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Colunista revela ao mundo, no NY Times, o “plano” de Bolsonaro na pandemia: 1,4 milhão de mortos

Do Viomundo, 28 de Maio 2021 /05/2021
Por Vanessa Barbara, no New York Times




Tabela de vacinas que o governo Bolsonaro deixou de comprar, organizada por Bruno Mioto e disseminada no twitter



A revelação da trama do supervilão Bolsonaro é estranhamente emocionante

SÃO PAULO, Brasil – Não é sempre que um inquérito parlamentar pode levantar seu ânimo. Mas a investigação do Senado brasileiro sobre a gestão do governo da pandemia, que começou em 27 de abril e chamou minha atenção por semanas, faz exatamente isso.

Enquanto a pandemia continua a assolar o país, ceifando cerca de 2.000 vidas por dia, o inquérito oferece a chance de responsabilizar o governo do presidente Jair Bolsonaro (mais ou menos).

Também é uma grande distração da realidade sombria. Transmitido online e pela TV Senado, o inquérito é uma exibição estranhamente fascinante de evasão, inépcia e mentiras descaradas.

Aqui está um exemplo do tipo de intriga em oferta. Em março do ano passado, enquanto a pandemia se desenrolava, uma campanha de mídia social chamada “O Brasil Não Pode Parar” foi lançada pela secretaria de comunicação do presidente.

Instando as pessoas a não mudarem suas rotinas, a campanha afirmou que “as mortes por coronavírus entre adultos e jovens são raras”.

A campanha, fortemente criticada, acabou sendo proibida por um juiz federal e em grande parte esquecida.

Então a trama se complicou. O ex-diretor de comunicação do governo, Fabio Wajngarten, disse à CPI que não sabia “com certeza” quem tinha sido o responsável pela campanha.

Mais tarde, tropeçando nas palavras, ele parecia lembrar que seu departamento havia desenvolvido a campanha — com espírito de experimentação, é claro — que foi então lançada sem autorização.

Um senador pediu a prisão do Sr. Wajngarten, que lançou um olhar contemplativo, quase poético ao horizonte. A câmera até tentou aumentar o zoom. Foi incrível.

Esse é apenas um episódio; não é à toa que o inquérito chama a atenção de muitos brasileiros. Até o momento, recebemos depoimentos de três ex-ministros da saúde — um deles teve grandes problemas com sua máscara, inspirando inúmeros memes — e também do chefe do regulador federal de saúde do Brasil, do ex-chanceler, do ex-chefe de comunicação do governo e do gerente regional da farmacêutica Pfizer.

O resultado de seus relatos é óbvio, mas ainda assim totalmente ultrajante: o presidente Jair Bolsonaro aparentemente pretendia levar o país à imunidade coletiva por infecção natural, quaisquer que fossem as consequências.

Isso significa — assumindo uma taxa de mortalidade de cerca de 1 por cento e considerando 70 por cento de infecção como um limite provisório para imunidade de rebanho — que Bolsonaro efetivamente planejou pelo menos 1,4 milhão de mortes no Brasil.

De sua perspectiva, os 450.000 brasileiros já mortos pela Covid-19 devem parecer um trabalho nem mesmo feito pela metade.

Explicado desta forma, o esforço parece chocante. Mas para os brasileiros que vivem sob o governo de Bolsonaro, isso dificilmente é surpreendente.

Afinal, o presidente parecia fazer de tudo para facilitar a disseminação do vírus. Ele passou o último ano falando e agindo contra todas as medidas cientificamente comprovadas para conter a propagação da doença.

O distanciamento social, disse ele, era para “idiotas”. As máscaras eram “ficção”. E as vacinas podem transformá-lo em um jacaré.

Depois, houve o medicamento antimalárico hidroxicloroquina, que Bolsonaro promoveu como um tratamento precoce e uma cura milagrosa para Covid-19 — apesar de todas as evidências científicas em contrário e do conselho expresso de dois ex-ministros da saúde.

Durante o inquérito, duas testemunhas diferentes confirmaram sombriamente que tinham visto o projeto de um decreto presidencial estipulando que a bula da droga deveria ser alterada para incluir seu uso contra a Covid-19.

Fica pior. De acordo com Wajngarten e Carlos Murillo, gerente regional da Pfizer, a empresa farmacêutica se ofereceu repetidamente para vender sua vacina Covid-19 ao governo brasileiro entre agosto e novembro do ano passado — mas não obteve resposta (talvez o ministério da saúde tivesse coisas mais importantes a fazer, como aprender a usar corretamente as máscaras).

Considerando que o Brasil foi um dos primeiros países a ser procurado pela empresa, uma resposta rápida teria garantido aos brasileiros até 1,5 milhão de doses no final de 2020, com mais 17 milhões no primeiro semestre de 2021.

Em vez disso, depois de recusar outras três ofertas, o governo acabou assinando um contrato em março, surpreendentes sete meses após a primeira oferta.

O primeiro milhão de doses chegou no final de abril.

A vacinação, como resultado da negligência do governo em garantir as doses, foi interrompida, com a escassez regular de imunizantes e a falta de suprimentos, levando a atrasos na produção.

Eu me pergunto se tudo isso fazia parte do plano. Quando o general Eduardo Pazuello, ministro da saúde do Brasil entre maio de 2020 e março de 2021, foi questionado por que o Ministério da Saúde solicitou a menor quantidade de doses de vacina da Covax, a iniciativa de compartilhamento de vacinas da Organização Mundial de Saúde — o Brasil poderia ter pedido doses suficientes para imunizar até 50% da população, mas preferiu 10% — ele nem piscou. O processo, ele explicou alegremente, era muito arriscado e as vacinas muito caras. Então é isso.

Parece cada vez mais claro que a imunidade de rebanho, por meio de obstrução, desinformação e negligência, sempre foi o objetivo. A amarga ironia é que isso pode ser impossível de alcançar. Em Manaus, onde 76% da população havia sido infectada até outubro, o resultado não foi imunidade de rebanho, mas uma nova variante.

A investigação, lenta e continuamente, está revelando uma trama supervilã clássica, ao mesmo tempo nefasta e absurda, mortal e apavorante. Se o vilão encontrará seu castigo, é outra história.

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