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Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento

Do A Terra É Redonda, 27 de Maio 2021
Por ANDRE LUIZ DE SOUZA*


Hans Hofmann, The Vanquished, 1959


Comentário sobre o livro de Patricia Hill Collins.

Essa obra de Patricia Hill Collins, é internacionalmente reconhecida como uma grandiosa e histórica contribuição para o pensamento social contemporâneo. O trabalho de Collins articula diversas correntes teóricas, tais como os estudos de gênero e de etnia, de classes sociais, da sociologia da ciência, do pensamento social marxista e da teoria crítica.

A autora analisa o racismo como tema central nas vidas de mulheres negras, juntamente com outros sentimentos de opressão, uma expressão contemporânea de problemas muito antigos. A obra problematiza especificamente as mulheres afro-americanas, elencando temas caros para sociedade norte americana e analisando a população negra nos Estados Unidos da América (EUA) antes do racismo, do capitalismo e da escravidão. O feminismo surge nessa condição histórica e material. De acordo com a autora, a teoria social crítica permite analisar a situação da mulher negra, assim como compreender a supressão e a desvalorização do pensamento feminista negro.

Para Collins, a condição da realidade estadunidense não é algo que cai do céu como uma ideologia, mas é algo que é constituído desde a base, envolvendo ideias e ações de como lidar com os problemas de ser uma mulher negra do novo mundo. De acordo com a pesquisadora, existem muitos feminismos e também muitos feminismos negros, mas ela não considera o feminismo negro americano superior aos demais; por isso, aborda o como uma forma particular de feminismo negro entre tantas outras.

A socióloga afirma que a teoria social crítica emerge como única possibilidade de se compreender as mulheres como um grupo historicamente dominado, oprimido e que sobrevive ainda em condições socioeconômicas desfavoráveis. Para Collins, precisamos é preciso integrar todos esses feminismos, o feminismo negro, o feminismo latino, o feminismo lésbico, o feminismo indígena, dentre outros. Ela enfatiza ainda que todos esses movimentos podem coexistir para romper barreiras existentes na sociedade contemporânea. Por isso, a compreensão do pensamento feminista negro se volta ao seu conteúdo, às suas estruturas interpretativas, às abordagens epistemológicas e à política de “empoderamento”.

Ao lançar mão das noções de interseccionalidade e matriz de dominação, a autora demostra como a “classe, raça, gênero, e sexualidade constituem sistemas de opressão que se retroalimentam”. Ela nos apresenta dois desafios: primeiro, pensar como os paradigmas de interseccionais de opressão organizam a forma de dominação; segundo, perceber como as opressões interseccionais se originam, se inserem e se desenvolvem. As mulheres afrodescendentes não podem ser consideradas vítimas passivas da situação em que se encontram, ao mesmo tempo, não são completamente conscientes da opressão a que são subjugadas.

Por essa razão, a objetivo da socióloga não se limita a criar uma teoria social cujo objetivo seja simplesmente compreender e analisar a situação da mulher negra norte-americana, mas também promover o seu “empoderamento”, na luta por justiça social, porque “elas constituem um grupo oprimido”. A autora problematiza como funciona o racismo antinegro. Para Collins, ocorre um processo de desumanização e de dominação, que são duas grandes ideias essenciais para qualquer sistema de opressão. Objetivo desse processo é fazer as pessoas se sentirem menos humanas, criando maneiras de dominá-las politicamente, economicamente e culturalmente. Essas duas ideias sobre como o poder funciona no caso do racismo antinegro, segundo a pesquisadora, trabalham de modo diferente. A desumanização busca matar o espírito, controlar a mente e deixar o corpo para trás para dominação e exploração.

Em outras palavras, “Assim, uma questão fundamental do pensamento feminista negro nos Estados Unidos é a análise do trabalho das mulheres negras, e especialmente sua vitimização como “mulas” no mercado de trabalho. Como objetos desumanizados, as mulas são máquinas vivas e podem ser tratadas como parte da paisagem. As mulheres plenamente humanas são menos facilmente exploradas”. (p. 99).

Isso era a essência da escravidão nos Estados Unidos, haja vista que a dominação busca a relação holística entre corpo, espírito e mente. Essa forma de dominação existe ainda hoje. A dominação controla a mente, faz a pessoa acreditar que seus pensamentos não valem a pena, ensina a não confiar em suas próprias experiências, suas análises e das pessoas ao seu redor.

No caso específico da escravidão, a abolição não significou o fim da dominação racial, mas significou apenas que um sistema de dominação foi substituído por outro, exigindo, dessa forma, uma mudança nos padrões de opressão para que a subordinação dos negros permanecesse agora sob outra forma. Nesse sentido, a autora enfatiza que a violência é um mecanismo importante de controle, visto como uma tecnologia de dominação. Após um tempo, não precisamos mais ver pessoas morrerem em nossa frente. Essa lógica corporifica em nossa mente que não precisamos morrer, pois a ameaça de que isso possa acontecer conosco ou com alguém querido já é suficiente para sustentar a dominação, seja racismo ou outra forma de opressão.

Collins afirma que, nesse caso, as ideias de desumanização e dominação tomam uma forma particular sobre os negros nos EUA, sobre o legado da escravidão. A escravidão é um cárcere. Mesmo com abolição da escravidão, muitas realidades do passado se fazem presentes no cotidiano. Para a autora, as “mulheres negras estadunidenses encontraram um conjunto especifico de práticas sociais que acompanham nossa história particular no interior de uma matriz de dominação exclusiva caracteriza por opressões interseccionais” (p. 63).

A situação das mulheres afrodescendentes, que vivem em condições econômicas precárias, é bastante difícil. A maioria delas foi segregada da educação formal, muitas trabalham como empregadas domésticas em casas de famílias brancas de classe média, e muitas foram violentadas pelos seus patrões. No entanto, algumas mulheres negras se sobressaem nesse sistema que marginaliza e desumaniza as mulheres. Segundo a autora, uma quantidade significativa de mulheres afro-americanas está na classe média.

As integrantes da nova classe média trabalham para grandes empresas e no setor público. Nesse sentido, “a classe média domina o trabalho e, por sua vez, se subordina ao capital” (p. 63). Para a socióloga, “trabalho, família e opressão” mostram que a escravidão nos Estados Unidos gerou consequências desastrosas aos afrodescendentes, especialmente às mulheres. A autora ainda problematiza os sistemas escravistas e a repercussão que a escravidão teve/terá sobre a vida das mulheres negras nos dias atuais no século XXI; revestida de novos personagens na sociedade capitalista, muitas vezes a exploração não é perceptível.

A escravidão “moldou” o gênero feminino de acordo com as necessidades da sociedade vigente: quanto mais filhos as escravas tivessem, mais riqueza elas geravam aos senhores de escravos. Nesse sentido, “as mulheres não tinham controle sobre o seu corpo, tempo, tecnologia utilizada, o tipo ou montante de trabalho. Em sua, a incorporação forçada das mulheres da África Ocidental, como escravizadas, a uma economia política capitalista significou que elas se tornaram unidade de trabalho economicamente exploradas e politicamente impotentes […] A escravidão também deu contornos raciais à divisão do trabalho no capitalismo estadunidense, de modo que os afro-americanos foram relegados aos empregos vis, manuais e não intelectuais”. (p. 107).

Outra realidade nos EUA e problematizada pela teórica refere-se à condição de trabalho existente. No pós-guerra, a sociedade norte-americana vivenciou profundas mudanças que provocaram o surgimento de novos fenômenos na comunidade negra: o crescimento no número de mães solteiras adolescentes e o aparecimento de mulheres negras de classe média que ascenderam por meio do trabalho. As mulheres negras que trabalham, mas que continuam pobres, formam um segmento importante da classe trabalhadora. As tendências dos mercados de trabalho e as mudanças das políticas públicas do estado fizeram com que esse grupo ficasse economicamente marginalizado. A precarização das condições de trabalho revela uma realidade visível e tangível das condições de racismo existe na alma do estadunidense branco.

Outro ponto essencial é a questão da autodefinição que, sob o ponto de vista da autora, pode levar a um processo transformador da situação das mulheres negras. A constituição da identidade potencializa a resistência. Para Collins, “Identidade não é o objetivo, mas o ponto de partida no processo da autodefinição” (p. 333). A autodefinição faz com as mulheres negras renunciem o controle externo da sua própria imagem, criem/potencializem/construam independência e os seus próprios corpos, forjando elementos para o empoderamento.

A construção de uma epistemologia que valorize a perspectiva da mulher negra é primordial para consolidação de novos paradigmas para sociedade do século XXI. A experiência das mulheres negras norte-americanas no que se refere ao tipo de trabalho a que estão sujeitas, ao tipo de comunidade em que vivem e ao tipo de relacionamento que mantém com o outro, torna a vivência dessas mulheres diferente daquelas negras. A fim de validar o conhecimento proposto, Collins aposta nas mulheres negras como agentes do conhecimento, uma vez que elas seriam as pessoas autorizadas a discutirem um conhecimento teórico baseado em suas próprias experiências. Para tanto, é preciso resistir à teoria hegemônica e encontrar espaços e caminhos para o pensamento feminista negro.

A autora afirma, nessa direção, que é “relevante avaliar o ativismo das mulheres negras menos pelo conteúdo ideológico de cada sistema de crença individual- seja ele conservador, reformista, progressista ou radical- e mais pelas ações coletivas das mulheres negras que enfrentam cotidianamente a dominação nessas esferas multifacetadas”. (p. 332).

Nesse sentido, o empoderamento também exige mudar as injustas instituições sociais com que os afro-americanos vêm-se deparando de geração após geração. Nas palavras da socióloga, o pensamento feminista negro promove uma transformação paradigmática fundamental na forma como pensamos sobre as relações de poder injustas. Para Socióloga feminista, “repensar o feminismo negro como projeto de justiça social implica uma noção complexa de empoderamento. Mudar o foco da análise para investigar como a matriz de dominação se estrutura em torno de eixos específicos – raça, gênero, classe, sexualidade e nação- e como ela opera em domínios de poder interconectados- estrutural, interpessoal, disciplinar e hegemônico-revela que a relação dialética que conecta opressão e ativismo é muito mais complexa do que sugerem modelos simples de opressores e oprimidos”. (p. 454).

A autora ainda ressalta que, “quando se trata de conhecimento, o empoderamento das mulheres negras implica rejeitar as dimensões do conhecimento que perpetuam a objetifificação, a mercadorização e a exploração”. Ela continua por afirmar que as mulheres afro-americanas e outros grupos se empoderam quando entendem e usam essas dimensões dos modos de conhecimento individuais, grupais e proveniente de educação formal que promovem a humanidade. A pesquisadora ressalta também que, quando as mulheres negras nossas autodefinições, participamos das tradições ativistas domésticas e transnacionais de mulheres negras, vemos as habilidades adquiridas na escola como de uma educação voltada para o desenvolvimento da comunidade negra e colocamos as epistemologias feministas negras no centro de nossas visões de mundo, nós nos empoderamos”. (p. 455).

Portanto, empoderar as mulheres negras implica, segundo a autora, revitalizar o feminismo negro estadunidense como projeto de justiça social organizado e em um contexto transacional, haja vista que somente a ação coletiva pode produzir efetivamente as transformações institucionais duradoras que são necessárias para que se tenha justiça social.

*Andre Luiz de Souza é doutorando em Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Referência

Patricia Hill Collins. Pensamento feminista negro: conhecimento e a política do empoderamento. Tradução: Jamile Pinheiro Dias. São Paulo: Boitempo, 480 págs.

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