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Educação: o “acúmulo” dará lugar à “experiência”?

Escola insiste em reproduzir as lógicas desgastadas do capitalismo industrial. Frente a crise civilizatória, abrem-se brechas para novos paradigmas. Eis algumas ideias para construir uma pedagogia baseada não na extensão, mas na profundidade.
Do OUTRAS PALAVRAS, 09/04/2021

Por Roberto Rafael Dias da Silva

Os modelos formativos da escola moderna, tal como foram desenhados no capitalismo industrial, traziam as marcas de uma padronização subjetiva, em que normas, valores e conhecimentos eram desenvolvidos em todos os indivíduos que ingressavam no processo de escolarização. Era recorrente a preocupação com a formação de uma mão-de-obra capaz de responder às demandas requeridas por este modelo de economia. A escola industrial apropriou-se da matriz disciplinadora dos modelos pedagógicos da Modernidade – dos corpos e das almas como nos ensinou Michel Foucault –, levando adiante metodologias de molde único, uma vez que seu campo de expectativas era restrito. A democratização da escola para todos – principal realização política do Ocidente no último século – trazia essas marcas e, ao mesmo tempo, escondia profundas desigualdades.

Em termos curriculares, esta escola organizava-se em torno de uma lógica enciclopédica e fragmentada, na qual a atuação dos professores era movida por metodologias de transmissão, de caráter unidirecional. Costumo retomar uma expressão utilizada por colegas espanhóis: tratava-se de um currículo como “quilômetros de extensão e milímetros de profundidade”. Os tempos cronometrados de cinquenta minutos e os espaços que separavam os corpos por idades, níveis de aprendizagem ou interesses evidenciavam as similaridades desta instituição com os modelos industriais. Associa-se a este cenário os exames regulares e a imposição de normas de conduta que constituíam um campo de expectativas vinculado às promessas de ascensão social atribuídas à escola. Em um exercício de síntese, poderíamos afirmar que o imperativo explicativo dos currículos aqui descritos seria “Acumular!”. Os estudantes eram educados para acumular conhecimentos para terem uma inserção qualificada na vida adulta, qualificada pelas normas e valores que lhes eram oferecidas permanentemente para a obtenção de resultados futuros.

Todavia, este imperativo curricular – Acumular! – tem colidido com as novas expectativas dos estudantes e seus modos de relação com o saber, com a pluralização da função socializadora da escola e com a própria reorganização do capitalismo (cada vez menos identificado com os princípios da sociedade industrial). Não resta dúvidas de que o desenvolvimento curricular precisa continuar sendo mobilizado na seleção de conhecimentos relevantes para a formação das futuras gerações e que este processo garante o direito a uma escola de qualidade – fruto de históricas lutas em nosso país. O que precisamos, coletivamente, é rediscutir nossos propósitos formativos para projetar novas arquiteturas curriculares para um contexto pós-capitalista. Para tanto, em minha percepção, podemos vislumbrar estas alternativas cartografando as práticas escolares de nosso tempo.

Uma primeira dimensão poderia ser vislumbrada a partir do reconhecimento de que as aprendizagens não se esgotam ou se limitam à sala de aula. Trata-se de uma herança do pensamento educacional progressivista que, por diferentes caminhos, nos conduziu a pensar as situações didáticas como espaços abertos para a experimentação e a liberdade de pensamento. Explorar, questionar ou levantar hipóteses continuam proporcionando a criação de ambientes pedagógicos em que os estudantes podem expressar a sua curiosidade, sua criatividade e o pensamento crítico. Nossos colegas, professores e professoras, têm reiterado a importância de construir uma pedagogia da pergunta, que ultrapasse o imperativo da acumulação de conhecimentos descrita anteriormente.

O reconhecimento da ampliação das funções sociais da escola também se converte em uma dimensão importante. Ao não se reduzir aos processos de disciplinamento, assistimos à emergência de modelos de relação pedagógica mais negociados e horizontais em que coabitam estilos variados de autoridade e os estudantes reivindicam o seu protagonismo. A diversificação dos percursos escolares tem sido demandada pelas novas arquiteturas curriculares, reconhecendo que os tempos e os espaços de formação podem ser diferenciados, especialmente nos cenários em que as desigualdades se tornam mais evidentes. Os avanços nas teorias de aprendizagem – inspirados por tradições heterogêneas – têm auxiliado no alargamento de nossa sensibilidade sobre o desenvolvimento humano, favorecendo com que possamos compreender a questão desde novas perspectivas.

O diálogo com Pérez-Gomez, pedagogo espanhol, tem sido fértil para pensar sobre as formas curriculares emergentes na era digital. Em busca de uma nova pedagogia, o autor tem defendido alguns princípios que nos parecem pertinentes para esta reflexão: a) menos extensão e mais profundidade; b) primeiro as vivências, depois as formalizações; c) aprender fazendo; d) primar pela cooperação e fomentar o clima de confiança; e) avaliar de outros modos. Estes aspectos são bastante pertinentes e, com maior ou menor ênfase, sinalizam nossa abordagem para este importante direcionamento no desenvolvimento de políticas curriculares: o declínio da acumulação de conhecimentos e a consolidação dos métodos vivenciais. Em outras palavras, assistimos ao deslocamento do princípio do “Acumular!” para o imperativo do “Experienciar!”.

Não deixamos de reconhecer as controvérsias que perfazem a este deslocamento, especialmente quando as políticas neoliberais ainda nos rondam com tanta intensidade. A oportunidade de reposicionar as pautas formativas da escola, à luz das mutações em curso, auxiliam-nos a manter a escola como um “espaço livre”, não completamente definido pela sociedade e seus agenciamentos. O filósofo Gert Biesta defende que, em tais condições, podemos “ter lugares de refúgio em que outros modos de ser e estar juntos podem ser praticados”. Em busca de um novo léxico, que nos permita apostar na construção de uma escola pós-capitalista, ao longo deste texto defendi que o declínio da escola do capitalismo industrial abre novas possibilidades de criação pedagógica. Mais inovadoras e democráticas. Mais sintonizadas com as demandas de um novo porvir!

Referências:

BIESTA, Gert. Reconquistando o coração democrático da educação. Educação Unisinos, v. 25, p. 1-7, 2021.

PEREZ-GÓMEZ, Angel. Educação na Era Digital: a escola educativa. Porto Alegre: Penso, 2015.

SILVA, Roberto Rafael Dias da. Educação, tecnologias 4.0 e a estetização ilimitada da vida: pistas para uma crítica curricular. Cadernos IHU Ideias, v. 18, n. 301, 2020. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/344210399_Educacao_tecnologias_40_e_a_estetizacao_ilimitada_da_vida_pistas_para_uma_critica_curricular


ROBERTO RAFAEL DIAS DA SILVA
Professor da Escola de Humanidades da Unisinos.

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