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Do IHu, 08 Abril 2021
Por Roberto Righetto



"É necessário redescobrir as razões da esperança, que é o oposto do medo, e que não é de forma alguma um conceito abstrato, mas um 'postulado prático' para usar as palavras de Kant. É uma escolha que nos leva a renunciar à nossa 'ambição monárquica' e a dar espaço à 'expansão do coração'", escreve Roberto Righetto, jornalista, em artigo publicado por Avvenire, 07-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo.

Em uma bela entrevista no "La Stampa", há pouco mais de um ano, o sociólogo estadunidense Amitai Etzioni, fundador do comunitarismo, sinalizava que o surgimento de novas formas de raiva social, muitas vezes propensas a degenerar em fenômenos de suprematismo e extremismo, estivessem ligadas à má gestão da globalização. "Grandes faixas da população - dizia Etzioni - estão frustradas porque são ameaçadas pela globalização no plano econômico, pelas migrações no plano identitário e pelas elites esnobes que as consideram ignorantes e deploráveis”.

A monarquia do medo

Naquela época, a pandemia ainda não havia explodido e nos Estados Unidos estava no poder Trump, que havia tornado o medo do outro um elemento do slogan America First. E é naquele período que a filósofa Martha Nussbaum, uma das mais atentas exploradoras das emoções vistas como "revoltas do pensamento", publica o livro A monarquia do medo, agora editado pela ed. Il Mulino (p. 216, € 22,00).

Tema que sempre foi crucial para ela, assim como, à maneira dos Antigos, aquele da busca do bem como essência da filosofia. “Meu compromisso - escreve a pensadora - e meus esforços sempre me impulsionaram a reconduzir à filosofia a ampla gama de interesses que ela despertava nos tempos dos gregos e romanos: o interesse pelas emoções e a luta pelas vidas florescentes em tempos difíceis; pelo amor e amizade; pelo ciclo da vida humana (incluindo a velhice, tão bem estudada por Cícero); pela esperança em um mundo justo”.

De fato, no último capítulo, cinco 'escolas de esperança' são indicadas: o pensamento crítico, os grupos de voluntários, as realidades religiosas, a família e os amigos, a poesia e as artes.

Mas vamos começar pelo medo: para Aristóteles é o sofrimento provocado pela perspectiva de um mal iminente, combinado com a sensação de não poder fazer nada para evitá-lo. Um medo que aumenta à medida que o perigo se aproxima: não é por acaso que Adam Smith a esse respeito trazia o exemplo de um terremoto que atingiu a China, fazendo que o bom europeu se sentisse partícipe da dor ao ser informado, mas apenas por um curto período de tempo. Qualquer um que um dia após saber da tragédia perdesse o próprio dedo mínimo esqueceria inevitavelmente o destino de milhões de chineses.

O medo leva governos e povos, mesmo em sociedades democráticas e não apenas em ditaduras, muitas vezes a cometer atos perversos. É o caso de um famoso evento narrado por Tucídides que aconteceu em Atenas, que para punir a rebelião da colônia Mitilene estabeleceu, por ordem do demagogo Cléon, decretar à morte todos os homens da cidade na ilha de Lesbos e escravizar mulheres e crianças. A revolta foi efetivamente considerada um perigo para a própria existência de Atenas porque poderia ter sido imitado por outras colônias. Convidado a um repensamento, Cléon voltou a convocar a assembleia ateniense e graças à intervenção de Diódoto, que convidou os cidadãos a não se deixarem dominar pelo medo visto que não havia perigo de outras revoltas iminentes, a decisão foi revogada: era injusto punir todos os habitantes pelo ato sedicioso de poucos. Um navio foi então enviado para sustar o primeiro, que só foi alcançado graças à calmaria que havia encontrado. Assim, o massacre foi evitado e o comportamento populista de Cléon não prevaleceu.

Na época, como hoje, observa Nussbaum, o medo pode ser manipulado por informações verdadeiras ou falsas. A autora também relaciona três emoções específicas ao medo: raiva, inveja e nojo. Este último é uma emoção visceral e leva as pessoas e os grupos sociais que pensam ter sofrido uma injustiça e são tomados pela raiva, não só a identificar em outras pessoas ou grupos os responsáveis por sua situação de precariedade verdadeira ou presumida, mas se considerarem 'limpos e puros' ao contrário dos outros, vistos como 'sujos e fedorentos'. Uma identificação movida pelo medo de perder o próprio status e privilégios ou pela inveja de quem se considera mais afortunado, mas sem méritos, e que tem levado várias vezes no curso da história à busca de bodes expiatórios: basta pensar nos párias indianos ou nos judeus da época do nazismo.

Diante desses fenômenos, é necessário redescobrir as razões da esperança, que é o oposto do medo, e que não é de forma alguma um conceito abstrato, mas um 'postulado prático' para usar as palavras de Kant. É uma escolha que nos leva a renunciar à nossa "ambição monárquica" e a dar espaço à "expansão do coração". A esperança é uma virtude, como recordava São Paulo, ligada à fé e ao amor, e isto é ainda maior porque é feito por ações concretas, por generosidade para com os outros, por atenção constante para fazer prevalecer as razões do bem em vez de ser corresponsáveis pelo mal. Gandhi, Martin Luther King e Mandela são para Nussbaum as três figuras que mais representaram esta opção decisiva no século XX.

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