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Militância e projeto de vida

Do Brasil 247, 22 de maio de 2021
Por Valério Arcary


Valério Arcary é historiador e membro da Coordenação Nacional do Resistência/PSOL.


"A luta política séria na esquerda deve se sempre ancorada em um projeto coletivo", escreve Valério Arcary



Não indiques apenas o fim, mostra também o caminho. Porque o fim e o caminho tão unidos estão que um muda com o outro. E com ele se move, e cada novo caminho revela um novo fim. (Ferdinand Lassale)

Devemos refletir sobre a militância e projeto de vida. Encontrar um caminho, um plano, uma solução que associe, harmonize e articule a militância com um projeto de vida é um dos desafios mais complexos da vida adulta de alguém de esquerda, talvez, até uma arte. Militância deve ser autotransformação e desalienação. Se queremos um mundo melhor, precisamos acreditar que podemos ser melhores.

Desalienação é um processo permanente e conflituoso de conhecimento e luta. A dialética não se reduz ao entendimento da realidade que nos cerca. Somos contraditórios e guardamos dentro de nós a unidade de contrários, as transformações moleculares que potencializam saltos de qualidade, e processos de negação da negação, ou superação por conservação e destruição. Não há mudança sem crise, e não há crises indolores. Na hora das crises podemos avançar ou retroceder como militantes ou seres humanos. A vida é perigosa.

Não há, portanto, militância sem crise de militância. O tema é um pouquinho tabu. Ninguém escapa de crises. Crises são inevitáveis. Mas, o que é mais instigante, é que crises são necessárias. Ninguém consegue se transformar e, eventualmente, se superar sem crises. Somos imperfeitos e complicados.

Marx teve crises, Trotsky teve crises, Rosa Luxemburgo, também e, não se surpreendam, Lênin teve crises. Boas biografias são aquelas que nos apresentam esses momentos de conflito, encruzilhada, perplexidade e angústia, e os novos caminhos que eles abriram.

Todos nós, quando nos unimos à causa socialista, queremos fazer uma diferença na luta por um mundo melhor. A maioria descobriu a militância nos primeiros anos da juventude, e no calor de uma mobilização de massas que nos arrastava como uma onda do mar. Despertamos para o ativismo motivados pela necessidade de defender uma causa justa, inspirados por um exemplo, indignados com a injustiça ou enfurecidos contra uma tirania.

Mas é só uma questão de tempo para a primeira crise. O impacto de derrotas que deixam a vitória mais distante. A necessidade de aprovação ou reconhecimento que não vem. A dificuldade de convivência com diferenças de opinião, as pressões familiares e sociais, os desentendimentos pessoais, frustrações políticas, desencanto ideológico, imaturidade pessoal ou a combinação destes e outros fatores precipitam crises. O desenlace é quase sempre o mesmo: vale a pena?

Algum tempo depois, alguns anos na melhor das hipóteses, a maioria dos militantes, mesmo aqueles irredutíveis que estavam entre os mais engajados, se afastam. Foram consumidos pelas crises. Continuam tentando compreender a si mesmos, por algum tempo, ás vezes muito tempo, e buscando qual deve ser o seu lugar na sociedade.

Muitos cansam, se desiludem, aborrecem, chateiam, cansam. Militantes são pessoas que sofrem. É um padrão. Alguns não descansam, desistem. Só não desistem aqueles que conseguem acomodar, conciliar ou adaptar a militância e um projeto de vida.

Um projeto de vida é algo muito complexo. Não se trata somente de escolher o que queremos estudar, qual a ocupação que desejamos, o emprego que procuramos, a cidade para viver, aqueles que amamos, a família por construir, a hora dos filhos. Viagens, esportes, lazeres. É tudo isso e muito mais, mas, sobretudo, é o nosso lugar no mundo para tentar ser feliz com os outros.

Muitos projetos de vida podem ser combinados com a militância. Mas não todos. Há projetos de vida que são incompatíveis. Saber isso é essencial para quem decidiu que o engajamento no ativismo é uma parte importante daquilo que somos.

Vidas paralelas são inconsistentes, insustentáveis, artificiais. Não se pode manter uma militância socialista pela metade. Deve prevalecer uma coerência entre o que defendemos e nosso modo de vida. A militância é a escolha de um campo de classe. Lutar por uma vida digna, aspirar alguma felicidade é mais do que justo. Ser socialista não é nem um voto de pobreza, castidade ou obediência. Mas é um compromisso de classe. Um projeto de vida precisa ter coerência com este engajamento.

Acontece que o tempo conta muito. E um projeto de vida é um abraço do futuro. No início de uma experiência militante, quando estamos dominados pela euforia do entusiasmo, o mais importante é a política. A força da palavra de ordem que gritamos. A análise cerebral que procura explicar, racionalmente, as contradições da realidade, a natureza dos conflitos, a relação social e política de forças não é tão importante. Somos puro voluntarismo.

O quão facilmente ativistas sinceros e inteligentes, com intenso impulso revolucionário, acreditam com fervor somente no que querem acreditar é algo surpreendente. Mas a realidade que nos cerca é indiferente ao nosso desejo. Nós não escolhemos as condições nas quais a luta de classes se desenvolve. O governo não vai cair somente porque é monstruoso, e a maioria daqueles que estão ao nosso lado compartilham a mesma vontade que nós. A credulidade é a primeira das ilusões a ser superada. O facilismo não é bom conselheiro. Porque a ilusão de que vai ser fácil é a antessala de desilusões irreparáveis.

As grandes massas se unem á luta somente quando enxergam a iminência da vitória. Militantes instruídos sabem que o relógio da história pode ser muito lento. Não precisam de um entusiasmo imediatista para perseverar. Alguns encontraram na própria militância um sentido para a vida. Mas, mesmo quando a militância passa a ser o maior compromisso, ela não deve ser um ofício, menos ainda um cargo. Ser um revolucionário profissional não é o mesmo que ter um emprego.

Não há nada de errado em ter ambições políticas. As aspirações e anseios pessoais são, plenamente, legítimos. Mas assim como é uma deformação a diminuição de si mesmo, a autoanulação, é, também, errado e mais grave a autopromoção.

A luta política séria na esquerda deve se sempre ancorada em um projeto coletivo. Projetos coletivos só são viáveis se construímos organizações que os defendem. Mas nem sequer as ferramentas de luta, sejam associações ou movimentos, sindicatos ou partidos são um fim em si mesmos. São instrumentos para a transformação política.

Acontece que quando estamos em um coletivo é inescapável estar, em algum momento em posição minoritária, em dissidência. É muito difícil estar em condição de minoria. Quando as diferenças são táticas se trata de ter paciência. Mas quando as diferenças táticas são constantes, se trata de algo muito mais complicado. Essa é a hora de crises que podem ser irreversíveis.

Romper com uma organização não deve ser o abandono de uma luta que é muito maior do que qualquer coletivo, tendência ou movimento. É uma curva que se impõe em nossas vidas, não o final de uma caminhada. Se nosso projeto de vida for consistente com o compromisso de classe, a militância se preserva como aquilo que deve ser. Uma atitude que nos define diante do mundo. E que é muito maior que qualquer um de nós.

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