aponte o caminho para a modernidade.

Os projetos criados para “salvar” o Nordeste foram tantos que listá-los tomaria páginas. Mesmo assim, continuam sendo lançados com estardalhaço na mídia por parte do governo atual. Há sempre uma promessa para levar o desenvolvimento para aquela região. Mas qual o tipo de desenvolvimento, para quem e para o quê? O seu povo se considera não desenvolvido? Quem define o que é desenvolvimento e baseado em que? Nunca é demais lembrar que a palavra des-envolvimento significa não envolvimento. Talvez por isso os projetos não envolvam os habitantes locais e há sempre a negação da escuta sobre as possibilidades que possam vir a emergir dos saberes do lugar.

A verdade é que não há apenas um Nordeste, há Nordestes. Imaginar que uma região com aquela extensão territorial e uma população com mais de 50 milhões de pessoas é uniforme e monocultural é desconhecer sua realidade. As novas gerações já estão criando as imagens para estes Nordestes e quem sabe o trecho abaixo cantado por Belchior na canção Conheço o meu lugar será finalmente entendido por toda a nação.

Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!
Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!
Você sabe bem: Conheço o meu lugar!

Referências bibliográficas

ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes . São Paulo: Cortez, 1999.

ANDRADE, Manoel Correia de. A terra e o homem no Nordeste. São Paulo: Brasiliense, 1964.

ARAUJO, Tania Barcelar. Desenvolvimento Regional no Brasil. In: FURTADO, Celso et al. O pensamento de Celso Furtado e o Nordeste hoje. Rio de Janeiro: Contraponto: Centro Internacional de Políticas para o Desenvolvimento: Banco do Nordeste do Brasil, 2009, p. 33-42.

BIELSCHOWSKY, Ricardo. Ideologia e Desenvolvimento. In PÁDUA, José Augusto (Org.). Desenvolvimento, justiça e meio ambiente. Belo Horizonte: Editora UFMG: Peirópolis, 2009.

DUQUE, José Guimarães. O Nordeste e as lavouras xerófilas. Mossoró: Esam, 1980.

_____. Perspectivas nordestinas: obras póstumas . Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil, 1982.

FURTADO, Celso(a). Operação Nordeste. In FURTADO, Celso. O Nordeste e a saga da Sudene (1958-1964). Rio de Janeiro: Contraponto: Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento. 2009

_______(b). In FURTADO, Celso et al. O pensamento de Celso Furtado e o Nordeste hoje. Contraponto: Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento. 2009. pp.

PINTO, Welington Almeida. A saga do Pau-Brasil: história, monopólio & devastação. Belo Horizonte: Edições Brasileiras, 2000.

OLIVEIRA, João Pacheco de. A presença indígena no Nordeste. Rio de janeiro: Contra Capa. 2011

TAVARES, Maria da Conceição; ANDRADE, Manuel Correia de; PEREIRA, Raimundo. Seca e poder: entrevista com Celso Furtado. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1998.

ANÔNIMO. História da conquistada Paraíba. Brasília: Senado Federal. 2010.

SILVA. Flávio José Rocha da. Da Indústria da Seca para a Indústria Seca. In Ecodebate. 2018. Disponível em https://www.ecodebate.com.br/2018/08/29/da-industria-da-seca-para-a-industria-seca-artigo-de-flavio-jose-rocha-da-silva/

UNGER. Roberto Mangabeira. O desenvolvimento do Nordeste como projeto nacional: um esboço. Brasília. Secretaria De Assuntos Estratégicos. 2009. Acessível em https://www.afbnb.com.br/arquivos/File/projeto_nordeste_com_anexos_versao_maio_09.pdf

Notas de rodapé

1 A Serra da Copaoba fica localizada onde hoje estão os municípios paraibanos de Duas Estradas, Serra da Raiz, Belém e Caiçara. Confira o livro História da conquista da Paraíba (SENADO, 2010) https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/573099/000856368_historia_conquista_paraiba.pdf?sequence=8

2 Confira o documentário O Longo amanhecer: cinebiografia de Celso Furtado (MARIANI, 2007). Sobre Celso Furtado e sua obra, confira também o site do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento em http://www.centrocelsofurtado.org.br/index.php.

3Segundo Bielchowsky (2009, p. 38), “O grande encontro dos nacionalistas desenvolvimentistas ocorreu em meados dos anos 1950, quando Celso Furtado e Américo de Oliveira criaram o Clube dos Economistas, entidade que reuniu algumas dezenas de técnicos do governo federal e alguns desenvolvimentistas do setor privado.”

4Veja a notícia em https://www12.senado.leg.br/noticias/audios/2021/05/aprovada-inclusao-de-municipios-de-minas-gerais-e-espirito-santo-na-sudene

5 Veja entrevista com a diretora e um ator do Grupo Camin com Paulo Henrique Amorim sobre a peça em https://www.youtube.com/watch?v=wCIRnhPVtl8


FLÁVIO JOSÉ ROCHA
É doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP, com com Pós-doutorado no Instituto de Energia e Ambiente da USP. Ator, escritor e multiplicador do Teatro do Oprimido desde o ano de 2005.


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