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A Índia perde o controle da pandemia e é um alerta global. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Do IHU, 29 Abril 2021
Por Eustáquio Diniz Alves



"A Índia passa por uma situação assustadora, com pessoas morrendo sem oxigênio e com colapso do sistema hospitalar", escreve José Eustáquio Diniz Alves, demógrafo e pesquisador em meio ambiente, em artigo publicado por EcoDebate, 28-04-2021.

Eis o artigo.

O número diário de pessoas infectadas está se aproximando de 400 mil casos e o número de mortes já ultrapassou de 3 mil vidas perdidas a cada 24 horas.

A Índia chegou a 18 milhões de casos e ultrapassou 200 mil mortes. A taxa de letalidade é baixa, de 1,1%, indicando que, provavelmente, o número de mortes deve ser muito maior do que o registrado.

A Índia começou o ano de 2021 com baixos montantes de casos e de mortes da covid-19 e tinha números menores do que EUA, Brasil e México (considerando os 4 países com maiores volumes de mortes da pandemia). No mês de janeiro, a Índia estava em 4º lugar em número de novas infecções, mesmo sendo o 2º país mais populoso do mundo (quase 1,4 bilhão de habitantes). Mas tudo mudou a partir do mês de março quando um verdadeiro tsunami covídico atingiu a Índia que chegou a uma média móvel de 7 dias de mais de 340 mil casos neste final de abril, conforme mostra o gráfico abaixo do Our World in Data, com as curvas para os 10 países mais populosos do Planeta. A média móvel dos EUA e do Brasil está em torno de 56 mil casos diários. A Rússia tem média de 8 mil, Paquistão, Bangladesh e México em torno de 4 mil e Nigéria e China com menos de 1 mil casos diários. Nenhum país do mundo tinha apresentado média acima de 300 mil casos diários.



Considerando o coeficiente de incidência, os EUA chegaram a registrar mais de 700 casos por milhão de habitantes e o Brasil tem atualmente pouco menos de 300 casos por milhão e a Índia chegou a 240 casos por milhão de habitantes no dia 26 de abril. Mas tudo indica que a Índia irá ultrapassar o Brasil no coeficiente de incidência ainda no mês de abril, conforme mostra o gráfico abaixo também do Our World in Data.



O gráfico abaixo mostra a média móvel de 7 dias das vidas perdidas nos 10 maiores países do mundo, em termos demográficos. Nota-se que os EUA apresentaram média de mais de 3 mil óbitos da covid-19 por dia em janeiro, mas agora em abril apresentam cerca de 700 óbitos por dia. México e Rússia apresentam média de 370 óbitos por dia. Indonésia, Paquistão e Bangladesh apresentam média entre 100 e 200 óbitos por dia. China e Nigéria apresentam números próximos de zero.



O gráfico abaixo, também do Our World in Data, mostra o coeficiente de mortalidade dos 10 países mais populosos e indica que, até o momento, o Brasil é o país que apresentou maiores coeficientes, acima de 12 óbitos diários por milhão de habitantes. EUA e México chegaram a apresentar 10 óbitos diários por milhão. Os outros países apresentaram coeficientes abaixo de 4 óbitos diários por milhão. Mas a Índia se deslocou deste grupo e já apresenta coeficiente de mortalidade de 2 óbitos diários por milhão de habitantes, e apresenta uma curva em ascensão.



O fato é que o número de casos e de mortes está subindo no mundo, conforme mostra o gráfico abaixo da Organização Mundial de Saúde (OMS). Observa-se que o número de casos no mundo subiu durante todo o ano de 2020 e atingiu o pico na semana de 04 a 10 de janeiro de 2021, com mais de 5 milhões de casos em 7 dias. Em fevereiro e março os números caíram, mas voltaram a subir em abril e atingiram o pico na semana de 19 a 25 de abril, com 5,7 milhões de casos em 7 dias.

O número de mortes teve um primeiro pico em abril de 2021, depois uma queda até outubro e uma nova subida até o pico de quase 100 mil vidas perdidas na semana de 25 a 31 de janeiro de 2021. O número de vítimas fatais da pandemia diminuíram em fevereiro e março, mas voltaram a subir e chegaram a 87,7 mil óbitos na semana de 19 a 25 de abril de 2021.

O gráfico abaixo, do jornal Financial Times, mostra que o mundo teve o primeiro pico de 6.985 mortes em meados de abril de 2020, o segundo pico de 14.395 ocorreu em final de janeiro de 2021 e agora o mundo caminha para um novo pico de mortes com o epicentro ocorrendo na Índia e em outros países da Ásia, como Turquia, Irã, Paquistão, Bangladesh, Filipinas, etc. A Europa e as Américas continuam apresentando os maiores montantes de vidas perdidas.



O gráfico abaixo, do Worldometers, mostra que o Irã está passando pela 4ª onda de óbitos e cada onda tem sido mais letal que a anterior. No dia 26/04 aconteceram 496 óbitos em 24 horas no Irã (recorde de toda a pandemia) e os números estão em alta. O exemplo do Irã serve de alerta para o Brasil que está na fase de declínio da 2ª onda, mas que ainda não controlou a pandemia.




O Brasil está em fase de redução do número de casos e de mortes, mas não está imune a uma 3ª onda da pandemia, em especial porque o inverno se aproxima e o pico de 2020 aconteceu exatamente nos meses de junho a agosto. O Brasil teve o mês de abril mais letal de toda a pandemia e já ocupa o 10º lugar no ranking global do coeficiente de mortalidade, ficando atrás apenas de países pequenos de clima frio e de estrutura etária envelhecida. Os primeiros 115 dias de abril (de 01/01 a 25/04/2021) já aconteceram mais mortes pela covid-19 do que em todo o ano de 2020.

Enquanto isto o ritmo da vacinação no Brasil continua lento quase parando. Diretores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) negaram, por unanimidade, pedidos de importação da vacina russa Sputnik V, contra a covid-19, em reunião no dia 26/04. Assim, impasses com a Pfizer e a Sputnik V, associados a problemas operacionais da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), poderão levar o Ministério da Saúde a reduzir drasticamente as estimativas para a campanha de imunização contra a covid-19 dos próximos meses e mais de 200 milhões de doses que seriam entregues até setembro podem ficar comprometidas.

Não resta dúvida que dezenas de milhares de vidas poderiam ter sido salvas no Brasil se houvesse uma política pública adequada, especialmente ações corretas implementadas pelo Ministério da Saúde e pelo Governo Federal. Para investigar os fatos e os erros do Poder Público, o Senado instalou na terça-feira (27/04) a Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI da Covid-19. Durante a sessão, o senador Omar Aziz (PSD-AM) foi eleito presidente, e Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente. Em seguida, Omar Aziz indicou Renan Calheiros (MDB-AL) relator dos trabalhos. Aliados do governo tentaram impedir que Renan assumisse a relatoria. Mas a CPI começa de maneira autônoma e a sociedade brasileira espera que os culpados pela tragédia sanitária e humanitária do país sejam responsabilizados e que o país avance no controle do SARS-CoV-2 que já causou enormes danos em todo o território nacional.

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