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Principais impactos que a desnutrição acarreta para eficiência do sistema imunológico: uma visão fisiológica de um problema multidimensional

Do IHU, 26 Mai 2021
Por  Lázaro Araújo Santos,



"A nutrição deficiente acarreta diretamente ao declínio das respostas imunológicas, levando a uma diminuição da função do timo, depauperamento da atividade das células T – grande mediadora dos processos de defesa –, além do decaimento da efetividade do sistema complemento", escreve Lázaro Araújo Santos, biólogo, especialista em Neurociências pela Faculdade Venda Nova imigrante (FAVENI) e mestrando em educação científica e formação de professores da Universidade do sudoeste da Bahia (UESB), em artigo publicado por EcoDebate, 25-05-2021.

Eis o artigo.

É evidente que a nutrição adequada está atrelada diretamente e intimamente ao desempenho do sistema imunológico.

Que a má alimentação, bem como a privação de nutrientes, sejam eles macro ou micro, está diretamente relacionado com a diminuição da sobrevida e ao aumento na probabilidade de um acometimento patológico de diferentes etiogêneses, não é novidade para ninguém.

Contudo, o que é preciso clarificar é como a deficiência de moléculas vitais influenciam negativamente o sistema imunológico.

A nutrição deficiente acarreta diretamente ao declínio das respostas imunológicas, levando a uma diminuição da função do timo, depauperamento da atividade das células T – grande mediadora dos processos de defesa –, além do decaimento da efetividade do sistema complemento.

Entre as principais carências alimentares que assolam o meio que nos cerca, a deficiência de Ferro, Zinco e vitamina A, são as que mais se destacam (JORDÃO; BERNARDI; BARROS-FILHO, 2009; MACÊDO et al., 2010; SARNI et al., 2010; LIMA; NUNES, 2015).

Em uma revisão sistemática realizada por no início do dos anos 2000, foi constatado que 53% dos brasileiros apresentam significativa deficiência de Ferro, sendo a maioria crianças menores de 2 anos (SARNI et al., 2010). Ao não possuir concentrações adequadas de Ferro o organismo sofre uma série de consequências, ao enfatizarmos o sistema imune, é possível analisar que a falta desse elemento leva a uma ineficiência das células T, redução da produção e liberação de mediadores imunogênicos, queda na capacidade das células brancas destruírem microrganismo extracelulares e ineficiência na eliminação de células infectadas por vírus (JORDÃO; BERNARDI. BARROS-FILHO, 2009; SARNI et al., 2010).

Outro elemento cuja carência tem levado significativa parte da população brasileira a desenvolver imunodeficiências é o Zinco. A falta desse elemento no organismo está diretamente associada a, também, uma menor eficiência da atividade das células T, tanto auxiliares quanto citotóxicas, assim como a diminuição da capacidade do individuo recuperar-se de um processo patogênico, além de acarretar a inviabilização da maturação dos linfócitos B (SARNI et al., 2010). Estima-se que algo entorno de 20,5% da população mundial sofra com a falta de Zinco na dieta (MACÊDO et al., 2010).

Cabe salientar que tanto o Ferro quanto o Zinco são fundamentais para a ação correta de enzimas com quais eles se associam. Dessa forma, muito dos sinais e sintomas que caracterizam a ausência desses elementos na dieta estão diretamente associados com a ação das proteínas que se tornam disfuncionais, haja vista a pouca disponibilidade zinco ou de ferro (MACÊDO et al., 2010). Para via de exemplo, proteínas como metaloproteases, anidrase carbônica, hemoglobina, alguns receptores intermediários dos mensageiros imunogênicos, carboxipeptidase e fosfatase alcalina (MACÊDO et al., 2010; SARNI et al., 2010).

Ademais, para além das deficiências em elementos tais como os já citados, observa-se uma crescente preocupação da comunidade científica a deficiências de vitaminas, dentre elas é mais enfatizada na literatura as deficiências da vitamina A e D (MACÊDO et al., 2010).

Em um indivíduo que em sua dieta não esteja presente quantidade mínimas de vitamina A ocorrerá, além da conhecida cegueira noturna, uma depleção da atividade das Natural Killer, e uma desregulação na produção e liberação dos mediadores inflamatórios, assim como de substancias antivirais. Outra decorrência advinda da ausência da vitamina A é o desbalanço na atividade inflamatória de células T denominadas de Th7, levando, por exemplo, a corrobora para o surgimento de doenças autoimunes tal como artrite reumatoide (MACÊDO et al., 2010; SARNI et al., 2010).

No que concerne a ausência da vitamina D e as reverberações no sistema imunológico, é necessário que mais estudos sejam realizados a fim de serem criados consensos. Contudo, é bem sabido para a comunidade científica que a ausência dessa vitamina está relacionada ao surgimento de doenças autoimunes (LIMA, NUNES 2015).

No mais vale destacar que muitas vitaminas e elementos são utilizados por diferentes proteínas como cofatores, coenzimas ou grupos prostéticos, sendo que a ausência desses elementos, por exemplo, selênio, vitamina C e as vitaminas que formam o complexo B, levam ao mau funcionamento dessas proteínas. Corroborando para perda da capacidade de controlar o processo inflamatório, ou, indo ao outro extremo, não conseguir desempenhar as funções imunológicas básicas (LIMA; NUNES, 2015).

Frente a isso é evidente que a nutrição adequada está atrelada diretamente e intimamente ao desempenho do sistema imunológico no combate aos diferentes tipos de injúria (SARNI et al., 2010).

Assim, e partindo de um ponto de vista profilático, é necessário que estruturemos maneiras que viabilizem a alimentação de com nutrientes básicos para a grande população, haja vista que dessa maneira iríamos diminuir o numero de pessoas doentes por infecções que facilmente seriam combatidas por um sistema imunológico apto.


Referências bibliográficas:

JORDÃO, R. E; BERNARDI, J. L; BARROS-FILHO, A. A. Prevalência de anemia ferropriva no Brasil: uma revisão sistemática. Rev Paul Pediatr, v.27, n. 1, p. 90-8, 2009.

SARNI, R. O.; SOUZA, F. I.; COCCO, R. R.; MALLOZI, M. C.; SOLÉ, D. Micronutrientes e sistema imunológico. Rev Bras Alerg Imunopatol, v. 33, n. 1, p. 8-13, 2010.

MACÊDO, É. M. C. D.; AMORIM, M. A. F.; SILVA, A. C. S. D.; CASTRO, C. M. Efeitos da deficiência de cobre, zinco e magnésio sobre o sistema imune de crianças com desnutrição grave. Revista Paulista de Pediatria, v. 28, n. 3, p. 329-336, 2010.

LIMA, A. C. B.; NUNES, I. F. de. O. C. O Papel da Vitamina D na Dermatite Atópica. Journal of Health Sciences, v. 17, n. 4, 2015.

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