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A Ucrânia revisitada: guerra, russofobia e o Gasodutistão

Do Brasil 247, 9 de abril de 2021
Por Pepe Escobar, para o Asia Times; Tradução de Patricia Zimbres, para o 247


Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais


O combo deep state norte-americano/OTAN usa Kiev para enterrar o Nord Stream 2 e as relações Alemanha-Rússia, analisa Pepe Escobar

A Ucrânia e a Rússia talvez estejam à beira de uma guerra - com consequências funestas para a totalidade da Eurásia. Vamos ao que importa e mergulhemos de cabeça no nevoeiro da guerra.

Em 24 de março, o presidente ucraniano Zelensky, para todos os fins práticos, assinou uma declaração de guerra contra a Rússia, com o decreto Nº 117/2021.

O decreto determina que retomar a Crimeia da Rússia é agora a política oficial de Kiev. Foi exatamente isso que levou uma fileira de tanques de guerra ucranianos a serem despachados rumo a leste em vagões-plataforma, após o exército ucraniano ter sido saturado pelos Estados Unidos de equipamentos militares, incluindo-se aí veículos aéreos não-pilotados, sistemas de guerra eletrônica, sistemas anti-tanque e sistemas portáteis de defesa aérea (MANPADS).

O mais importante é que o decreto assinado por Zelensky prova que qualquer guerra que venha a se seguir terá sido provocada por Kiev, desmascarando as proverbiais acusações de "agressão russa". A Crimeia, desde o referendo de 2014, é parte da Federação Russa.

Foi essa (itálicos meus) declaração de guerra de fato, levada muito a sério por Moscou, que provocou o aumento das tropas russas enviadas à Crimeia, avançando em direção à fronteira russa com Donbass. É significativo que nessas tropas esteja a excepcional 76ª Brigada da Guarda de Assalto Aéreo, conhecida como os paraquedistas de Pskov e, segundo um relatório de inteligência a que tive acesso, capaz de tomar a Ucrânia em apenas seis horas.

Claro, não ajuda em nada o fato de que, em inícios de abril, o Secretário da Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, que acabava de deixar seu cargo anterior no conselho da fabricante dos mísseis Raytheon, ligou a Zelensky para prometer "apoio inabalável dos Estados Unidos à soberania ucraniana". O que se encaixa na interpretação de Moscou de que Zelensky jamais teria assinado seu decreto sem receber luz verde de Washington.
Controlando a narrativa

Sevastopol, quando a visitei em dezembro de 2018, já era um dos locais mais defendidos do planeta, impenetrável até mesmo a ataques da OTAN. Em seu decreto, Zelensky identifica Sevastopol, especificamente, como um dos principais alvos.

Mais uma vez, estamos de volta a 2014 e aos assuntos não resolvidos do pós-Maidan.

Para conter a Rússia, o combo Deep State dos Estados Unidos/OTAN precisa controlar o Mar Negro - que, para todos os fins práticos é hoje um lago russo. E, para controlar o Mar Negro, eles têm que "neutralizar" a Crimeia.

Se alguma prova adicional fosse necessária, ela foi fornecida pelo próprio Zelensky na terça-feira desta semana, em um telefonema para o secretário-geral da OTAN e dócil fantoche Jens Stoltenberg.

Zelensky pronunciou a frase-chave: "A OTAN é a única maneira de pôr fim à guerra em Donbass" - o que significa, na prática, a OTAN expandir sua "presença" no Mar Negro. "Uma tal presença permanente seria uma poderosa dissuasão para a Rússia, que continua a militarização em larga escala da região, prejudicando a marinha mercante".

Todos esses desdobramentos cruciais são e continuarão a ser invisíveis para a opinião pública, no que se trata da narrativa predominante, controlada pelo hegêmona.

O combo Deep State/OTAN vem insistindo 24/7 que o que vier a acontecer em seguida será devido à "agressão russa". Mesmo se as Forças Armadas Ucranianas vierem a lançar uma blitzkrieg contra as Repúblicas Populares de Lugansk e Donetsk. (Fazer o mesmo contra a Crimeia seria suicídio em massa com firma reconhecida).

Nos Estados Unidos, Ron Paul tem sido uma das únicas vozes a afirmarem o óbvio: "Segundo o braço midiático do complexo militar-industrial-parlamentar-midiático dos Estados Unidos, a movimentação das tropas russas não é uma resposta a claras ameaças partindo de um vizinho, e sim apenas mais uma "agressão russa".

O que implica que Washington/Bruxelas não têm um plano de jogo claro, nem em termos táticos e, muito menos, em termos estratégicos, mas apenas o total controle da narrativa.

E tudo isso alimentado por uma russofobia hidrófoba, magistralmente desconstruída pelo indispensável Andrei Martyanov, um dos maiores analistas militares do mundo.

Um sinal possivelmente esperançoso é que, em 31 de março, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas russas, o General Valery Gerasimov, e o chefe do Estado-Maior conjunto, o General Mark Milley, conversaram ao telefone sobre os proverbiais "assuntos de interesse mútuo".

Dias mais tarde, foi divulgada uma declaração franco-alemã pedindo a "todas as partes" que revertessem a escalada militar. Merkel e Macron parecem ter entendido a mensagem passada na videoconferência com Putin, que deve ter sutilmente aludido ao efeito gerado pelos kalibrs, kinzhals e outras armas hipersônicas caso haja um endurecimento e os europeus venham a sancionar uma blitzkrieg de Kiev.

O problema é que Merkel e Macron não controlam a OTAN. Mas Merkel e Macron, pelo menos, têm plena consciência de que, caso o combo Estados Unidos/OTAN venha a atacar forças russas ou detentores de passaportes russos que vivam em Donbass, a resposta devastadora terá como alvo os centros de comando que coordenaram os ataques.

O que quer o hegêmona?

Como parte de seu show de coelhinho da Duracell, Zelensky fez um outro gesto bastante estranho. Nesta última segunda-feira, ele visitou Catar acompanhado de uma delegação solene e fechou uma série de acordos não limitados ao gás natural liquefeito, mas incluindo também voos diretos entre Kiev e Doha, o arrendamento ou compra por Doha de um porto no Mar Negro e fortes "laços de defesa militar" - o que talvez seja um encantador eufemismo para uma possível transferência de jihadis da Líbia e da Síria para lutar contra os infiéis russos em Donbass.

Como que por acaso, Zelensky encontra Erdogan da Turquia na próxima segunda-feira. Os serviços de inteligência de Erdogan controlam os substitutos dos jihadis em Idlib, e suspeitíssimos fundos de Qatar ainda fazem parte do quadro. Seria possível afirmar que os turcos já estão transferindo esse "rebeldes moderados" para a Ucrânia. A inteligência russa vem monitorando meticulosamente toda essa atividade.

Uma série de discussões informadas - ver, por exemplo, aqui e aqui - estão convergindo quanto ao que talvez sejam os três principais alvos do hegêmona em meio a toda essa bagunça, antes de chegar à guerra propriamente dita: provocar uma cisão irreparável entre a Rússia e a União Europeia sob os auspícios da OTAN, esmagar o gasoduto Nord Stream 2 e aumentar os lucros da indústria armamentista para o complexo industrial-militar.

A pergunta-chave, então, é como Moscou conseguiria aplicar um golpe Sun Tzu sem ser atraída a uma guerra quente em Donbass.

No terreno, as perspectivas são sinistras. Denis Pushilin, um dos principais líderes das repúblicas populares de Lugansk e Donetsk, afirmou que as chances de a guerra ser evitada são "extremamente pequenas". O franco-atirador Dejan Beric - que conheci em 2015, e que é reconhecidamente um especialista - espera um ataque de Kiev para inícios de maio.

O extremamente polêmico Igor Strelkov, que pode ser chamado de um expoente do "socialismo ortodoxo", um cáustico crítico das políticas do Kremlin, que é um dos muito poucos chefes militares que sobreviveram a 2014, afirmou em termos inequívocos que a única chance de paz é o exército russo assumir o controle do território ucraniano, ao menos até o rio Dnieper. Ele ressalta que uma guerra em abril é "muito provável" e que, para a Rússia, uma guerra "agora" é melhor que uma guerra depois, e que há uma possibilidade de 99% de Washington não lutar pela Ucrânia.

Strelkov tem razão pelo menos quanto a esse último item: Washington e a OTAN querem uma guerra lutada até o último ucraniano.

Rostislav Ischenko, o principal analista russo sobre assuntos da Ucrânia, que tive o prazer de conhecer em Moscou, em fins de 2018, argumenta de forma persuasiva que "a situação geral diplomática, militar, política, financeira e econômica exige terminantemente que as autoridades de Kiev intensifiquem as operações de combate em Donbass".

"Por sinal", acrescentou Ischenko, "os americanos não ligam a mínima se a Ucrânia resistirá por algum tempo ou se ela será destruída em um instante. Eles creem que só têm a ganhar em ambos os casos".

Temos que defender a Europa

Suponhamos que o pior venha a acontecer em Donbass. Kiev desencadeia sua blitzkrieg. A inteligência russa documenta tudo. Moscou imediatamente anuncia que vai usar a plena autoridade conferida pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas para obrigar o cessar-fogo nos termos do Minsk 2.

Em uma questão de 8, ou no máximo 48 horas, as forças russas reduziriam a estilhaços o aparato da blitzkrieg e mandariam os ucranianos de volta a seu cercadinho, localizado a aproximadamente 75 quilômetros a norte da zona de contato estabelecida.

No Mar Negro, por sinal, não há zona de contato. O que significa que a Rússia pode enviar todos os seus submarinos avançados, além da frota de superfície, a qualquer ponto do "lago russo": eles, seja como for, já estão de prontidão.

Mais uma vez, Martyanov dita a lei ao predizer, referindo-se ao grupo de mísseis russos desenvolvidos pelo Novator Design Bureau: "Esmagar o sistema de comando e controle ucraniano é uma questão de umas poucas horas, seja próximo à fronteira ou no estratégico e operacional interior ucraniano. Em termos básicos, a totalidade da "marinha" da Ucrânia vale menos que a salva de artilharia 3M54 ou 3M14 que será empregada para afundá-la. Creio que uns dois Tarantuls serão o suficiente para acabar com ela, em Odessa ou em suas redondezas, e então dar a Kiev, em especial a seu distrito governamental, um gostinho do que são as armas standoff modernas".

A questão absolutamente central, que não pode ser enfatizada o bastante, é que a Rússia não (itálico meu) irá "invadir" a Ucrânia. A Rússia não precisa e nem quer invadir. O que Moscou certamente fará é apoiar a república popular Novorossiya com equipamentos, inteligência, guerra eletrônica, controle do espaço aéreo e forças especiais. Nem mesmo uma zona de espaço aéreo interditada será necessária, deixando clara a "mensagem" de que caso um caça a jato da OTAN se aventure próximo à linha de frente, ele seria sumariamente abatido.

E isso nos traz ao "segredo" aberto, sussurrado apenas nos jantares informais de Bruxelas e nas chancelarias de toda a Eurásia: os fantoches na OTAN não têm colhões para entrar em conflito aberto com a Rússia.

Uma coisa é ter cães ladradores como a Polônia, a Romênia, a gangue do Báltico e a Ucrânia com seu script sobre a "agressão russa" amplificado pela mídia empresarial. Em termos factuais, a OTAN teve seu traseiro coletivo chutado sem a menor cerimônia no Afeganistão. Quando teve que combater os sérvios, em fins da década de 1990, eles tremeram na base. E, nos anos 2010, eles não ousaram lutar contra Damasco e as forças do Eixo de Resistência.

Quando tudo o mais falha, o mito prevalece. Entra em cena o exército dos Estados Unidos, ocupando partes da Europa para "defendê-los" contra - quem mais seria? - aqueles insuportáveis russos.

Essa é a rationale por trás do DEFENDER-Europe 21 anual do exército dos Estados Unidos, sendo realizada de agora até fins de junho, mobilizando 28.100 soldados dos Estados Unidos e de 25 aliados e "parceiros" da OTAN.

Este mês, homens e equipamentos pesados posicionados em três postos do exército dos Estados Unidos situados na Itália, Alemanha e Holanda, serão transferidos para diversas "áreas de treinamento" em doze países. Ah, as alegrias das viagens, sem lockdowns nos exercícios ao ar livre, já que todos foram vacinados contra a covid-19.

Gasodutistão über alles

O Nord Stream 2 não tem muita importância para Moscou. Ele, no máximo, é um inconveniente para o Gasodutistão. Afinal, a Rússia não lucrou um rublo sequer com o ainda inexistente gasoduto no decorrer da década de 2010 - e mesmo assim se deu muito bem. Se o NS2 for cancelado, há planos de redirecionar o grosso dos carregamentos de gás russo para a Eurásia, em especial para a China.

Em paralelo, Berlim sabe perfeitamente bem que o cancelamento do NS2 representará uma grave quebra de contrato envolvendo centenas de bilhões de euros. Para começo de conversa, foi a Alemanha que pediu que o gasoduto fosse construído.

A energiewende (política de "transição de energia") da Alemanha vem se mostrando um desastre. Os industriais alemães sabem muito bem que o gás natural é a única alternativa à energia nuclear. Não lhes agrada muito a ideia de Berlim vir a se tornar um mero refém, condenado a comprar gás de xisto ridiculamente caro do hegêmona - supondo-se que o hegêmona seja capaz de entregar esse gás, uma vez que seu setor industrial de fraturamento hidráulico está em frangalhos. Merkel explicando à opinião pública alemã por que eles terão que voltar a usar carvão ou comprar gás de xisto dos Estados Unidos vai ser um espetáculo digno de ser assistido.
No atual momento, as provocações da OTAN contra o NS2 prosseguem inabaladas - com navios de guerra e helicópteros. O NS2 precisava de uma permissão para trabalhar em águas dinamarquesas, que só foi concedida há apenas um mês. Mesmo que os navios russos não sejam tão rápidos quanto os anteriores, de propriedade da Allseas com sede na Suíça, que recuou, intimidada pelas sanções dos Estados Unidos, o Fortuna russo vem avançando consistentemente, como observado pelo analista Petri Krohn: um quilômetro por dia nos dias melhores, e pelo menos 800 metros por dia. Uma vez que só faltam 35 quilômetros, o trabalho não deve levar mais que 50 dias.

Conversas com analistas alemães revelam um fascinante jogo de sombras na frente energética entre Berlim e Moscou - para não mencionar Pequim. Compare-se isso ao que vem ocorrendo em Washington: os diplomatas da União Europeia queixam-se de que não há absolutamente ninguém com quem negociar as questões referentes ao NS2. E mesmo supondo-se que venha a haver algum tipo de acordo, Berlim inclina-se a admitir que o julgamento de Putin é correto: os norte-americanos "não são capazes de acordos". Basta dar uma olhada no histórico.

Por trás do nevoeiro bélico, entretanto, um cenário vem surgindo: o combo Deep State/OTAN vem usando Kiev para tentar uma ofensiva desesperada de último minuto para enterrar de uma vez por todas o NS2, e assim também as relações entre a Alemanha e a Rússia.

Ao mesmo tempo, a situação vem evoluindo no sentido de um novo alinhamento possível, bem no coração do "Ocidente": Estados Unidos-Reino Unido contra Alemanha-França. Alguns excepcionalistas da anglosfera são certamente mais russofóbicos que outros.

O encontro tóxico da russofobia com o Gasodutistão não terminará mesmo que o NS2 venha a ser concluído. Haverá mais sanções. Haverá uma tentativa de excluir a Rússia do SWIFT, o sistema internacional de pagamentos bancários. A guerra por procuração na Síria será intensificada. O hegêmona partirá para um vale-tudo para continuar criando todos os tipos de provocações contra a Rússia.

Que linda operação balance-o-cachorro para distrair a opinião pública interna da maciça impressão de dinheiro que mascara o colapso econômico que assoma no horizonte. Enquanto o império desmorona, a narrativa é gravada em pedra: é tudo culpa da "agressão russa".

Assista à análise ainda mais completa de Pepe Escobar sobre o tema em entrevista à TV 247:


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