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Os Budas de Bamiã: um conto afegão

Do Brasil 247, 5 de Março 2021
Por Pepe Escobar, para o Asia Times; Tradução de Patricia Zimbres, para o 247



Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

Vinte anos atrás, neste mês, o Taleban afegão explodiu os Budas de Bamiã em pedacinhos; eles só podem ser vistos agora como hologramas 3-D, conta o jornalista Pepe Escobar

No início, eles eram os Budas de Bamiã: a estátua do Buda do Oeste, de 55 metros de altura, e a do Buda do Leste, de 38 metros de altura, esculpidas durante décadas, a partir de 550 A.D., nos rochedos de arenito poroso, com detalhes intrincados modelados em argila misturada a palha e revestido de gesso.

Xuanzang, o lendário monge viajante de inícios da dinastia Tang, que chegou até a Índia em busca de manuscritos budistas, os viu em toda a sua glória colorida no século VII.

Então, quando o Islã dominou essas terras altas da região central do Afeganistão, o folclore local dos hazara lentamente os transformou no Romeu e Julieta da cordilheira Hindu Kush.

Eles se transformaram no "Solsol" ("ano após ano" ou, mais coloquialmente, o príncipe de Bamiã) e "Shahmana" ("a mãe do rei", ou, coloquialmente, uma princesa de um reino remoto). Como amantes, eles não podiam se unir como casal neste mundo, então decidiram se transformar em estátuas e postarem-se próximos um ao outro para sempre.

E então, há vinte anos, depois de um milênio e meio de história viva, o Talibã os explodiu.

O assassinato de Romeu e Julieta

Solsol e Shahmana, desde que foram criados, viveram entre os hazaras, que falam dari, um dialeto persa contendo várias palavras de origem mongol e turca. Os hazaras são, em parte, descendentes das tropas de Gengis Khan, que se infiltraram nessas montanhas no século XIII. Os hazaras, que tive o prazer de conhecer principalmente em Cabul, em inícios da primeira década do século - continuam, em essência, mongóis, embora tenham sido linguisticamente persianizados e adotado a antiga tradução agrícola das montanhas iranianas.

Os hazaras são diametralmente opostos aos pashtuns - que tiveram uma etno-gênese extremamente complexa antes de inícios do século XVIII, quando se uniram em grandes federações de tribos nômades. Seu código de conduta - o pashtunwali – é direto e, principalmente, um mecanismo de sanções.

A sanção número um é a morte: trata-se de uma sociedade pobre, onde as sanções são físicas, e não materiais. O Islã acrescentou elementos morais ao pashtunwali. E há também normas jurídicas impostas pela nobreza hereditária - que funcionam como um tapete que une a sala: essas normas vêm dos turco-mongóis.

O estado afegão moderno foi criado em fins do século XIX por Abd-ur-Rahman, o "Emir de Ferro". Ele alcançou esse feito "pashtunizando" a região que era localmente conhecida como o norte do Turquestão. Ele, em seguida, integrou os hazaras das montanhas centrais por meio de sangrentas campanhas militares.

As terras hazara foram abertas às tribos nômades pashtun – compostas não apenas de pastores, mas também de mercadores e empreendedores caravaneiros. Cada vez mais atolados em dívidas, os hazaras acabaram se tornando reféns econômicos dos pashtuns. A saída para eles foi imigrar para Cabul - onde eles, em sua maioria, se tornaram trabalhadores braçais.

O que nos leva ao cerne do problema. Os hazaras e os xiitas. Os pashtuns são sunitas. Os pashtuns veem a si mesmos como os donos do Afeganistão - embora haja fortes divergências internas entre seus grupos. Os pashtuns simplesmente detestam o conceito westphalliano de estado-nação: a maioria deles se vê como um império dentro de um império.

O que implica na marginalização das minorias étnicas - caso elas não consigam encontrar algum tipo de adaptação. Os hazaras, por serem xiitas, foram extremamente marginalizados durante o domínio talibã, de 1996 a 2001.

Em 1994, os talibãs saíram em massa dos madrassas [seminários islâmicos] do Paquistão: a maioria esmagadora deles era composta de pashtuns das áreas rurais entre Kandahar e Paktiya. Eles haviam passado muitos anos em campos espalhados pelas áreas tribais do Paquistão e do Baloquistão.

O Talibã alcançou imediato sucesso por três razões:

1 - a implementação da lei da Sharia.

2 - sua luta contra a falta de segurança, depois de a jihad da década de 1980, instrumentalizada pelos Estados Unidos para dar à URSS "seu próprio Vietnã" (na definição de Brzezinski), e a anarquia dos líderes tribais guerreiros que se seguiu.

3 - porque eles encarnavam a volta dos pashtuns como a principal força no Afeganistão.
Não há reencarnação?

Tudo o que foi dito acima fornece o contexto para a inevitável destruição de Solsol e Shahmana, em março de 2001. Eles eram símbolos de uma religião "infiel". E situavam-se em terra hazara xiita.

Meses mais tarde, depois do 11 de setembro, fiquei sabendo de funcionários talibãs próximos ao embaixador Abdul Salam Zaeef, em Islamabad, que, primeiro, eles explodiram o "pequeno, que era uma mulher", e depois "seu marido", o que implica que os talibãs tinham perfeito conhecimento do folclore local.

O processo de destruição começou com as pernas do Grande Buda: um deles já estava quebrado no joelho, e o outro no fêmur. A demolição levou quatro dias - usando minas, explosivos e até mesmo artilharia. O Talibã obrigou jovens hazara a furarem buracos nas estátuas: os que se recusaram foram fuzilados.

Mas isso não bastava para matar a tradição oral. Até mesmo a geração mais jovem dos hazara, nascida depois da destruição dos Budas, ainda se delicia com a história de Solsol e Shahmana.
Mas será que eles algum dia irão reencarnar como estátuas vivas? Entra em cena a geralmente confusa "comunidade internacional". Em 2003, a Unesco declarou o sítio dos Budas de Bamiã e as cavernas circundantes como "Patrimônio Mundial Ameaçado".

Mas Cabul e a Unesco não conseguem chegar a uma decisão final. Ao que parece, Solsol não será reconstruído, Shahmana talvez seja. De vez em quando, eles ressuscitam como hologramas em 3-D.

O que ocorreu até agora foi um "trabalho de consolidação no nicho do Buda do Leste", concluído em 2015. Os trabalhos no nicho do Buda do Oeste começaram em 2016. Um Grupo de Trabalho de Especialistas nos Bamiãs, composto da administração em Cabul, de especialistas da Unesco e de doadores, a maioria deles alemães e japoneses.

Ishaq Mawhidi, o diretor do Departamento de Cultura e Informação de Bamiã tem certeza de que "90% das estátuas podem ser reconstruídos com os fragmentos dos escombros", somados a fragmentos de estátuas menores atualmente preservados em dois armazéns localizados no sítio.

O Ministério Afegão da Cultura diz, com razão, que o trabalho de reconstrução exigirá uma equipe tremenda, incluindo estudiosos do budismo, arqueólogos especializados em arte gandhara, historiadores, etnógrafos, e historiógrafos especializados nos primeiros séculos do primeiro milênio no Afeganistão.

Tudo dependerá, em última análise, de os doadores abastados de Berlim e Tóquio se disporem a financiar o trabalho - e justificar os custos, levando em conta que o governo central de Cabul deixou as terras hazara com estradas e eletricidade bastante precárias.

É sempre crucial lembrar que a explosão dos Budas de Bamiã é um caso grave de destruição deliberada do patrimônio cultural da humanidade - juntamente com outros casos chocantes ocorridos na Síria, no Iêmen, no Iraque, na Líbia e em Mali. Todos eles se conectam direta ou indiretamente às causas e consequências das Guerras Eternas e seus desdobramentos (nunca se esqueçam de que o Talibã, no início, foi abertamente cortejado pelo governo Clinton).
O Buda de Dushanbe

No final da história, não cheguei a ver Solsol e Shahmana. O Talibã não dava permissão de viagem para estrangeiros, quaisquer que fossem as circunstâncias. Depois do 11 de setembro e da expulsão do Talibã de Cabul, eu estava negociando um passe livre com combatentes hazara, mas então algo maior aconteceu: o suborno de um comandante pashtun para levar nosso pequeno grupo a Tora Bora para assistir o Show Imperial B-52 contra Osama bin Laden.

Em vez de Solsol e Shahmana – de pé em seus nichos ou estilhaçados pela explosão - eu acabei por conseguir ver coisa ainda melhor - o Buda reclinado de Dushanbe.

O Afeganistão pode ser o "cemitério dos impérios"- o último ato sendo encenado neste exato momento. E, em certo sentido, um cemitério de Budas. Mas não o Tajiquistão vizinho.

A saga do Buda Dushanbe foi publicada pelo Asia Times naqueles dias estonteantes do 11 de setembro. Ela aconteceu enquanto meu fotógrafo Jason Florio e eu estávamos já há dias esperando um helicóptero para nos levar ao vale de Panjshir, no Afeganistão.

Dezoito anos mais tarde, tal como em um conto de Jorge Luis Borges, o círculo se completou antes de eu iniciar a viagem pela Rodovia Pamir, em fins de 2019. Fui ao mesmo museu em Dushanbe, e lá estava ele: o "leão adormecido" de 13 metros de comprimento, encontrado no mosteiro budista de Ajinateppa, repousando sobre almofadas, em um glorioso paranirvana, e totalmente restaurado com a ajuda de um especialista do Museu Hermitage de São Petesburgo.

Em algum lugar das esferas desconhecidas, além do espaço e do tempo, Solsol e Shahmana estarão benevolamente sorrindo.

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