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Diversidade contra autoridade legal

Do A Terra È Redonda, 28 de Maio 2021
Por ARI MARCELO SOLON*


Hans Hofmann, Memoria in Aeternum, 1962

Comentário sobre o livro “Diversity and Rabbinization”.

“It is not to be expected that the German princes will simply surrender their peoples to the famous lawmaking of the representative jurists, or juristic Brahmins, who eternalize their Sanskrit, rule everywhere all silent and still, suck the people’s marrow dry, and would like to mark themselves out as the teachers of laws and morals, like the Rabbis of the Jews” (Von beruf Savigny)



O presente texto encontra seu contexto a partir da observação da própria capa da obra em comento. Por volta do século IV d. C., pairava um questionamento pertinente em relação ao que se entendia por Judaísmo antigo, porquanto se fazia presente o deus Hélios, nos mosaicos de uma sinagoga. A questão imediata que surge é: o que um deus da mitologia grega estaria fazendo em um templo localizado no mar da Galiléia, em Hammat Tiberias?

Não se trata simplesmente de uma imagem que se assemelha ao deus Hélios, mas realmente é uma representação da deidade no chão da sinagoga, às vezes personificado com uma auréola e com raios emanando de sua face, em outros momentos, sentado em sua carruagem, e, por fim, disposto de modo abstrato como o Sol.

Nessa perspectiva, então qual seria o sentido em se ter ídolos e deuses pagãos em uma sinagoga? A resposta é revelada imediatamente: diversidade.

Observa-se na seguinte passagem da obra Diversity and Rabbinization: Jewish Texts and Societies between 400 and 1000 CE: “the rabbis were a small, sheltered community and had little influence on the majority of Jews, who practiced a Hellenistic, ‘mystic’ form of Judaism”. Essa “forma mística de Judaísmo” era um fenômeno das massas, em contraste com os rabinos: “study of magical texts revealed the existence of a paganized Judaism that was in no way marginal”.

Então, como se deu o processo de rabinização? Ora, McDowell, Naiweld e Ben Ezra apontam o seguinte na introdução da obra: “in ‘The Rabbinization Tractates and the Propagation of Rabbinic Ideology in the Late Talmudic Period’. He identifies two interrelated aspects of rabbinization: first, the rabbinization of the past, including the biblical past, and, second, the acceptance of rabbinic institutions as normative. texts teach Jews how to think like rabbis. […] Naiweld begins with two examples, the extracanonical Talmudic tractate Kallah and the Sar ha-Torah section of Hekhalot Rabbati. Naiweld sees both texts as ideological tools intended to promote rabbinic thinking outside the academy”.

Se havia a referida experiência mística popular diferente da autoridade rabínica, por que tudo é visto como direito rabínico? No Irã, diante do auge do direito talmúdico, os próprios rabinos eram assimilados e agiam conforme suas próprias crenças, tal como se segue na evidência transposta da referida obra: “The quest for non-rabbinic Judaism has also been conducted from within the Babylonian Talmud, as scholars have explored inwardly focused polemic. This has been said to reflect rabbinic anxiety towards non-rabbinic elements of Babylonian Jewish society. Yaakov Elman, addressing “intellectual theological engagement,” isolated a number of sources that relate to opponents of Rava, who was based in Mehoza. Some are described as “the sharp-witted ones of Mehoza” (b. Ber. 59b). Rava challenges the foolish people (hanei enashei/sheʾar enashi) who rise before a Torah scroll, but not before rabbinic scholars (b. Mak. 22b). An example of those who have no place in the world to come includes the household of one Benjamin the Doctor who asks: “What use are the rabbis to us? They never permitted the raven…” (b. Sanh. 99b–100a).

Por fim, certamente há no caso em evidência uma metamorfose que seria perfeitamente apreciada pelos seguidores da Escola de Warburg, tal como Erwin Panofsky, em decorrência da sobrevivência e continuidade das formas, que não se esgotam em seu contexto.

*Ari Marcelo Solon é professor da Faculdade de Direito da USP. Autor, entre outros, livros, de Caminhos da filosofia e da ciência do direito: conexão alemã no devir da justiça (Prismas).

Referência

Gavin McDowell, Ron Naiweld e Daniel Stökl Ben Ezra. Diversity and Rabbinization: Jewish Texts and Societies between 400 and 1000 CE. London, Open Book Publishers, 2021. 448 págs.

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