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Sobre as escolhas que fizemos

Da Revista Espaço Acadêmico,07 de Abril 2021 
Por ELISA ZWICK*


A realidade que experienciamos hoje nos leva a concordar com a tese de que, individual ou coletivamente, escolhemos voluntariamente pelo sofrimento. Apresento meus argumentos no que segue, embasada em duas fontes centrais: Freud ([1929] 2010) e La Boétie ([1530] 2017). Embora tão distintos e anacrônicos, são autores que apresentam pensamentos convergentes, provando uma certa imutabilidade na constituição do caráter humano na lida para com a vida ao longo da história.

É claro que para aderir à decisão pelo sofrimento, nem sempre tão elaborada ou exatamente consciente, adotamos e reproduzimos determinadas referências. Como afirma o filósofo alemão Christoph Türcke (2012, p. 16) “Menschen sind Wiederholungstätern” (“humanos são reincidentes”) e, portanto, são seres sociais que galgaram os degraus da evolução pela repetição. Foi assim que encontraram formas de sobreviver desde a mais tenra fase da civilização. Em seu convívio, precisaram fixar padrões com base naquilo que perceberam o mais adequado e funcional em cada momento histórico, levando adiante o projeto da humanidade. Em meio a isso, foram surgindo e solidificando-se costumes e hábitos, não exatamente os mais saudáveis ou prósperos, mas aqueles possíveis de se construir a partir da visão de mundo aceita pela maioria, ou imposta pela minoria dominante.

Ao grau de complexidade que se desenvolveu com relação a esses costumes e hábitos nos mais diferentes cantos do planeta os estudiosos qualificaram como cultura. Esta, a olho nu, nos parece uma atribuição positiva, sinal da evolução humana na caminhada pela história. Talvez assim permanecesse não fossem diagnósticos críticos, como o freudiano, que passeia no vasto emaranhado de seu mal-estar. Ligado à falta de realização na vida, este mal-estar procura ser suportado através de distrações poderosas, como a ciência, de satisfações substitutivas, tal qual a arte e, por fim, através dos entorpecentes. Além de outras drogas, a religião toma lugar privilegiado nessa última categoria, já em Marx definida como o ópio do povo. Freud (2010, p. 62) prova que alcançar na vida o que mais se deseja, a felicidade, instituindo “o programa do princípio do prazer” como seu objetivo constante é algo totalmente irrealizável, pois a própria constituição humana, em seu conjunto social e biológico, alça tal princípio ao caráter de exceção.

Vejamos como esta, que deveria ser a meta da cultura, tornou-se uma agenda enebriada pelo princípio da realidade despertando inúmeras questões sobre a realização humana. Não é justo aquilo que se mostra irrealizável o objeto de nossa obsessão? Por acaso temos prazer diante daquilo cuja conquista é fácil e está sempre disponível? O fundador da psicanálise coloca semelhantes inquietações como um problema particular de economia libidinal, mas que facilmente foi canalizado ao âmbito do genérico quando a religião se torna a tábua de salvação, que promete extirpar os sofrimentos. Ignora que o que a um faz sofrer e o leva ao suicídio pode na vida de outro ser humano não ter a mínima diferença. Mas essa síndrome do pensamento único, da qual não apenas a religião é sintoma, embora continue hoje sendo o principal, invadiu nossos caminhos rumo à felicidade, reduziu nosso pensamento à regressão psíquica, facilitando a exacerbação de neuroses sociais e delírios coletivos. Na esfera dos sentimentos, padrões reducionistas de interpretação não poderiam ser aceitos.



Longe da solução pelas vias adotadas, tornou-se uma constante a repetição dos dilemas não resolvidos na infância. Os modos de vida procuram respondê-lo das mais diferentes formas e, atualmente, limítrofe às já diagnosticadas relações humano-sociais, mapeamos o que se convencionou chamar “culturas”. Elas estão variadamente adjetivadas, como a cultura do respeito, a cultura da responsabilidade e, no espectro negativo, a cultura do assédio, a cultura do estupro, entre outras. E, neste momento, nas terras tupiniquins, a “bola da vez” concentra-se no desenvolvimento do que se convencionou chamar cultura genocida. Impressiona é que são mais de quinhentos anos e a saída da infância permanece obnubilada, centrada no desenvolvimento dos impulsos de inclinação agressiva. Estes, conforme aponta o fundador da psicanálise, pertencem ao degrau zero do trajeto civilizatório, caminham na contramão do programa da cultura como ideia de elevação do projeto da humanidade.

No núcleo das diferentes problemáticas culturais, podemos perceber um conjunto maior de premissas que engrossam o imaginário social, o tornam mais palatável ou perverso, a depender dos sabores – leia-se interesses – que se queira alimentar. Portanto, contrapondo as culturas de caráter saudável, que são as que anseiam pelo princípio do prazer, tornaram-se predominantes aquelas que desenvolvem o mais perverso imaginário da infelicidade. Elas minam os mais sofisticados dispositivos de proteção da psique humana com um bombardeio de emoções exacerbado pelo emprego das técnicas do mais tacanho marketing. O sintoma neurótico permanece articulado com o trauma, sendo repetido em intensa frequência, clamando a morte da psique. Esse perverso levado ao extremo, sem dosagem alguma das consequências, nada mais é que o retrato da frustração dos ideais culturais mais supremos da humanidade que, aliás, custam serem devidamente reconhecidos em terras griladas.

Vale lembrar que as redes sociais se consolidaram como centro importante de criação e difusão desses sabores nefastos que adquiriu a cultura. Tudo o que é trágico atrai mais aos olhos. E, não sem dono, esse governo do algoritmo não pode ser subvalorizado, tampouco desconsiderado desde que o livro das faces se tornou uma das fontes primárias de informação cotidiana para uma parte significativa dos indivíduos. Isso requer verificar que, coletivamente, vivemos na era da servidão voluntária às redes, expondo a elas, sem custo algum e com enorme (mas despercebido) sacrifício – de tempo e trabalho – a vida pessoal, profissional, até mesmo sentimental. Acabamos entregando desmedidamente a um ser desconhecido e onipresente a capacidade de dominar e manipular as nossas paixões e, no limite, de conduzir o nosso próprio destino. Trata-se de que fizemos uma escolha a não ter mais escolha.

A dificuldade em exercer uma vida real em meio a pandemia agora nos embriaga cada vez mais nesse circuito. Destarte, no continente Brasil, sob o manto de nação que se intitula como a da ordem e do progresso, a contradição está demarcada pela enorme confusão cultural, social e informacional que, juntas, galgaram às piores escolhas. Os resultados estão sendo extremamente desastrosos. Nem mesmo o mais crítico dos intelectuais pôde prever a que ponto de gravidade levaria a conjunção da tomada arbitrária de decisões, rescaldo de uma esfera pública danificada, e a condição sanitária em agravo dessa infeliz pandemia.



Pensando bem, muitos nos alertaram sobre o epicentro do vulcão, mas será que foi nossa faceirice de “homem cordial” que nos traiu? Talvez se nos salvaguardássemos de tais detratores assemelhados, ou melhor, tivéssemos o senso crítico digno de bons leitores, nem seria preciso ser um cientista social para perceber que, já desde o início “disso daí”, não teríamos a menor chance no enfretamento do inimigo invisível e, outrora, inimaginável. Bastaria um mínimo de memória sobre os últimos dez anos que fosse, para detectarmos a política visível de extermínio que nos levou ao fundo do poço e insiste hoje em cavar mais abaixo ainda. Agora, depois de cada família que perde um dos seus, só um enfermeiro, um médico, uma faxineira de hospital para sentir e retratar a face mais perversa da escuridão cotidiana que sufoca o país. Muitos dos demais, desimplicados, continuam a frequentar todos os lugares, até que a morte os separe da sua insanidade particular, transformada em caos social e saturação das UTIs hospitalares.

E assim, diante da arbitrariedade em inúmeras decisões tomadas pelos ocupantes do poder, apoiados pelo senso comum, nos tornamos o país de um sofrimento voluntariamente auto infringido. E não podemos dizer que tudo se resumiu em teclar o 17 no dia 07 e/ou no dia 28 de outubro de 2018. Como disse, existe muita história pregressa que explique esse ato, no que havemos de considerar que, sobretudo, a grande maioria vive na esfera da natureza pela simples definição de poucos. A marcante condição da pobreza, propositalmente provocada pelos donos do poder, faz do povo não instruído um povo servil, que segue ao matadouro feito gado. Pois sem condições sócio materiais que o definam criticamente, cada povo se redefine conforme o pouco que conquistou. E o espetáculo da incoerência não cansa de ser divulgado como mais um dos atrativos a pontuar na mídia sensacionalista.

Freud (2010) defende a importância da regulamentação das relações sociais, apontando que talvez esta seja a primeira tentativa de estabelecer o elemento cultural. O que opera historicamente no Brasil é a mais pura inversão dessa constatação, num movimento de apego ao poder do arbítrio, que elevou o narciso individual ao caráter de mandante por sobre a coletividade. E as aberrações típicas desse modo de vida se manifestam imperceptíveis às lentes do senso comum. Quem nunca ouviu falar da história de algum coronel, famoso pelo ímpeto assassino, cujo nome batiza uma rua do bairro ou a sua cidade? O que seria o auge da perversão social, senão a ideia de elevar à nomenclatura de heróis os indivíduos mais tiranos? É a evidência de que vivemos em um anacronismo, pois esta realidade encontra fundamento em La Boétie (2017), que afirma que “o povo tolo inventa as próprias mentiras – para depois nelas acreditar.” Daquele batismo para a cloroquina damos apenas um “inocente” passo que, agora, faz toda a diferença para alçar o abismo.

A toada dual extremista impressa a essa marcha facilita o desdobramento da crueldade que opera a falta de sublimação coletiva dos impulsos. Há uma fábrica de certezas alavancada pelo caráter binário intrínseco em voga, cujas operações simplórias, extirpadoras do raciocínio crítico, são fortemente estimuladas já desde o berço, quando as redes sociais são apresentadas à criança quase ao mesmo tempo que o alimento. Assim, as convicções sobre o certo e o errado fixam-se a partir do menor átomo social, o indivíduo, retroalimentadas pelas estruturas que o envolvem, como a família, o círculo de amigos, e assim sucessivamente. Tudo é facilitado pela violência inerente à estrutura patriarcal, que solidifica relações sociais danosas. Resulta agora que, para afastar a necessária reivindicação de lockdown, não falta pressão de escolas, de igrejas ou de empresários. Até mesmo nas práticas internas dos próprios condomínios, retratos do grau maior a que alcançou a excentricidade humana, normaliza-se o pouco caso para com o caos sanitário.



Como nação e sociedade que outrora aspirou positivamente a evolução, escolhemos pela subserviência a ideias tolas e em reproduzirmos o capital entregando nossa vida, em benefício especial de poderes estrangeiros. Uma escolha que parece irrevogável, mesmo sob mais de trezentos e trinta mil túmulos. O capital que reproduzimos não é aquele que nos assegura uma vida saudável e modesta, que oferece as realizações de uma vida plena e desapegada de futilidades, nos garante o prazer do ócio e uma visita cotidiana ao sol, privilégio dos trópicos e tão raro em outros cantos do mundo.

As profissões do cotidiano, muitas delas resultado de nosso aprimoramento sensível em garantir uma melhor vida, não deveriam ser exercício atrelado à obtenção de lucro, à concentração de renda, à criação e ao acentuamento de desigualdades. Aos saberes, especialmente os voltados à manutenção da vida, desde a pesquisa científica de novos medicamentos, tão importante agora, até os responsáveis pelo melhor cuidado físico e mental do outro, está anteposta uma necessidade frenética de cálculo utilitário. Associa-se a isto o drama de profissionais liberais, cuja sobrevivência depende diretamente da produção do dia. Ecoa a afirmativa de que não se pode esperar passar uma pandemia para abrir as portas. Apenas essa ideia, que nos força à concordância diante das estruturas de vida que aceitamos coletivamente viver, é o sintoma mais evidente no diagnóstico do quão adoecida tornamos nossa convivência social.

Em se tratando desse retorno a elementos do século XVI, cabe invocar mais detidamente o Discurso sobre a servidão voluntária, para auxiliar na atualização das singularidades dessa inclinação servil ao sacrifício. Isso pois, o espírito anacrônico de La Boétie (2017) traz bons ganhos quando o leitor não apenas se sente como o sujeito de ação, mas também percebe sobre o tempo perdido na construção de uma história humana mais próspera. Para quem não passou da altura dos 32 anos deveria ser doloroso assistir esse brasileiro de raciocínio dual, que se mantém não raras vezes adolescente a vida toda, sendo capaz de reivindicar ditaduras e desdenhar despudoradamente da vida.

Parece que há um esforço para que o comandante tirano deseje possuir a liberdade. Desdenhando-a a todo momento, através do jogo da sedução perversa, que é artifício dos espertos para capturar à armadilha da destruição, ele conseguiu aprisionar a grande massa. Nesse contexto, a servidão pode sim ser vista como escolha voluntária. Senão individual, resulta do clamor de uma massa que imitou a horda primitiva. Assim, é um voluntariado artificialmente produzido diante da falta de consciência crítica, da falência do Estado e das políticas públicas, todos devorados pelas mãos das práticas econômicas neoliberais, aqui propulsionada pela mão visível do latifúndio improdutivo.

Historicamente, a ignorância sempre facilitou métodos de coerção e submissão. Independente se sob a forma física ou econômica, a coerção é artifício empregado pelos opressores para constranger a luta pela sobrevivência. Decorre que juntar recursos para a sobrevivência objetiva, em suas necessidades mais básicas, relega o indivíduo à esfera da natureza, retirando-o da complexidade subjetiva que a vida poderia assumir. Lá no nível da subjetividade, o ser humano teria condições de estabelecer as conexões sociais mais elevadas de pertencimento, de acolhimento e de reconhecimento pleno, contribuindo verdadeiramente para o desenvolvimento da humanidade em todo o seu potencial. Mas, como lembrou La Boétie (2017), o campo da servidão voluntária é vasto e complexo. Cultivar a liberdade em todo o seu valor é premissa que encontra entraves em qualquer empreendimento conjunto, no que Freud também concordou.



O que é preciso fazer para extirpar o câncer instaurado no comando das políticas públicas no país que lidera o ranking da pandemia? Talvez conhecer e controlar os poderes que nos consomem internamente e convergem a esta cega submissão a um outro que nada nos dá, apenas nos retira o que é mais valioso, inclusive a tão cara vida dos nossos entes. O exercício do autoconhecimento é muito válido, para compreender as razões dessa servidão. É algo que precisa ser feito no silêncio de nosso retiro individual, para o qual o tempo de agora é muito propício para que cada qual reflita sobre seu papel como cidadão. Condições materiais não deveriam ser empecilho, mas pré-requisito inerente ao mundo civilizado. Para prosperarmos a um quadro favorável, uma política de governo e de Estado que assegure condições tranquilas é o mínimo adequado.

Mas o espírito do tempo atual tem negado a possibilidade de que possamos parar de cavar mais abaixo nesse poço e realizar o movimento inverso. O dilema da autoconservação e sacrifício, apontado pelos frankfurtianos (Adorno e Horkheimer, 1997), bem retrata essa motivação intrínseca do ser humano em, por um lado, esquivar-se das obrigações e, do outro, ser vítima dessa postura. Espelhando o comportamento de Ulisses, é uma dialética que tem morada hoje nas reações do sem-máscara negacionista. Ele pensa não ser ninguém para esse vírus o pegar; disfarçado em meio à multidão, é convicto de sua insuscetibilidade e, portanto, da certeza da imunidade prévia a qualquer vacina. Caso o vírus o considere alguém mortal, adotar o “kit preventivo”, já cientificamente comprovado ineficiente, é suficiente para reestabelecer a normalidade. E assim segue com sucesso a atualização do dilema de Ulisses em tempos pandêmicos.

Sobretudo escolhemos com base nessa consciência degenerada, genericamente atrelada aos mais perturbados padrões da evolução social a que atingimos na humanidade. Somos cúmplices do assassino que nos mata e traidores de nós mesmos, como diz La Boétie (2017). Freud, que nos esclareceu sobre a escravidão em nossa própria casa, pode elucidar esse impulso de morte que aceita a liderança de quem nada comanda, cujo status resulta de arranjos possíveis apenas diante de uma massa desinformada das feridas da sua própria história, como indivíduo e como nação. O colapso eminente se dá, primordialmente, por falta de autoconhecimento e, depois, de resolução. E, assim, da mesma forma que na construção do processo de produção vigente, em que renunciamos ao direito à liberdade, também o fizemos com relação ao direito à vida, submetendo-nos por uma decisão movida pelo medo de lutar, nos constrangendo conscientemente.

Carece compreender que os apelos de autocuidado, que agora ecoam partindo dos mais inúmeros profissionais da saúde são, sobretudo, apelos culturais. O momento para que provemos alguma inserção nas qualidades mais nobres da humanidade pode ser agora apresentado. É claro que o bárbaro continuará depositando indiferença à vida, pois ter a própria sobrevivência ameaçada não parece ser o suficiente para humanizá-lo. O desafio maior a ficar em casa continuará carecendo de habilidades espirituais e materiais para ser cumprido. Trata-se de uma luta cujo pano de fundo é o da própria existência calcada em inúmeras dicotomias: ser ou ter, servidão ou liberdade, democracia ou ditadura, passividade ou agressividade, enfim, entre Eros e Thanatos. Longe de qualquer dogmatismo, são dualidades que nos afligem e apontam “o conteúdo essencial da vida, e por isso o desenvolvimento cultural pode ser caracterizado sucintamente como a luta da espécie humana pela vida” (Freud, 2010, p. 142). Uma luta que nunca se travou em termos tão concretos como agora.



Referências

ADORNO, Theodor Wiesengrund.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. 6. reimp. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na cultura. Porto Alegre: LP&M, 2010.

LA BOÉTIE, Étienne. Discurso sobre a servidão voluntária. São Paulo: Edipro, 2017.

TÜRCKE, Christoph. Hyperaktiv! Kritik der Aufmerksamkeitsdefizitkultur. München: C.H. Beck, 2012.

* ELISA ZWICK é professora na Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG), doutoranda no programa de Pós-Graduação em Sociologia na Universidade Estadual de Campinas (IFCH/Unicamp), Doutora e Mestre em Administração pela Universidade Federal de Lavras (UFLA).

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