Pages

Os riscos da “sociedade cômoda”. Artigo de Luca Pesenti

Do IHU, 29 Abril 2021
Por Luca Pesenti,  publicado na edição de VP plus, 24-04-2021, e reproduzido por Settimana News, 28-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.


"A 'sociedade cômoda' e on-life (segundo a definição visionária de Luciano Floridi) podem, portanto, representar um ganho, mas escondem um engano. Talvez possa nos restituir mais tempo de vida. Mas também poderá tirar relações e espaços de liberdade, reduzindo o humano à lógica produtivista", escreve Luca Pesenti, professor de Sociologia Geral na Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Católica do Sagrado Coração. Ele colabora com OPeRA (Observatório da Pobreza e Redes de Ajuda) na mesma universidade. Em 2010-2012 foi membro da Comissão Nacional de Investigação sobre Exclusão Social (CIES).

Eis o artigo.

O ano desde a pandemia marcou o triunfo do delivery em todas as suas formas. Durante os meses de lockdown mais duros, foi uma tábua de salvação fundamental. Mas a inédita "experiência domiciliar" dos últimos meses foi muito mais longe: não apenas quantidades incomuns de pacotes ou comida pronta chegaram à nossa casa, mas também (pela primeira vez nos tempos modernos) o trabalho e a escola. O trabalho remoto e o ensino à distância tornaram-se uma experiência cotidiana para muitos, às vezes para quase todos.

A transformação em uma experiência de massa da tríade delivery + trabalho remoto + EAD, com o acréscimo do fechamento de toda forma de entretenimento extra-doméstico e a rarefação forçada das relações sociais, está nos acostumando cada vez mais ao sedentarismo. Ao que, talvez, estejamos agora até demasiado acostumados. Teremos, portanto, que lidar com a estabilização de uma inédita “sociedade cômoda”: um modelo do qual já víamos antes os vestígios, mas que com a pandemia se impôs como uma forma possível de organização social. Um modelo certamente rico de vantagens, mas também de muitos riscos.

Muito cômodo, mas com um “lado obscuro”

Todas as transformações geradas por esta tríade levaram-nos a redesenhar a vida diretamente na nossa casa. Com o único esforço de um clique.


Dopo la pandemia.
Rigenerare la società con le relazioni,
por Pierpaolo Donati e Giulio Maspero

Certamente descobrimos muitas coisas interessantes e úteis: já não é necessário sair de casa para fazer determinadas compras; é possível repensar a organização do trabalho superando a obrigação cotidiana da vida no escritório (com seus custos em termos de dinheiro, tempo, estresse), ajudando a conciliar os ritmos da vida com aqueles profissionais; temos muitos instrumentos para evitar desnecessárias viagens, esperas e complicações; a educação em todos os níveis pode ser "aumentada digitalmente", inovando um modelo de educação que está em muitos aspectos superado.

Embora essa experiência possa parecer luminosa, vivê-la em primeira mão nos fez descobrir um "lado obscuro" que precisamos avaliar rapidamente. Porque o impacto mais geral e abrangente da pandemia atingiu as relações. E é a partir daqui, como aconselham Donati e Maspero no recente Após a pandemia. Regenerar a sociedade com as relações (em tradução livre), que precisamos botar a mão na massa para começar a reconstrução. Sabendo, entretanto, (a história nos ensina) que reconstruir mal se concilia com a comodidade.

Isso também vale nas relações, pois o Outro é sempre incômodo.

Fazer o balanço de uma experiência contraditória

Devemos primeiro entender se são realmente plausíveis (e, acima de tudo, úteis à inextinguível necessidade de felicidade do ser humano) as narrativas encantadas sobre o futuro do "trabalho ágil" e até mesmo sobre o "fim do escritório": se o trabalho não é apenas produção, mas sobretudo relação social, sua excessiva “remotização” (ou mesmo sua “domiciliação”) retira uma parte relevante de seu significado. E parece simbolicamente relevante que os primeiros a o entender tenham sido as gigantes digitais, como Google e Cisco, orientados para um rápido retorno ao escritório (ainda que na perspectiva de um local de trabalho híbrido). Trabalhar em equipe sem encontrar quase nunca os colegas corre o risco de não gerar uma equipe, dificultando a construção de um senso de pertencimento e identidade comum.

Nas escolas e universidades, teremos também que entender nós todos, professores e alunos, como lidar com o "ensino digitalmente aumentado". Compreendemos suas potencialidades, abençoamos sua existência que evitou a paralisação. Mas vimos seus limites insuperáveis, porque a presença em uma relação educativa nunca é substituível. Sobretudo, quando tivermos de decidir que mistura entre presença e distância inventar, teremos que lidar justamente coma comodidade que tanto aos professores quanto aos alunos se propõe como uma sedução não desprovida de ameaças.

Teremos que entender se o ensino a distância (na modalidade semipresencial ou mesmo gravada) pode ser uma oportunidade para garantir o direito ao estudo (para quem trabalha, para quem vive em áreas distantes dos centros universitários de excelência, ou simplesmente para quem não quer se incomodar) ou uma ilusão perigosa que complica a relação educativa ao transformá-la em transferência funcionalista de conteúdos especializados.

Tão ilusória (para os jovens em primeiro lugar) como nos aparece já hoje a narrativa do South working, ou seja, a ideia de trabalhar para uma empresa do Norte continuando a viver na zona em que se nasceu. No estudo como no trabalho (e sobretudo na procura de trabalho, bem como na progressão na carreira) as relações diretas, os diálogos entre pares na aula ou entre colegas no escritório, as conversas nas cantinas ou na máquina de café, são elementos insubstituíveis. Já nos anos 1970 o sociólogo Mark Granovetter falava da “força dos laços fracos” como um elemento indispensável para desenvolver plenamente os próprios talentos, para encontrar trabalho, para construir uma carreira.

Os rituais que tornam resistente a vida

Há um último aspecto que alerta para os riscos de uma "sociedade cômoda". Em seu recente O desaparecimento dos ritos, o filósofo sul-coreano (mas alemão por adoção) Byung-Chul Han nos avisa que o desaparecimento das dimensões rituais da existência representa uma perda insubstituível para a vida humana. A sua repetitividade representa, de fato, um elemento central na estabilização da experiência, tornando assim a vida resistente e capaz de uma relação harmoniosa entre cada um e o complexo das outras pessoas e das "coisas" com as quais habitualmente nos relacionamos.



Do Desaparecimento dos Rituais,
por Byung-Chul Han

Se os ritos desaparecem (mesmo aqueles da vida quotidiana como ir à escola, à universidade, ao trabalho, com os seus tempos, os seus lugares, os incómodos que exigem), impõe-se a lógica do consumo aplicada a todas as dimensões da vida humana, perdem-se no caminho a duração e finalidade em prol de um único objetivo: ter um melhor desempenho para produzir mais. O ambiente digital pode ser um substituto (imperfeito) em termos de produção, mas a corporeidade continua sendo insubstituível para humanizar a realidade.

A "sociedade cômoda" e on-life (segundo a definição visionária de Luciano Floridi) podem, portanto, representar um ganho, mas escondem um engano. Talvez possa nos restituir mais tempo de vida. Mas também poderá tirar relações e espaços de liberdade, reduzindo o humano à lógica produtivista. Precisamente por isso, será bom ter em mente (Magatti e Giaccardi nos lembram isso em seu No final é o começo) que "o objetivo sensato para a próxima fase de crescimento não é mais o aumento quantitativo da produção", mas "apostar na qualidade das pessoas e dos laços sociais”.

Com um slogan poderíamos lembrar que é preciso sair da zona de conforto para cuidar de si mesmo, do outro e do mundo. Em um tempo de reconstrução, a "sociedade cômoda" nos imporá a cada dia uma escolha resultante de uma negociação que será feita primeiro conosco: nos apartar (ainda que em conexão) ou nos conectar (isto é, nos entrelaçar com a vida dos outros).

Nenhum comentário:

Postar um comentário