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Quando a Geografia importa ao Jornalismo

Como certos fatos locais, como o encalhe de um meganavio em Suez, transformam-se em “acontecimento global”. Por que materializam a assimetria noticiosa entre Sul e Norte global. Quais as limitações do conceito de “glocal”



De OUTRASPALAVRAS, 31 de Março 2021
por Antônio Heleno Caldas Laranjeira



O navio Ever Given foi destaque na imprensa de diversos países na semana passada. O porta-contêineres encalhou no Canal de Suez, no Egito, na última terça-feira (23). As autoridades egípcias informaram à imprensa internacional que o acidente de manobra ocorreu devido a soma de uma tempestade de areia e ventos fortes.

O navio, de 400 metros de comprimento e 60 de largura, pesa 200 mil toneladas (sem carga) e encalhou diagonalmente no canal como imagens de VANTS (drones) e SARs (satélites) concebem, permitindo memes dos mais diversos ângulos do fato.
O acontecimento jornalístico afeta a realidade

Na última quinta (25) o caso do navio de Suez mobilizou também uma “onda virtual” de memes na esfera pública digital no Brasil. Tudo começou com manipulações digitais a partir de fotografias do fato que afeta o comércio de países da Europa e da Ásia, em primeira escala (regional), sobretudo durante a pandemia, um momento histórico marcado pela altíssima especulação financeira em segunda escala (global) em torno de recursos materiais (das vacinas às seringas).

No Brasil, sites de jornalismo de circulação nacional tem noticiado o congestionamento náutico que tem efeito de escala global. No entanto, em uma semana, navios já se movimentaram por outras rotas, é o que mostra o portal de geoinformação, Marine Traffic, com dados abertos e simultâneos acessíveis pela internet. Hoje as principais rotas transoceânicas que ligam o Brasil ao mundo são diretas via oceanos Atlântico e Índico (diferente da Europa) e não transitam pelo Canal de Suez.



Do ponto de vista do capital, “qualquer previsão sobre o impacto do encalhe em Suez para a cadeia global de suprimento e do comércio exterior brasileiro, é muito prematura e incompleta”, divulgou o site Portos e Navios. O comunicado foi emitido pela diretoria do Centro Nacional de Navegação Transatlântica (Centronave), entidade privada que reúne as 19 maiores empresas de navegação transatlânticas (longo curso) atuando no Brasil. O capitalismo conhece rotas náuticas alternativas há muito, desde os primórdios da globalização no século XVI.

O lugar afeta o acontecimento jornalístico


Na atualidade o Canal de Suez é um “gargalo” responsável por conectar o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho. Essa é a rota mais curta do comércio entre a Ásia e a Europa. Nesse fluxo de interdependência social mediada por produtos, existe uma balança: há portos que enviam e portos que recebem, importações e exportações, necessitados de ambos os lados na relação de dependência material.

O encalhe de um navio (um fixo) impede o transporte marítimo (um fluxo) em um determinado ponto (um lugar) da via que tem ao todo 195 quilômetros de extensão (uma via artificial). Isso serve para pensarmos sobre o “poder do conceito de lugar” e “crise do conceito de região” nas análises sobre a globalização mediada por notícias.

Milton Santos foi o primeiro que afirmou na Geografia que os “lugares” e “territórios” deviam ser considerados conceitos e não categorias das “paisagens” e “regiões”. Essa crítica permitiu um avanço enorme para uma análise científica do “espaço geográfico” e mudou totalmente o olhar sobre a geopolítica no mundo.

Materialismo e glocalização


Imagine uma situação: durante uma forte tempestade, uma árvore de 500 anos tomba em uma região isolada da Amazônia e não é avistada por nenhuma pessoa ou sensor. Afinal, o que acontece quando ninguém está olhando o mundo?

Essa incursão imaginária no fantástico serve (apenas) para abstrairmos e inquietarmos nossa concepção sobre “o que é um fato” e “o que é um acontecimento”.

Seja por córneas ou lentes, a experiência da presença de um depoente marca a história do mundo, o reconhecível representa “o acontecimento” (a árvore de 500 anos caiu devido à tempestade na região) e o irreconhecível representa “o fato” (uma árvore caiu).

Essa distinção social é raramente feita pelos jornalistas na rotina de produção de notícias ou mesmo ao leitor na recepção das notícias circuladas, no entanto é reconhecidamente relevante para nossa época, década marcada por fábulas – como as teorias de “pós-verdade” – e perversões – como as práticas das “fake news”.

A materialidade é uma palavra da Filosofia, “sofisticada e confundida e debatida e polêmica” em praticamente todos os campos científicos, mas que se bem aproveitada serve para acentuarmos e assentarmos algumas reflexões diante do caso Suez no contexto do coronavírus.

Acentuarmos que o encalhe em Suez é, em uma semana, um “fato regional” e por outro lado assentarmos que é um “acontecimento global” que tem perdurado ao longo de uma semana, porém é tecnicamente reversível.

Por outro lado a pandemia do coronavírus, em seu segundo ano, é reconhecida como um “fato global” que afeta de modo relativo os países desenvolvidos e subdesenvolvidos, que pode ser percebida como “acontecimento regional”, visto que cada região do mundo tem seus critérios de noticiabilidade com base na proximidade.

Isso ajuda a desenvolver uma ideia mais apurada do que é um “acontecimento” no jornalismo “fato” na realidade socioespacial. Espaço e tempo, afinal, definem, inclusive pelos jornais, o que é a “realidade atual do mundo” para a sociedade globalizada.

A materialidade serve hoje para a crítica da “maximização das soluções sociais” que as tecnologias apresentam como “fins em si” e por uma “minimização dos problemas sociais” que a teoria social crítica apresenta como “meios em si” para uma “outra globalização”, uma utópica disputa na qual a internet é uma metáfora da nova pólvora: pode servir para artilharias e para pirotecnias.

Acredito que para tomadas de decisões inteligentes e sensíveis com situações humanitárias complexas, como as que enfrentamos em escala mundial em 2021, a materialidade é fundamental.



Duas relações dialéticas da materialidade podem ser percebidas no caso do encalhe do navio em Suez: a materialidade imaginária a materialidade simbólica.

A materialidade imaginária dos memes desencadeia a possibilidade de um usuário das mídias sociais na América interessar sobre um “fato regional” na África, geograficamente distante, através do conteúdo circulado algum meio de comunicação jornalístico de credibilidade e da sua fluência de idiomas.

Já a materialidade simbólica permite que organizações de jornalismo do mundo inteiro, mesmo sem correspondentes presentes no local, presentifiquem a experiência de produção do/a repórter in loco, com objetivo de circular uma narrativa de um “fato global” construído com evidências materiais e dados digitais geoespaciais – sobretudo imagens de satélite e mapas online.

Ao que tudo indica, o conceito de “glocal”, colocado como “solucionador máximo” jamais seria capaz de operacionalizar uma reflexão ou aplicação em tecnologias tal nível dialético de reflexão como o que estamos propondo. Talvez o “glocal” seja um conceito para articular análises entre a relação imaginário e simbólico, isolando-se da materialidade.

A materialidade se impõe tão relevante quanto o imaginário e o simbólico para “realização da atualidade” e compreensão das diferenças entre as agendas jornalísticas do Sul e do Norte global, justificadas pela hipótese de uma distribuição assimétrica das “praças de correspondência de agências internacionais”, testada cartograficamente pelo pesquisador e professor de Comunicação, Pedro Aguiar (UFF).

O encalhe de Suez realça a materialidade das agendas internacionais de notícias. Afinal, o que é notícia do Sul relevante para o Norte? Qual a significância de um evento do Norte para o Sul? Respostas ecoam entre a Geografia e o Jornalismo.



ANTÔNIO HELENO CALDAS LARANJEIRA
Jornalista pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Mestre em Comunicação e Sociedade pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Doutorando em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Professor de Geocomunicações pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IPBAD).

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