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“O capitalismo nos prepara para sermos queimados na procura de energia”. Entrevista com Michael Marder

Do IHU, 14 Abril 2021
Por César Avó, publicada pelo jornal português Diário de Notícias, 13-04-2021.



Nasceu em Moscou, dois meses e meio antes de começarem os Jogos Olímpicos de 1980, emigrou para Israel, em 1993, daí para o Canadá e Estados Unidos, onde se doutorou em filosofia em Nova Iorque. Em 2011, assumiu o cargo de professor de investigação na Ikerbasque, a Fundação Basca para as Ciências, dividindo o seu tempo entre Vitória e Lisboa, e aprofundando a filosofia ecológica.

Nesta quarta-feira, Michael Marder profere em português - que domina com distinção - a conferência Pesadelos da energia: de Chernobyl à emergência climática, pelo canal no YouTube e a página de Facebook da Culturgest.

Eis a entrevista.

O que levou um psicólogo e filósofo a se interessar por campos menos explorados como a ecologia, a energia, os elementos básicos da vida? O desastre de Chernobyl?

O desastre de Chernobyl, realmente, faz parte do meu pensamento e da minha vida, mas não começou assim o interesse pela filosofia ecológica. Comecei pela investigação, pela filosofia das plantas, há mais de 10 anos, porque houve muitos estudos de filósofos sobre os animais, mas parecia que os filósofos se esqueceram de uma forma de vida muito importante, muito prevalecente e fundamental na Terra, que é a vida vegetal.

Comecei por explorar a posição conceitual das plantas na filosofia ocidental e depois tentei desenvolver a minha filosofia vegetal que respeitava a subjetividade das plantas. As plantas como sujeitos, como seres vivos, com os seus interesses, as suas intenções, e não como objetos de uso ilimitado.

Afirma que devemos tudo ao mundo vegetal, que tanto desprezamos, e defende o conceito de democracia vegetal. Pode explicar o que é?

Ao pensar sobre várias dimensões da vida vegetal e a sua importância para a vida humana, para modelos humanos, reparei que os modelos políticos desde Aristóteles até pelo menos ao século XIX, se não XX, são modelos animais. O Estado é o grande animal com a sua cabeça, que é o dirigente, com o sistema nervoso, o sistema sanguíneo. Aristóteles chama o humano de "animal político" e este itinerário conceitual passa por Thomas Hobbes com o Leviathan, onde o ser político é considerado um grande animal, e até à filosofia de Hegel, no século XIX, onde a totalidade política é considerada deste modo orgânico da vida animal.

Mas se pensarmos sobre a vida vegetal, é um modo de vida muito diferente da vida animal, porque não há um organismo como uma espécie de totalidade. É uma vida muito mais aberta porque, por exemplo, em qualquer parte da árvore podem crescer ramos, não há um modelo pré-feito, cresce de modo simbiótico com o seu entorno, com o ambiente. Neste modo de organização não há um órgão central como a cabeça ou o coração no animal. Podemos tirar partes da planta e vão ter vida própria nas condições ideais. Isto levou-me a reconsiderar a organização política através deste modelo vegetal, que é muito mais aberto e descentralizado, menos hierárquico também.

Na conferência vai defender um outro conceito de energia como forma de responder à emergência climática. Qual é?

A ideia é baseada no livro que publiquei em 2017, nos Estados Unidos, Energy Dreams. O ponto de partida é também vegetal. O modo principal das plantas receberem energia é através da fotossíntese: as plantas abrem as superfícies, as folhas ao exterior, à energia solar, recebem a energia e a utilizam para a própria vida. Para mim, este era o modo de relacionar a energia de forma muito diferente daquilo que considerávamos: temos de partir as coisas, chegar à interioridade, à sua potencialidade e assim tirarmos a sua energia.

Enquanto muitas pessoas, e bem, estão preocupadas com as fontes de energia poluentes, a minha preocupação como filósofo, preocupação suplementar, diria, mas também que vai ao lado destas preocupações, era sobre o conceito de energia. O que é que chamamos de energia, e não onde é que procuramos energia. Nas minhas investigações encontrei esta ideia de que a energia, para nós, é uma pura potencialidade.

Quando estamos no controle desta potencialidade é como se tivéssemos uma varinha mágica, podemos fazer aquilo que quisermos. O conceito alternativo de energia seria essencialmente superficial, que deixa a energia circular nas superfícies das coisas, sem partir qualquer coisa e, também aqui, podemos aprender muito com as plantas nesta abertura ao exterior e o modo de receber energia sem partir as coisas, nem destruir, para conseguir a potencialidade pura a que chamamos de energia.

Passando das ideias para a prática, já há fontes de energia que se adaptam ao que diz, como a eólica, solar, ou das marés.

Claro. O que eu critico é a categoria de "energia renovável". É um erro categórico porque inclui o biodiesel, que é extremamente poluente e faz muito pior ao meio ambiente, porque temos de cultivar monoculturas para depois as queimar e destilar o etanol, e tudo isto faz parte da energia renovável. É um erro categórico e de pensamento. Eu prefiro falar de energias elementais, como o sol, a água.

Aqui, o que é importante não é a renovação dos recursos - e claro que as renováveis o são em comparação às fósseis, que têm uma quantidade limitada -, mas o princípio da sinergia com o meio ambiente, o modo de buscar energia seria sinérgico com o próprio mundo. Com as renováveis não chegamos ao fundo do problema, não só as fontes, mas o modo, o conceito de energia.

Afirmou numa entrevista que precisamos urgentemente de reconsiderar tanto a vida como o pensamento enquanto massa. Como?

Neste caso eu estava falando sobre o conceito de biomassa, que considero no meu último livro um conceito central na nossa contemporaneidade. A definição técnica de biomassa é o peso dos seres vivos no planeta, por exemplo, sendo que a biomassa vegetal é muito maior do que a biomassa animal. Outra definição de biomassa é a massa biológica que podemos queimar para fazer energia. Mas, no meu caso, introduzo o conceito de biomassa como uma espécie de massificação da vida e vivificação da massa ao mesmo tempo. A minha ideia é que não podemos relacionar as outras coisas como biomassa, sem nos incluirmos nesta categoria.

O capitalismo tardio funciona transformando todo o mundo, incluindo os seres humanos, tanto culturalmente como em termos do pensamento, em biomassa, preparados para sermos queimados tanto metaforicamente como literalmente na procura de energia, tanto física como econômica, do valor capitalista.

Como traduziria o título desse livro, ‘Dump philosophy’, para o português?

A tradução para espanhol vai ser Vertedero filosófico. Quando houver uma tradução em português pensei num título mais coloquial, Para o lixo com a filosofia, em dois sentidos, tratar a filosofia como lixo, mas também tratar o lixo com ferramentas filosóficas.

Escreveu sobre as luzes, ou o Iluminismo, em oposição ao mal, isto é, ao calor sem luz. Portugal paga todo os anos o preço de opções políticas com os incêndios florestais. Somos um país com demasiado calor e pouca luz?

O livro que menciona é Pyropolitics in the World Ablaze, onde faço uma investigação abrangente das significações do fogo, tanto literais como metafóricas na prática e no pensamento político. Eu falei do Iluminismo como uma separação entre aquilo que são na teologia política e judaico-cristã os dois poderes do fogo, a luz e o calor, o fogo dá sempre os dois. Com o Iluminismo há uma tentativa de separar uma luz pura e fria da razão, sem o calor dos preconceitos, e o contrário é o calor sem a luz, portanto aquilo que é irracional, movido só pelas emoções ou sentimentos.

Como herdeiros desta política do Iluminismo foi assim que, pelo menos no Ocidente, foi pensada a figura do terrorista, por exemplo, com este tipo de calor sem a luz, e muitas das táticas do terrorismo também são explosões que dão um sentido mais literal a esta interpretação.

Agora, em termos das consequências práticas para a Europa do sul, escrevi também sobre o sol dos filósofos e o sol do sistema solar num artigo para o El País, na divisão entre a Europa do norte, com a luz fria da razão, e a Europa do sul, como uma espécie de lugar das férias, com calor físico mas sem a luz fria da razão. O meu argumento é que, se pensarmos sobre a integração europeia, temos de integrar as duas dimensões da luz e do calor físico e da luz e da razão, porque faz parte do racismo intraeuropeu pensar tanto no sul não europeu como no sul europeu desta maneira.

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