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Vandana Shiva: “A saúde do planeta e a nossa são a mesma”

Do IHU, 21 Mai 2021
Por Enric Tintoré, publicada por La Vanguardia, 17-05-2021. A tradução é do Cepat.



A agricultura industrial, em larga escala e química, é responsável por 50% do aquecimento global e destrói a biodiversidade do planeta. A alternativa é a agricultura ecológica, orgânica, intensiva e biodiversa. É o único caminho para reparar os sistemas climáticos danificados, salvar a Mãe Terra, combater a fome, reduzir as doenças e criar um mundo de equilíbrio, harmonia, prosperidade e abundância. Esta é a grande mensagem de Vandana Shiva, a grande ativista pela biodiversidade, tanto em seu país natal, Índia, como no resto do mundo, protagonista, nesta semana, do ciclo de conferências SOS_Tenibilidad que, há um ano, é promovido por La Vanguardia.

Vandana Shiva fundou diversas organizações para mobilizar os agricultores de diferentes partes do mundo, em defesa de seus direitos, e participou de inúmeros fóruns e organizações internacionais. Foi nomeada embaixadora de Barcelona como Capital Mundial da Alimentação Sustentável.

Em uma extensa entrevista com Enric Sierra, diretor-adjunto do jornal La Vanguardia, que foi transmitida na página web deste jornal, Vandana Shiva fez uma intensa, apaixonada e documentada argumentação a favor da luta para garantir a biodiversidade no planeta.

Shiva é doutora em Física e também em Filosofia, autora de diversos livros e grande ativista a favor dos movimentos alternativos e do ecofeminismo. Por meio do movimento global Mulheres Diversas pela Diversidade, impulsionado por ela, coloca a mulher no centro da luta pela sustentabilidade ambiental.

“A economia, segundo Aristóteles, é a arte de viver. Deriva da palavra oikos, casa. Trata-se – afirmou – de cuidar da casa, não de explorá-la, saqueá-la e devastá-la, que é o que nos trouxe a ameaça de extinção e o colapso. As mulheres, como cuidadoras do lar, da terra, devem liderar a transição para o futuro. Como aliadas da natureza, como cocriadoras, junto à natureza, como coprodutoras com a natureza, mostram um caminho que supera a conquista, o domínio, a propriedade e a violência. As mulheres nunca abandonaram e agora são as que devem liderar a transição. Se existe futuro, será forjado em conformidade com a terra e as mulheres”.

Por seu extenso trabalho em defesa dos agricultores e das mulheres – como destacou Enric Sierra –, em 1993, recebeu o Prêmio Right Livelihood, também conhecido como o Prêmio Nobel alternativo. Outros prêmios recebidos foram o Global 500, de 1993, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o prêmio internacional do Dia da Terra, também das Nações Unidas.

Em 2003, a revista Time a qualificou como heroína ambiental, Newsweek como uma das cinco mulheres mais influentes do continente asiático, e a revista Forbes como uma das mulheres mais poderosas do mundo.

As primeiras palavras de Vandana Shiva foram sobre a trágica situação vivida na Índia pelo impacto da pandemia de covid. “Peço que rezem por nós – disse – e que nos tenham em seus pensamentos”.

Vandana Shiva insistiu em que a agricultura industrial é a causadora de mais de 50% das emissões que provocam o aquecimento do planeta. Os números são claros: de 12 a 14% correspondem à própria produção, perto de 20% à destruição da mata amazônica para o cultivo de produtos básicos para a agroindústria, e cerca de 20% são geradas pelos processos para converter os alimentos saudáveis – que deveriam ser consumidos frescos – em comida lixo, produtos preparados e processados e o seu transporte em grande escala, que por sua vez geram uma alta porcentagem de resíduos.

“Mas – afirma –, amanhã mesmo, podemos reduzir estes 50% de emissões a zero e garantir a soberania alimentar, assegurar a regeneração das terras e das reservas de água com a mudança do modelo de agricultura”.

Em sua conversa com Enric Sierra, afirmou que o dano à biodiversidade é a base das pandemias. Explicou que o dano à biodiversidade parte de um modelo de agricultura equivocado, que não busca preservar a vida, como primeiro objetivo, por meio do cultivo da terra. “Pretende-se apenas mercantilizar lucros e obter patentes”.

Insistiu em que a agricultura não é um sistema de fabricação industrial. “Um sistema de nutrição – acrescentou – é um ciclo. Os alimentos tecem a teia da vida. O que flui entre as espécies é a nutrição e a energia, e quando alteramos esses fluxos de nutrição, que é um direito de todas as espécies, o resultado são todas as grandes emergências que enfrentamos”.

Desde 1984, Vandana Shiva e sua Fundação para a Ciência, a Tecnologia e a Ecologia desenvolvem métodos e sistemas para criar uma agricultura melhor frente à verdadeira guerra que há contra a biodiversidade. Na entrevista com Enric Sierra, citou relatórios que demonstram que, nos últimos trinta anos, 83% das espécies de insetos se perderam, especificamente as mariposas e as abelhas, que estão na origem de um terço dos alimentos que comemos. Muitas das plantas nativas também desapareceram.

“Isso aconteceu – afirmou – porque utilizamos inseticidas e pesticidas elaborados para matar. Literalmente, espalhamos pelo mundo um produto químico cujo propósito original era limpar tubulações: o glifosato, e agora é utilizado para eliminar plantas. A empresa Monsanto se enaltece de matar todo ser verde. Mas tudo o que é verde é a fonte de nossa alimentação e, com isso, destrói-se nosso microbioma intestinal. Então, a saúde do planeta e a nossa são a mesma”.

“80% dos alimentos vêm de pequenas propriedades, que utilizam 25% da terra. Mas – acrescentou – os 20% dos alimentos ruins, para qualificá-los de alguma forma, vêm de cultivos e de propriedades industriais que utilizam 75% da terra e a contaminam. Se este tipo de agricultura avançar, teremos um planeta muito morto e uma população muito faminta”.

Em fins dos anos 1990, na Índia, Vandana Shiva impulsionou o movimento Navdanya para lutar contra as tentativas de patentear as sementes e para defender a biodiversidade. “Todas as espécies possuem o seu valor intrínseco – disse – e têm o direito de viver. São os direitos da Mãe Terra que precisamos defender. Ao salvar sementes, intensificamos a biodiversidade”.

A doutora e ativista destacou que descobriram que quanto mais biodiversidade em uma propriedade, mais alimentos produz e mais saúde existe por hectare. “Com a agricultura intensiva em biodiversidade, que fomentamos em Navdanya - acrescentou -, poderíamos alimentar duas vezes a população da Índia, livrar-nos da fome, das doenças, das mudanças climáticas, mais importante ainda, erradicar a pobreza rural”.

Com isso, evita-se que os agricultores se vejam expulsos pelas dívidas provocadas pela compra dos produtos químicos, que justamente destroem a biodiversidade. “A humanidade deve criar – disse – uma nova aliança, um novo contrato com a biodiversidade, no qual esteja presente que todos fazemos parte da bela teia da vida”.

“Cada um deve dar o seu primeiro passo para mudar as coisas”, respondeu Vandana Shiva ao diretor-adjunto do jornal La Vanguardia. Surgiram muitos movimentos para lutar contra o glifosato e para evitar o emprego de organismos geneticamente modificados (OGM). Ela mesma trabalhou com a União Europeia e com outros países para criar uma rede mundial sem OGM e sem glifosato.

“Mas é uma luta muito dura – reconheceu –, pois existem muitas pressões para evitá-la. Um amigo meu, Nicolas Hulot, foi o ministro de Transição Ecológica da França que devia se desfazer do glifosato, mas ao alcançar uma solução de compromisso, renunciou e saiu. Outro amigo no México proibiu o glifosato, mas entraram em sua casa e ameaçaram matá-lo. Então, enfrentamos uma máfia. Mas há esperança. Os cidadãos dos Estados Unidos que denunciaram a Monsanto pelos casos de câncer causado pelo glifosato estão ganhando milhares de casos. Ninguém é muito pequeno para iniciar a ação correta. Está em jogo a nossa saúde”, alertou.

A agricultura sem produtos químicos e sem venenos é, em sua opinião, o caminho para a saúde, a prosperidade e a paz com a biodiversidade. Neste sentido, denunciou que a União Europeia subsidia um sistema insustentável de má alimentação, flexibiliza as leis que protegem a biodiversidade e fala de economias verdes quando, na realidade, permite que quem polui siga poluindo.

“O que precisamos – disse – é de um sistema baseado na biodiversidade, que erradique a fome e as doenças, e crie um mundo de prosperidade e abundância”. Neste sentido, defende as cidades sustentáveis, como Copenhague, em cujo entorno se produz a maioria dos alimentos que seus habitantes precisam.

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