Pages

Um jantar à luz da autocracia burguesa

Da Carta Maior, 13 de Abril 2021
Por Roberto Leher



Créditos da foto: (Mathilde Missioneiro/Folhapress)

O jantar promovido na noite de 7/4/21[1] por Washington Cinel ao presidente Jair Bolsonaro, aos ministros, ao presidente do BACEN e aos empresários, é uma peça adicional para tentar compreender a difícil conjuntura brasileira.

À vista do descontrole da pandemia, da avassaladora crise econômica, do crescimento da fome e do permanente intento de ruptura democrática por parte do governo Bolsonaro, o andar de cima tem feito sinalizações relevantes. A Carta Aberta dos 500 economistas[2], reunindo banqueiros e intelectuais orgânicos do capital, como representantes da holding Itaú-Unibanco e do Credit Suisse, por exemplo, expressa preocupação do bloco no poder com o futuro dos negócios: diante da deterioração sistêmica é a própria governabilidade do capital que fica ameaçada. Na ótica da Carta, a crise não decorre do sistema de acumulação neoliberal e muito menos do próprio capitalismo atual, mas da administração da pandemia com base em preceitos negacionistas. O andar de cima atua de modo contraditório sinalizando apoio a medidas antagônicas, mas que, em última instância, denotam as contradições próprias do capital. O Estado Maior do Capital milita em prol da EC-95/2016, PEC 186/2019, PEC 188/2019 e PEC 32/2020 que objetivam extirpar da Constituição Federal toda a dimensão social da Carta, subordinando os direitos sociais fundamentais ao equilíbrio fiscal e atribuindo ao Estado um papel meramente subsidiário que atuaria apenas nas esferas que não são de interesse do setor privado. Ao mesmo tempo, reclama uma ação robusta, científica e eficaz do Estado no combate à pandemia e às suas consequências econômicas. Entretanto, mantém silêncio sobre a intencionalidade de Bolsonaro de preservar a pandemia descontrolada[3] para preparar o terreno para saídas autocráticas de cariz neofascista[4]. Nem o Estado, nem a democracia fazem parte das preocupações do andar de cima.

O presidente não pode deixar de ser responsabilizado pela situação atual. A CPI da pandemia no Senado pode ser uma via de acesso para o impeachment que, entretanto, somente ocorrerá com aberta mobilização social. Mirando a cena da crise da pandemia de modo mais abrangente, incorporando a destruição dos empregos, do SUS, de toda área de ciência e tecnologia, das universidades e do sistema educacional em geral[5] e, de modo dramático, dos fundamentos da seguridade social, é certo que a agenda econômica do andar de cima não permite enfrentamento da pandemia e da devastação econômica em curso. A Carta aborda temas pertinentes, como as medidas de curto prazo, a exemplo da vacinação massiva e de ações objetivas referenciadas na ciência (uso de máscaras adequadas, isolamento social, lockdown nacional) e, no plano econômico, de auxílio emergencial e apoio aos pequenos e médios negócios etc. Navegando nas contradições, a mensagem subjacente é que somente com medidas emergenciais baseadas em evidências científicas haverá retomada plena da economia e da governabilidade (“o que exige previsibilidade da situação de saúde no país”) (“e ações de responsabilidade social” empresarial, a exemplo das encaminhadas pelo Centro de Debate de Políticas Públicas, liderada por Ilan Goldjan, Celso Pastore, Alexandre Schwartzman, Armínio Fraga, Eduardo Gianetti, Naercio Aquino, Pedro Moreira Salles, Pedro Malan, Pérsio Arida, Samuel Pessoa, entre outros[6]) – todas de alívio à pobreza balizadas pelas políticas do Banco Mundial que não alteram o mundo do trabalho e permitem o dito equilíbrio fiscal, visto que distribuem por gotejamento as verbas sociais, ainda por cima com a intermediação de aparatos das empresas.

Por hora, a pandemia não obstaculizou a tendência de democratização do clube dos bilionários da Forbes: no último ano, o número de bilionários brasileiros chegou a 65, dez a mais do que em 2020 que, juntos, possuem uma fortuna de US$ 219,1 bilhões[7]. Mas os intelectuais orgânicos do capital sabem que o agravamento da crise anuncia riscos para os negócios. A preocupação com a erosão social provocada pela pandemia e pelo agravamento das crises econômica e social não expressa, necessariamente, recusa em relação à saída autocrática. Florestan Fernandes, em A revolução burguesa no Brasil, sustenta que a autocracia burguesa é “modernizante”, como o fascismo foi “modernizante”, inclusive no plano estético, com certas vertentes futuristas, mas também com entusiasmado determinismo tecnológico-militar. A Carta do andar de cima deixa muito claro isso. A ciência é necessária para enfrentar a pandemia. Mas e a democracia? Os intentos antidemocráticos de Jair Bolsonaro foram claramente colocados “no cabide”, como um tema separado da condução desastrosa da pandemia. Nesse ambiente contraditório é que devemos analisar o significado do polêmico jantar. É como se a Carta expressasse o CPF dos sujeitos do andar de cima, mas o Manifesto em prol das “reformas” neoliberais extremas e em defesa do governo, o CNPJ. O jantar está inserido nesse terreno.

O jantar

Como é característico do governo Bolsonaro o encontro contou apenas com homens brancos, reunindo o núcleo econômico do governo, expondo a farsa da autonomia do BACEN (não era para ser autônomo frente ao governo!!!???), o ministro da saúde, o presidente e um eclético conjunto de empresários, somando cerca de 40 pessoas. Embora sem elegância e sofisticação, há algo “lampedusiano” no encontro que, para manter tudo como está, externou a necessidade de mudanças na política de vacinação.

Preliminarmente, é relevante examinar o simbolismo do anfitrião. Não foi na residência de um “Faria Lima”. O território para o qual o presidente, seus ministros, o presidente do BACEN e alguns dos listados na Forbes se dirigiram foi a mansão do ex-PM Washington Cinel que pertenceu, anteriormente, a Ricardo Mansur (Mappin/ Mesbla) que, por sua vez, a comprara de José Ermínio de Moraes (Votorantin) – a sucessão dos proprietários não deixa de ser simbólica para pensar as temporalidades das burguesias! Mas outros aspectos sobressaem.

A escolha do local do jantar ocorre em um momento em que Bolsonaro atua ativamente para coesionar a Polícia Militar em torno de seu projeto autocrático. Conforme pesquisa do instituto Atlas[8], a pedido da revista Época, 71% do efetivo da PM votou em Bolsonaro em 2018 e 81% dos mesmos revelam estar satisfeitos com seu governo. O cortejamento é sistemático: em dois anos de mandato, Bolsonaro participou de 24 formaturas de militares e de policiais – 16 nas forças armadas e oito de polícias. O fato de que o jantar teve como anfitrião um operador do ramo da segurança privada e do agronegócio, com claras vinculações com o aparato da polícia, é indissociável do agravamento da autocracia em curso.

Cinel pode não ser um exemplo da alta burguesia, certamente não é; mas no governo Bolsonaro é este tipo de capitalista que recebe próceres da lista Forbes, inclusive da alta burguesia mundializada (por exemplo, do grupo Safra). É difícil não considerar a hipótese de que o lugar do encontro tenha sido uma variável importante para os intentos políticos autocráticos do mandatário.

Tais encontros são usuais em contextos de governos que vivem crises. Entretanto, neste caso, os representantes do capital receberam o líder que, por sua condução calculada[9] – darwinista social – vem provocando o maior genocídio da história brasileira. A Carta dos 500 economistas explicita isso de modo objetivo. Bolsonaro é reconhecido como o pior líder do mundo no manejo da pandemia. Mas não se trata apenas de um presidente que opera politicamente a pandemia. É um presidente abertamente laudatório da tortura, da violência política e da ruptura radical com o Estado de Direito Democrático. Não é possível esquecer que o encontro ocorreu em um contexto de renúncia dos ministros militares, de confronto aberto entre o Executivo e o STF e em que o ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva fez um pronunciamento relevante para a análise da conjuntura. A "missão cumprida" a que se refere no texto de demissão é: "preservei as Forças Armadas como instituição de Estado". Na semana em que ocorreu o encontro a imprensa brasileira e internacional discutia sem subterfúgios a possibilidade de golpe, motivando editoriais etc., abordando o papel das polícias militares na ruptura institucional. É preciso romper com muitas barreiras morais, éticas e políticas para ir a um encontro com Jair Bolsonaro no atual contexto e, mais ainda, para ovacioná-lo[10].

Notas sobre o anfitrião

Ao contrário de muitas análises que circularam em posts, pode ser um erro considerar o ‘empresário- anfitrião’ como um bagrinho no tanque de tubarões. De fato, sua fortuna, de apenas um dígito de bilhões, não o coloca na lista Forbes, mas outros aspectos devem ser considerados. A presente seção do texto tem como referência principal a excelente (e premonitória!) e muito bem documentada matéria de Alceu Luís Castilho[11] que permite acompanhar as conexões do anfitrião com as esferas política e econômica. Cinel foi policial-militar formado na Academia do Barro Branco durante a ditadura empresarial-militar, uma escola que se notabilizou por preparar ideologicamente os quadros da repressão[12]. Atualmente é dono da empresa de segurança Gocil[13], gestora internacional do Lide Segurança – cujos dirigentes têm vinculação histórica com o PSDB: Jõao Dória, Celso Lafer, Luiz Fernando Furlan, Roberto Klabin e, em seu braço do agronegócio, Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura no primeiro governo de Lula da Silva. A Gocil cresceu com os contratos com empresas como o Metro SP e a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU) e atualmente possui mais de um mil clientes. A capitalização da empresa se deu pari passu ao estreitamento da relação de Cinel com políticos, inicialmente com João Dória (Cinel operou na arrecadação de recursos de campanha para a prefeitura), depois Sérgio Moro (2015), Temer e, mais recentemente, de Bolsonaro.

Além da empresa de segurança é latifundiário: no Brasil, especialmente na produção de arroz[14], com faturamento previsto, até 2023, de R$ 2 bilhões. No Paraguai, possui entre 17 mil hectares a 20 mil hectares, 6 mil deles irrigados para arroz (Complexo industrial da Villa Oliva Rice). Sua entrada no Paraguai se deu em um contexto de atuação com João Dória, com o ex-presidente do Paraguai, Horácio Cartes, e o partido Colorado. É um organizador dos interesses burgueses no Paraguai, criou a Lide Paraguay como grupo de interesse dos 100 maiores empresários do país, especialmente do agronegócio e, no Brasil, foi um dos fundadores do canal Terra Viva, na TV Bandeirantes.

No Paraguai, conforme a matéria de Castilho, os moradores de Villa Oliva denunciaram o desvio do curso de rios, a apropriação privada de uma reserva aquífera até então de uso comum e o uso intensivo de glifosato nas plantações, levando a Senadora Esperanza Martínez (Frente Guazú) a pedir a não renovação da licença ambiental da empresa Villa Oliva Rice – considerada ‘empresa no grata’ pelos movimentos deste país.

Nos termos da referida reportagem, nos últimos anos, Cinel atuou em conjunto com empresários como Flávio Rocha (Riachuelo), André Esteves (BTG Pactual) e o próprio Doria (Lide). Após o rompimento de Bolsonaro com Moro, Cinel esteve em um jantar com o presidente ao lado de Luciano Hang (Havan), Meyer Nigri (Tecnisa), Flavio Rocha (Riachuelo) e Sebastião Bomfim (Centauro)[15]. Não resta dúvida de que o perfil do empresariado que forma o núcleo duro ideológico de apoio a Bolsonaro é muito distinto daqueles do PSDB – associado ao Estado Maior do Capital - e mesmo do PT – Febraban, agronegócio e empreiteiras, mas, a despeito da natureza da aderência ideológica, o que importa, afinal, é o posicionamento ‘classista’ de legitimá-lo em meio ao rastro de destruição por ele provocado.

Os comensais

Embora com poucos empresários-comensais é sumamente significativo que importantes banqueiros e burgueses tenham se dirigido a um jantar na residência de um empresário com o perfil de Cinel. Evidencia as interconexões entre o complexo de segurança privada (FS Security, Gocil) ideologicamente bolsonarista, o agronegócio (Cosan, Granja Faria), os operadores da saúde privada (EMS, Hapvida, Albert Einstein), os bancos (Safra, BTG, Bradesco, Banco Inter), os meios de comunicação (CNN, SBT, Jovem Pan, Grupo Alpha), os serviços em geral (Habib, Riachuelo, Multiplan) e as entidades como a FIESP. Conforme matéria de Guilherme Amado[16] pelo menos cinco empresas presentes no jantar são grandes devedoras da União: SBT (R$ 97,2 milhões), Cosan (R$ 46,3 milhões), Banco Inter (R$ 36,6 milhões), Habib (R$ 5,9 milhões) e Bradesco, que possui dívidas com o FGTS que, embora de pequeno montante, R$ 400mil, denotam o modo de interação com o público. Os empresários que compareceram atuaram politicamente, legitimando um governo que está sob forte questionamento internacional e, também, avalizaram as perigosas conexões entre o governo e os aparatos de segurança privados.

Carta dos Economistas, Manifesto pelas Reformas e Iniciativas das Organizações Empresariais

O apoio da autocracia não está restrito aos poucos comensais. Parte relevante do Estado Maior do Capital – por meio de suas entidades classistas – patrocinou o Manifesto “O Brasil precisa de mudanças. As mudanças precisam de reforma” [17] (25 de fevereiro de 2021). Diferente da Carta, o Manifesto é subscrito pelos aparelhos privados de hegemonia empresariais. Mostra de modo mais amplo a dimensão do apoio das frações burguesas à agenda Bolsonaro, como a FEBRABAN, ABIMAQ, ANUP, ABCIC, ABAV, ABEMI, AABIC, ABAD, ABIMAVI, entre outras, que representam 45% do PIB e somam 75 representações[18]. Muitos dirigentes destas organizações provavelmente não compareceram por alguma forma de “constrangimento”, em virtude de preocupação com a imagem da entidade ou do grupo econômico frente aos seus sócios maiores internacionais que poderiam ficar conspurcadas em decorrência da imagem negativa de Bolsonaro ou, mesmo, por temor de contrair Covid: Bolsonaro é, como se sabe, um propagador compulsivo. Não é possível aferir as motivações.

Entretanto, a nota foi suficientemente clara: apoiamos o governo desde que sejam encaminhadas e aprovadas as “reformas” para conter os gastos públicos (que extingam as cláusulas sociais da Constituição Federal), cortar impostos (das empresas), promover o equilíbrio fiscal (para favorecer o andar de cima) – na aparência, como assinalado, uma agenda que entra em confronto com o teor da Carta. A formulação é precisa: as entidades empresariais conclamam a união da sociedade civil com o governo para avançar nessas reformas. A Carta dos Economistas introduz ajustes. Além das ditas reformas, o andar de cima aponta que o governo tem que enfrentar a pandemia e suas consequências em nome da ordem social.

Do ponto de vista político não basta considerar o topo do bloco no poder, é preciso examinar, regionalmente, as entidades patronais e suas leituras do momento atual. Em estados “bolsonaristas”, como o Rio Grande do Sul, por exemplo, o agro tem forte adesão a Bolsonaro, o mesmo se passa na Serra Gaúcha com os industriais, assim como com estabelecimentos relacionados ao turismo. O movimento em prol do governo se traduziu até em um pedido de impeachment do governador do PSDB, Eduardo Leite (que apoiou Bolsonaro no segundo turno[19]), que conta com mais de 1.100 apoios de industriais da Serra Gaúcha[20]. As manifestações contra qualquer forma de lockdown, embora difusas, acabam reforçando o apoio a Bolsonaro entre os setores econômicos mais prejudicados pelo desastre da condução governamental da pandemia e, possivelmente, de trabalhadores atingidos pelo fechamento de empreendimentos, tema que precisa ser urgentemente conhecido e mapeado, pois de crucial relevância para a análise da conjuntura do país.

Dissidências burguesas ou jogo em prol de concessões?

O andar de cima possui divisões e tensões internas, mas não antagonismos irreconciliáveis. De algum modo, a Carta dos 500, o Manifesto em prol das reformas e o jantar do Cinel expressam essas tensões. As presenças e as ausências mais expressivas denotam sinalizações que devem ser consideradas. Grandes meios de comunicação, como as Organizações Globo, grupo Folha e Estadão, parecem estar afastadas dos acenos do bloco ao governo. Mas as críticas neles veiculados são convergentes com o teor da Carta (pandemia) e do Manifesto (em virtude do pouco empenho do governo na continuidade das “reformas”).

O núcleo duro do Estado Maior do Capital segue sinalizando disposição de seguir junto com o governo, caso ele leve adiante com alguma efetividade: a agenda econômica neoliberal extrema (a indicação de privatização dos correios, da Eletrobrás e a realização dos leilões dos aeroportos foram efusivamente festejadas); ações para atenuar a pandemia (a mudanças dos ministros da saúde e das relações exteriores sugerem que o governo irá acelerar a vacinação por pressão do andar de cima) e mantenha a governabilidade em patamar seguro. Certamente, muitos representantes duvidam que Bolsonaro logrará êxito nestes objetivos e estão construindo as bases para um plano b. A lealdade não é com o governante, mas com a agenda do capital. Conhecer mais profundamente essas cisões (inclusive, considerando as relações interimperialistas), nesse prisma, é imperioso para avançar na análise da correlação de forças na sociedade brasileira.

Imagens da Crise

A despeito de medidas de médio prazo o curso da crise seguirá se agravando a curto prazo. Sem grande escala de vacinação nos meses de abril, maio e junho, o que requer ajuda humanitária e de segurança sanitária mundial, o número de mortes por dia irá ultrapassar o dantesco número de 4 mil mortos dia e logo o país romperá a barreira de 500 mil mortos. Sem um rigoroso lockdown nacional e vacinação massiva, as variantes do vírus proliferarão e alcançarão novos segmentos populacionais, como já ocorre com os jovens e os mais de 20 milhões de pessoas com fome e os milhões de desempregados, as falências e a ausência de medidas efetivas, tudo isso catalisará a deflagração de um novo patamar da crise. A probabilidade de Bolsonaro lograr êxito na reversão destes acontecimentos, a curtíssimo prazo, é muito pequena. Falsas saídas, como a compra de vacinas pelo setor privado, somente agravarão os problemas, pois isso poderá desorganizar um conhecimento que o SUS possui: como realizar com sucesso campanhas massivas de vacinação. O auxílio econômico, na forma atual, não irá estancar a fome que se espalha por todo território nacional: pelo menos 50% da população está em situação vulnerável e mais de 20 milhões passam fome. O desemprego seguirá em crescimento, assim como a brutal precarização do trabalho. Essas variáveis, em conjunto, conformam uma crise de imensa envergadura, tectônica.

Qual será a imagem da crise? Para os bolsonaristas, a crise decorre do lockdown (a rigor nunca realizado) e que, em virtude de fechamentos de atividades, teria produzido o caos. Distintamente, será possível firmar a imagem de que a crise decorre do projeto de prolongamento proposital da pandemia para gerar uma crise que pudesse abrir as vias de um novo momento autocrático?

É preciso lembrar que Bolsonaro não é um governo classicamente de direita. Apresenta fortes convergências com o ideário e as práticas neofascistas e, por isso, está construindo vias próprias para a sua permanência no poder que podem ter autonomia relativa frente ao bloco no poder. Existem elementos que corroboram que está em curso movimentos para avançar no endurecimento autocrático, operando força policial, militar, seguranças privados para romper com as barreiras impostas pelo STF e pelo Congresso. O jantar do Cinel pode ter sido um aperitivo desse movimento.

Em caso de agravamento do quadro social e político, inclusive com explosões sociais, como o bloco no poder irá agir? A partir da CPI da pandemia pode ser aberta a via do impeachment? Ou a governabilidade será buscada por meio da ordem e da ideologia da segurança?

As breves notas indicam que a prevalência da via democrática, em prol da vida, da igualdade e da dignidade humana, capaz de assegurar o bem-viver e uma vida plena de sentido criador no mundo do trabalho somente será possível com a corajosa (e organizada) irrupção na cena histórica dos que vivem do próprio trabalho e são explorados, das/os trabalhadoras/es precarizados que atuam nas cidades e no campo, dos sindicatos classistas e dos movimentos antissistêmicos.

O andar de cima, ao que parece, ainda não consolidou sua posição de classe para si em relação ao futuro do governo Bolsonaro e à democracia. A frente de esquerda, nesse prisma, é a grande prioridade da conjuntura brasileira, pois somente assim será possível inserir na projeção dos cenários, os de baixo. O impasse histórico do Brasil não é um assunto do andar de cima; ao contrário, é um desafio da classe trabalhadora que precisa ser interpelada para criar um núcleo de bom senso antifascista.

Manter a luta dos trabalhadores diluída na agenda do bloco no poder acobertará as contradições dilacerantes, em nome do pragmatismo eleitoral. É certo que um movimento nessa linha contribuirá para coesionar o andar de cima naquilo que afinal é o busílis da questão: a agenda econômica neoliberal extrema que estabelece que serão as/os trabalhadoras/es que devem pagar a conta da gestão neoliberal da crise. Neste caso, as possíveis candidaturas progressistas podem estar restritas a serem veículos para tal fim. Essa maldição pode ser revertida desde que a frente se estruture de modo urgente com ousadia de agenda e imensa capacidade de alteridade para incluir o conjunto das forças que se colocam ao lado do trabalho nas lutas de classes contemporâneas.

Rio de Janeiro, 12 de abril de 21

Roberto Leher é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro


[1] https://valor.globo.com/politica/noticia/2021/04/08/grande-empresariado-rejeita-percepcao-de-que-bolsonaro-tem-seu-apoio.ghtml
[2]. O País Exige Respeito; a Vida Necessita da Ciência e do Bom Governo - Carta Aberta à Sociedade Referente a Medidas de Combate à Pandemia. https://g1.globo.com/economia/noticia/2021/03/21/em-carta-centenas-de-economistas-pedem-vacinacao-e-medidas-de-distanciamento-social-para-combater-a-pandemia.ghtml
[3] Eliane Brum. Pesquisa revela que Bolsonaro executou uma “estratégia institucional de propagação do coronavírus”. “Os resultados afastam a persistente interpretação de que haveria incompetência e negligência de parte do governo federal na gestão da pandemia. Bem ao contrário, a sistematização de dados, ainda que incompletos em razão da falta de espaço na publicação para tantos eventos, revela o empenho e a eficiência da atuação da União em prol da ampla disseminação do vírus no território nacional, declaradamente com o objetivo de retomar a atividade econômica o mais rápido possível e a qualquer custo”, afirma o editorial da publicação. El País, 21 de janeiro de 2021, https://brasil.elpais.com/brasil/2021-01-21/pesquisa-revela-que-bolsonaro-executou-uma-estrategia-institucional-de-propagacao-do-virus.html
[4] Gilberto Calil. Brasil: o negacionismo da pandemia como estratégia de fascistização Materialismo Storico, n° 2/2020 (vol. IX) 70, http://ojs.uniurb.it/index.php/materialismostorico/article/view/2470/2233
[5] Nelson Cardoso do Amaral. Dois anos de desgoverno – os números da desconstrução. A terra é redonda, 8/4/21. https://aterraeredonda.com.br/dois-anos-de-desgoverno-os-numeros-da-desconstrucao/
[6] https://cdpp.org.br/pt/2020/09/13/redesenho-de-programas-reduziria-pobreza-em-ate-24-sem-gasto-novo-estimam-pesquisadores/. O benefício de renda mínima (BRM) seria de R$ 230,00, mantendo a lógica de que cabe ao Estado prover a sobrevivência vegetativa dos que vivem na “pobreza”. Para estimular a escolarização seria criada uma poupança no valor de R$ 20,00 (isso mesmo!) mensais para as crianças do ensino fundamental e os jovens do ensino médio. O montante de até R$ 3 mil seria sacado apenas pelos concluintes do Ensino Médio, atendendo a um universo de 6,7 milhões de famílias.
[7] https://forbes.com.br/forbes-money/2021/04/brasil-tem-10-novos-bilionarios-no-ranking-de-2021/
[8] Guilherme Caetano. Um caso de polícia. Época, 12.04.21, p.14-21.
[9] Ver texto de Brum, citado na nota 3.
[10] Folhapress. Bolsonaro é ovacionado em jantar com empresários, 8/4/21, https://www.folhape.com.br/politica/bolsonaro-e-ovacionado-em-jantar-com-empresarios/179291/
[11] Alceu Luís Castilho, De Olho no Paraguai, 25 de agosto de 2018. https://deolhonosruralistas.com.br/deolhonoparaguai/2018/08/25/parceiro-de-doria-rei-da-seguranca-em-sp-avanca-com-arroz-e-agrotoxicos-no-paraguai/
[12] Enio Antonio De Almeida. Uma História Da Formação Dos Oficiais Da Força Pública Paulista: Academia Do Barro Branco (1953-2008), Tese de Doutorado, Faculdade de Educação, UNICAMP, 2015, http://repositorio.unicamp.br/jspui/bitstream/REPOSIP/321756/1/Almeida_EnioAntoniode_D.pdf
[13] GOCIL, é uma das maiores empresas de segurança privada do Brasil, faturamento esperado de R$ 1,5 bilhão em 2021. https://www.istoedinheiro.com.br/gocil-cara-a-cara-coma-crise/
[14] Broto Legal, de Campinas (SP), detentora das marcas Báltico, Broto Legal, Grão de Campo e Serra Azul. Uruguaiana (RS) é mais antiga, com a Cinel Alimentos, Comércio, Importação e Exportação S.A, a Itaobi Importação e Exportação de Cereais Ltda e a Elah Agrobusiness Agropecuária Ltda.
[15] Renata Agostini, CNN, Após saída de Moro, Bolsonaro chama empresários que o apoiaram para conversa. 28/04/20 https://www.cnnbrasil.com.br/politica/2020/04/29/apos-saida-de-moro-bolsonaro-chama-empresarios-que-o-apoiaram-para-conversa
[16] Guilherme Amado. Empresas de jantar com Bolsonaro devem r$ 186 milhões à União: SBT tem dívida de R$ 97,2 milhões.
[17] Entidades empresariais lançam manifesto favorável à PEC Emergencial. Redação DC, 25 de fevereiro de 2021, https://dcomercio.com.br/categoria/brasil/entidades-empresariais-lancam-manifesto-favoravel-a-pec-emergencial
[18] https://dcomercio.com.br/public/upload/gallery/2020/MANIFESTO.pdf
[19] https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/pol%C3%ADtica/eduardo-leite-decide-apoiar-jair-bolsonaro-no-2%C2%BA-turno-1.278904
[20] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/04/bolsonaro-mantem-prestigio-entre-empresarios-gauchos.shtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwa

Nenhum comentário:

Postar um comentário