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“Mãe, o futuro é real?”

Como responder à pergunta de uma criança em pandemia? A paralisia causada pelo medo e pela espera, num sistema que cria desejos e vende a saciedade, só será superada por uma revolução afetiva. “Não, filho, no capitalismo não há futuro”.

Do OUTRASPALAVRAS, 12/03/2021


Por Veridiana Zurita
Ilustração: Sara Wong

Era mais um dia comum. Dia comum da cotidianidade pandêmica de quem pode ficar em casa. Dia comum de uma mãe em casa com seu filho já há mais de um ano sem escola. Mais um dia sem saber ao certo quando a pandemia acaba, se acaba, como acaba e o que quer dizer seu fim — algo sempre começa depois. Era mais um dia comum de “Brasil na pandemia”, um ano negacionista como projeto genocida e já com produção de uma variante do vírus a la tropical. Era mais um dia comum sem saber quando o bolsonarismo acaba, se acaba, e o que quer dizer seu fim – algo sempre começa depois. Meu filho se revira no sofá, aquele movimento de criança que tem direito (ou privilégio) do ócio, aquele corpo que vai virando de ponta cabeça pra ver o teto virar chão e o chão virar teto. Ali, com o presente invertido ele me pergunta “Mãe, o futuro é real?”

#coleraalegria

Se aquela pergunta fosse feita em qualquer outro momento histórico eu responderia (talvez) com sorriso acolhedor “Ah, filho, não se preocupe. Viva o presente”. Mas, a pergunta foi feita em dezembro de 2020. Ano que marcou todas as gerações (suas raças, classes e gêneros) com intensidades bem diferentes, mas que marcou (e continua marcando) todas. Marca, fissura, ferida, que expôs todos os corpos a algum tipo de castração, algum tipo de cerceamento, algum tipo de limitação em um sistema que promete o prazer ilimitado, em um mundo celebrado pela imposição do gozo como afeto funcional do capitalismo. Gozo como dever. O mundo onde você pode tudo, só que não. Afinal, quem é que pode?

Não soube como responder. Me atrapalhei toda na tentativa de traçar um tempo linear entre passado, presente, futuro. Afinal, terá o vírus e sua pandemia um começo, meio e fim? Gaguejei em todas as contradições entre o abismo que se abre com a pandemia atual e a normatividade materna de proteger um filho do futuro de sua geração. Minha gagueira não era só sobre a pandemia mas, pela impossibilidade de separar seu dinamismo do governo que nos desgoverna. Afinal, teria o bolsonarismo um começo, meio e fim? A pergunta era o sintoma de um ano onde pra toda limitação do universo infantil havia uma resposta que prometia um futuro que, na verdade, mais do que nunca, não sabemos qual será, ou ainda que sabemos que será consequência direta desse presente e de como conseguimos atuar nele. “Mãe, podemos…?”, “Filho, depois da pandemia a gente faz isso”. E como um amigo bem me lembrou, a resposta “depois da pandemia” só desvia a atenção da criança sobre a demanda do presente e a ameaça que sufoca o horizonte de futuro. E as crianças percebem os desvios. Todos eles.

O abismo estava posto na pergunta assim como na não-resposta. Desisti. Virei de ponta cabeça no sofá e olhei o presente invertido com ele. Em silêncio. Essa pergunta me tombou. Fui nocauteada por ela. Fui enquadrada, como parte de uma geração implicada no estado das coisas no presente. Caí. Gaguejei. A pergunta já era uma resposta em si.

Mãe, o futuro é real?
O futuro é real?
Futuro é real?
É real?
Real?
?

Já não bastava uma percepção daquela pergunta, a partir de uma perspectiva pessoal, de uma relação materna individualizada do caos coletivo e muito menos de uma consideração sobre a passagem do tempo em abstrato, como se descolado de seu desencadeamento histórico e de sua localização geopolítica. Seria preciso perceber a pergunta enquanto enunciação que transborda a perspectiva de quem a formulou (uma criança de 5 anos, que até agora se reconhece enquanto menino, branco e com o privilégio da quarentena, no Brasil). Seria preciso encarar a pergunta enquanto enunciação-antena de um país em depressão em um mundo que colapsa. As crianças são mesmo esponjas. Não, meu filho, no capitalismo não há futuro.

A pergunta grita dois afetos cruciais pro tipo de ideologia que nos gerencia. Medo e esperança. Dois afetos que catapultam pro futuro nossa paralisia em lidar com o presente. Ter medo ou esperança nos coloca na espera de um futuro que nunca chega e ainda assim é capaz de paralisar o presente. O medo de algo que nos ameaça e a esperança de que tal ameaça será superada. O medo como afeto negativo. A esperança como afeto positivo. Ambos paralisando nosso presente por um futuro que não chega. Mas a paralisia não é somente em relação ao presente ela é sintoma de um passado que não foi reintegrado pelos sujeitos como parte de sua própria história, individual e coletiva, coletiva e individual, individual e coletiva, coletiva e individual (taí uma relação afetiva importante). E nessa paralisia, é como se o passado que nos trouxe até aqui não importasse e o que nos resta é o medo que gerencia o presente e a esperança como solução de um (não)futuro.

O que assistimos durante a pandemia em nível global é uma disputa entre piores e melhores soluções de um problema. E o Brasil recebe a pior; genocídio como solução. O que queremos é a solução, claro. Mas o que não podemos acessar e expor é a origem do problema. Tanto do vírus quanto do bolsonarismo. Como percebemos esses vírus e suas pandemias são determinados também pela forma como nossos afetos são gerenciados antes, durante e pós-crise. (Se é que há um pós). Medo e esperança. Esperança e medo. Medo e esperança. Esperança e medo. Afetos que se retroalimentam.

Reinvindicar os afetos enquanto arma política antissistêmica é mobilização urgente se quisermos imaginar-atuar por um horizonte revolucionário. E queremos?

A revolução precisa ser pelo afeto. Uma revolução afetiva. Pensou em pessoas se abraçando ou um cenário revolucionário onde somos carinhosos e fofinhos uns com outros!? Não é isso. Nada contra o carinho, aliás fundamental em um momento de mundo onde a indiferença impera e o distanciamento social é imprescindível, mas trago o afeto pra mobilizar um horizonte revolucionário de outro lugar. Não diz respeito a nossos sentimentos e emoções (especialmente, não, em tempos de representação emocional via emojis) mas a como percebemos o outro, seja ele humano ou não humano. Como somos afetados e afetamos. Como nos mobilizamos e como somos mobilizados pra afetar e pra sermos afetados. Uma revolução afetiva tem a ver com uma revolução de nossas percepções. Precisamos de uma revolução dos afetos e de como eles circulam. Os afetos não circulam sozinhos mas são postos em circulação como armas eficientes pra manutenção ideológica do capitalismo. Será preciso desativar essa circulação e colocar outra em movimento se quisermos uma revolução que dê conta de mobilizar nosso inconsciente pra fora de uma paralisia do desejo, o desejo do desejado.

A circulação dos afetos mobiliza nossa socialização. Nossa socialização mobiliza a circulação dos afetos. Medo ou esperança não brotam em mim como se eu fosse uma ilha (mesmo uma ilha não é completamente ilhada), eu não sinto esses afetos sozinha mas sou interpelada pelos circuitos que colocam tais afetos em movimento. É uma relação “afetiva”, os afetos circulam em mim e através de mim, eles circulam exatamente pela capacidade de afetarmos e de sermos afetados por eles e através deles. Afetamos e somos afetados. Um vetor com sentido duplo. É como se os afetos existissem enquanto potência através de um processo análogo ao da viralização de conteúdo nas redes sociais. Taí seu perigo e sua potência. A questão é como somos mobilizados pelos afetos e o que mobilizamos com eles através das formas de socialização que vão sendo impostas no capitalismo. Pra desativar a circulação dos afetos que nos torna agentes de nossa autossujeição e ativarmos outra circulação, precisaremos fortalecer formas de socialização contra-hegemônicas. Desativar as formas de socialização que nos alienam uns dos outros e imaginar, criar, ativar, tornar visíveis e fortalecer aquelas que nos implicam uns aos outros. Pra desativar a circulação dos afetos que nos torna agentes de nossa autossujeição, será preciso mobilizar o desejo por outros modos de vida fora do capitalismo.

O capitalismo não é meramente um sistema econômico, mas um modo de vida, um organismo em si, que se alimenta da circulação dos afetos pra produção do tipo de sujeito que precisa pra ser redimensionamento. E em sua versão neoliberal produz sujeitos neoliberais, orientados e motivados por uma racionalidade que prioriza o indivíduo enquanto agente-motor, produtor e produto, da hegemonia de um sistema-mundo. E então, isso tem tudo a ver com a economia libidinal que gerencia nossos corpos, ou seja, em como nossos desejos e prazeres são canalizados de forma produtiva e eficaz dentro do sistema.

É através desse redimensionamento do capitalismo que a prescrição dos desejos (desejo do desejado) se intensifica como forma de produção de seus sujeitos. É como se o desejo não fosse um efeito do sujeito mas, o sujeito um efeito do desejo, não são os indivíduos que desejam, mas os desejos são modos de estruturação e de produção da vida social. É a reprodução da vida social acontecendo a partir de uma circulação determinada dos desejos.

E o que determina essa circulação do desejos é seu gerenciamento de forma linear entre o sentimento de falta e a tarefa de saciá-la.

Para toda falta há um objeto que promete supri-la. E você é o principal objeto. “Acredite em você. Não há falta possível. Você é capaz. Se esforce. E se falhar a culpa é sua.” E aqui quando eu falo em falta, não tô falando de faltas básicas pra sobrevivência de qualquer sujeito, tô falando de uma falta existencial, do “mal-estar” em uma civilização que produz as angustias que promete eliminar. Então, o que proponho não é uma entrega ao mal-estar ou à tentativa de não lidar com nossas angustias, mas um convite pra mobilizarmos nossas subjetividades como fluxos que furem e resistam a lógica de chupetas eficazes e fetichizadas. E esses fluxos só podem resistir e furar o organismo-capital se forem coletivos.

O incessante estímulo de desejos (supríveis) — seja na busca do amor perfeito ou na compra do carro veloz, seja na conquista do posicionamento profissional ou na construção da sua identidade – mobilizam a subjetividade em circuitos onde a manutenção ideológica do capitalismo acontece. A subjetividade-modelo no capitalismo; sente falta, deseja e conquista. O problema não é sentir falta mas como essa falta é transformada em isca que nos mobiliza a um processo de autossujeição.

Se há uma promessa de que algo possa suprir minha falta, me colocarei na tarefa dessa conquista, crente de que tal falta cessará, principalmente através do meu esforço individual, tão fundamental pra sedimentar no inconsciente coletivo de que cada indivíduo é “protagonista de sua própria história”, ou como replicado e viralizado em posts nas redes sociais “Serei a heroína de minha própria história”. Sua história é sua e você é merecedora de suas conquistas. Só que não, sua história não é sua, não somente porque já prescrita pela partitura de desejos que precisa seguir (o que desejar e como saciá-los), mas porque o desencadeamento da sua história afeta e é afetado por outros, mesmo você heroica acreditando ser merecedora de suas conquistas em troca do seu esforço individual. Você não é proprietária de sua história.

E como se não bastasse ser um indivíduo vitorioso, sua vitória precisa ser heroica. Esse deslocamento do lugar do herói como figura compartilhada por muitos agora pertencente somente e exclusivamente a você mesma (mesmo que seu heroísmo seja uma réplica do mesmo) também é crucial pra que esse dinamismo dos desejos siga pulsante. É essa narrativa de uma vida heroica, repleta de faltas supridas e conquistas realizadas como quem confere uma lista de mercado feita, que passa a motivar nosso desejo. Desejo de alcançar e caber nessa mesma narrativa que nos sujeita a reproduzi-la como modo de vida. Essa narrativa do “eu-herói” é a guinada do capitalismo neoliberal enquanto mecanismo motivador da vida e de seu sentido. O “eu-herói” é a racionalidade central do neoliberalismo e que encontra em seus sujeitos-produtos-produtores a dinâmica perfeita pra que aquilo que nos sujeita não seja mais externo a nós mas internalizado em nós. É essa a chave de ouro do capitalismo neoliberal, abrir e fechar nossas portas inconscientes, a hora que for preciso e por quanto tempo necessário.

Se até o século XX os aparatos coercitivos externos as pessoas eram utilizados pra funcionalizar sujeitos dentro do sistema hegemônico, é no final desse mesmo século que a criação de um novo tipo de sujeito, o “sujeito empresarial”1, dá conta de internalizar psiquicamente os processos de coerção e fortalecer a hegemonia do capitalismo. No capitalismo neoliberal somos nós mesmos agentes de nossa autossujeição.

Essa intensificação dos sujeitos como próprios agentes de sua captura é a virada neoliberal que dá conta de redimensionar o capitalismo com eficácia. Não bastou tirar o Estado, foi necessário um outro tipo de Estado. E nesse sentido o neoliberalismo não almeja um Estado mínimo, mas um Estado que organiza e mobiliza os sujeitos a internalizar sua organização psíquica a partir da ideia de empreendedorismo e competitividade. Vença!

O Neoliberalismo elege o Estado enquanto gerente que motiva o tipo de liberdade competitiva do empreendedorismo. Ser herói é vencer sozinho e vencer o outro. Seja ele o vizinho que parece gozar mais com o carro veloz, seja a mulher que ameaça humilhar a masculinidade quando alcança um lugar de poder, seja uma pessoa trans/travesti que expõe as opressões da cisgeneridade quando entra na sorveteria, seja a homossexualidade que ativa os lugares mais reprimidos da heteronormatividade, seja o estrangeiro que enfraquece a nacionalidade intacta, vencer o outro não é somente ganhar uma corrida mas principalmente eliminar aqueles que interrompem a construção de um eu-herói hegemônico. O sujeito neoliberal é também um fiscal.

O sujeito empreendedor de si mesmo, ou o sujeito como empresa é produto bem sucedido do tipo de gestão psíquica que a racionalidade neoliberal opera. É através do entendimento de que a vida psíquica de seus sujeitos precisa ser produzida — e não somente manipulada — que o neoliberalismo redimensiona o capitalismo através de um processo de internalização da sujeição social. Trata-se de uma racionalidade que já ultrapassa limites politico-ideológicos entre esquerdas, direitas e centros. É o empreendedorismo do eu, o mito-vitorioso, dando conta de tudo e de todes. O “vitorioso-ativista, aquela pessoa que através de seu esforço individual superou tudo e mais o preconceito e conquistou o respeito da sociedade”2 já vai se instalando como mito que “atrapalha o projeto político de libertação dos grupos oprimidos”. É através da racionalidade neoliberal que “desejamos”, produzimos e gerenciamos a própria estrutura da nossa dominação. Não somente porque individualizamos as conquistas mas porque enfraquecemos a coletividade das lutas.

Se o capitalismo sempre mobilizou nossos afetos enquanto organizadores de uma circulação funcional de nossos desejos, no neoliberalismo essa circulação ganha um enquadramento ainda mais duro e prescrito. Freud nos ajuda a entender que o afeto está em circulação e que sua representação em sentimentos e emoções se desloca, muda, até se ancorar na representação mais adequada (mesmo que momentaneamente) pelas associações que cada sujeito faz no processo de reconstituição com sua história, que transborda a história individual e é reintegrada em relação a uma história que também é coletiva. Há ainda uma velha ideia de Freud sobre o que ele considerava uma “falsa conexão” entre o afeto e sua representação (como o nomeamos). O sintoma nasceria de uma “união desigual” entre o afeto e uma representação. O processo de análise seria então um processo de sintonizar os dois. Não se trata de encontrar uma verdade definitiva para o que ele chamou de “falsa conexão” mas de abrir cadeias associativas no processo de formulação do sujeito sobre seus afetos e aquilo que os representa.

No capitalismo neoliberal essas cadeias associativas entre afeto e sua representação são vias silenciadas, porque o afeto se torna subordinado a um tipo de desejo prescrito, já representado como sentimento de começo, meio e fim. Sinto-uma-falta-que-mobiliza-meu-desejo-e-busco-saciá-la ou ainda sinto-uma-ameaça-no-outro-que-mobiliza-meu-desejo-e-busco-eliminá-lo são equações precisas pra normalização de um tipo de subjetividade: aquela que busca saciar a falta – ou eliminar a ameaça — através de representações prescritas do afeto e gerenciadas a partir de uma lógica quase que (se não totalmente) empresarial. Basta planejar bem, determinar uma meta (ou ameaça) e conquistá-la (ou eliminá-la). E nessa polarização extrema, que afunila todas as possibilidades associativas entre afeto e suas representações, somos convocados a todo momento pelo desejo de saciar a nós mesmos ou a eliminar aquilo que nos ameaça. Saciar o eu eliminar o outro. E se o sintoma já aparece em Freud como consequência dessa “falsa conexão” – gerência coercitiva entre nossos afetos e como devemos representá-los – imaginemos como a proliferação acelerada de todos os sintomas, transtornos e fobias contemporâneos já dão conta de diagnosticar não somente seus sujeitos, mas especialmente uma racionalidade que os enclausura entre afetos e representações impostas, imutáveis.

É nessa dinâmica — a de que pra toda e qualquer falta há uma chupeta possível ou pra toda ameaça um botão deletar, excluir, eliminar, bloquear, cancelar — que o sujeito no capitalismo neoliberal torna-se subordinado a um tipo de identificação com a própria ideia de si mesmo. A ideia de sujeito, e uma identidade que precisa ser conquistada, é em si narrada como propriedade individual. O indivíduo como proprietário de suas qualidades3. A conquista do sujeito à medida que se torna um indivíduo é como a colonização do próprio eu antes mesmo que esse materialize, formule, represente suas experiências e relações. Antes mesmo que eu perceba minha existência (sempre na relação social; de classe, de raça, de gênero, geracional, geográfica, histórica) já tenho uma ideia de como ela deva ser, e isso inclui as faltas que terei, os desejos que sentirei e as conquistas que me legitimarão.

Conquistamos uma ideia de nós mesmos, como se proprietários de um plano de negócios a ser efetivado. Virtualizamos uma ideia de sujeito a partir de contornos já desenhados, direcionamos nossas relações sociais de acordo com a equação pré-determinada dessa ideia e boom: tiramos uma selfie. Mas não há escapatória, por detrás de cada selfie há um desamparo velado pelo “sorriso de gelo ancorado nos dentes” (Hilda Hilst). E essa conquista vai sendo reencenada, coreografia que viraliza, reconhecida e legitimada enquanto indivíduo que pertence ao sistema que o subordina, proprietário de suas próprias qualidades, sejam elas com filtro de aplicativo ou não. E através dessa “deprimente performance da identidade neurótica”4 internalizamos cada vez mais a racionalidade neoliberal. Quem eu sou no mundo encerra qualquer possibilidade de nos perguntarmos sobre como atuamos no mundo. Essa construção de um indivíduo autosuficiente, produtor de si e proprietário de si, é o ápice da fetichização de chupetas pra nossas faltas. Você é a sua própria chupeta, produza-se.

É ai que mora o nó proposto pela ideologia segundo Zizek. Pra ele a noção Marxista de ideologia — de que se trata de uma estrutura que encobre os mecanismos de poder que operam a realidade e que, portanto, desmascarar o aparato ideológico seria como trazer consciência à falsa consciência através da crítica sobre tal manipulação – já não dá mais conta de desvendar “o verdadeiro sentido” da ideologia hoje. Estamos submersos em um outro tipo de dinâmica ideológica onde a racionalização e conscientização ativa sobre sua manipulação não dão mais conta de mobilizar um despertamento radical dos sujeitos subordinados a ela. Apostar todos os nossos esforços na racionalização e conscientização sobre o aparato ideológico seria não levar em conta a dinâmica libidinal que sustenta a ideologia em si e sua “efetividade no mundo atual”. Já não se trata mais de obedecermos protocolos pré determinados na sociedade que não sabemos que obedecemos. Agora sabemos que obedecemos e mesmo assim o fazemos porque nossos desejos estão implicados nessa obediência. Obedecer passou a nos motivar. Essa dinâmica tóxica entre sujeição e motivação é originária no capitalismo e se intensifica no seu redimensionamento neoliberal. A relação entre sujeição e amor é um dos pilares de Freud na “Psicologia das Massas” e “Mal-estar na Civilização”. A ideia de que não existe sujeição sem amor e de que estabelecemos uma forma de amor fantasmática (porque talvez já vivida) em relação aquilo que nos sujeita. Só podemos entender a sujeição quando entendemos como as pessoas participam do processo de servidão, como são agentes nesse processo de servidão.

Nesse sentido , fica ainda mais evidente como os processos de coerção só funcionam quando são internalizados no sujeito, os processos de coerção externa do Estado não bastam quando são somente externos, eles precisam ativar os processos internos pra serem eficientes.

O conceito de super-eu (instância moral da consciência) diz respeito a isso, o olhar que me sujeita deve estar dentro de mim mesma. É assim que o poder produz seus sujeitos, criando em nós a necessidade de amar o poder, esperamos continuamente algum tipo de reconhecimento daquilo que nos sujeita, seja na espera do like ou na validação do líder que nos reprime.

É através da internalização das coordenadas ideológicas que nosso inconsciente vai sendo também amortecido a ponto da conscientização sobre o aparato que nos sujeita não ser o bastante pra nos mobilizar pra fora dele. A ideologia atua ativamente no nosso imaginário e no nosso inconsciente de forma dialética. Ou seja, nosso imaginário e nosso inconsciente são pré-determinados pelas coordenadas ideológicas e ao mesmo tempo (re)produzem tais coordenadas.

Se nosso desejo é prescrito pelas coordenadas afetivas no capitalismo (como nossos afetos são mobilizados) nosso inconsciente é alimentado por essas coordenadas produzindo “respostas” e sintomas. O inconsciente produz os sintomas que o próprio sistema que os gera promete “superar”, “curar”, “solucionar”. Mas o que as promessas de superação do sintoma parecem encobrir é o gerenciamento real que o sistema opera. O que o sistema gerencia é a constante mobilização de nossos sintomas.

Como nossos sintomas individuais e coletivos são mobilizados em momentos de crise aguda, é fundamental pra entendermos como o afeto pode entrar no horizonte de uma revolução antissistêmica, anticapitalista, antirracista, antipatriarcado, anticolonial.

O que a extrema direita parece entender muito bem é como instrumentalizar esses sintomas em fluxo de revolta. A extrema direita no Brasil e no mundo navega na mobilização de desejos pra manutenção do poder e suas estruturas de opressão. Se a extrema direita vai mobilizando o desejo fascista, convocando seus sujeitos à dança mórbida entre repressão e desejo, a direita e a esquerda moderada mobilizam seu desejo de centro convocando seus sujeitos a dança requentada da social-democracia. A esquerda radical também precisa mobilizar seus próprios desejos, convocar seus sujeitos à uma dança que dê corpo a uma revolta por formas de vida radicalmente fora do capitalismo. Não se trata de liberar o desejo como forma de emancipação mas de entender como ele funciona na nossa sujeição. E pra “entender” precisaremos abrir canais de acesso no inconsciente dos sujeitos animados por um horizonte revolucionário. Não será efusivo, bombástico, catártico como uma revolução roteirizada em Hollywood. Talvez essa seja a primeira imagem que precisamos ressignificar no nosso imaginário, o de uma revolução extasiante como uma batalha entre gladiadores, onde no dia seguinte acordamos em um mundo melhor e justo.

A construção de um horizonte revolucionário pelo afeto precisará atuar de forma micro e macro-política. E esse é um trabalho intermitente e longo. Precisaremos atuar no enraizamento que o capitalismo acelera em seus sujeitos e que nos torna não somente parte do sistema mas o sistema em si. Nossos fluxos mais libidinais, mais inconscientes já respiram capitalismo em nós. Ou ainda, o realismo do capitalismo foi internalizado de tal forma que é ele, como se fosse um sujeito em nós, que respira as custas de nossa própria exaustão. Ativamente inertes, compartilhamos “a sensação generalizada de que não apenas o capitalismo é o único sistema político e econômico viável, mas também de que agora é impossível até mesmo imaginar uma alternativa coerente a ele” (Fisher).

De fato é “mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo” (Zizek) porque imaginar o fim de um sistema que pulsa no nosso mais profundo inconsciente significa imaginar o nosso próprio fim.

Mas o inconsciente é mais alargado do que o capitalismo pode dar conta. Nossos sintomas expressos em transtornos não são simplesmente indicadores do nosso “adoecimento” mas termômetros de resistência ao sistema que nos adoece. O sofrimento psíquico também é uma figura de resistência, os transtornos que nos acometem também são expressão de uma revolta social, de corpos que já não aguentam mais. São os transtornos nosso canal de acesso. E pra acessar precisaremos de escuta.

Precisaremos fortalecer espaços de socialização que mobilizem nosso desejo pela escuta e pelo cuidado. Um tipo de cuidado que acorde no nosso inconsciente a presença do corpo social como um superorganismo, onde cuidar do outro é cuidar de si, quase como os fungos responsáveis pela transmissão de nutrientes entre as raízes das árvores que trabalham juntas na sustentação da floresta. Precisamos de organização política pra fortalecer esses fungos. Nesse momento somos mais como as árvores plantadas em áreas de monocultura, que crescem rápido pra serem logo cortadas e vendidas e que no curto tempo de vida se tornam eretas, até bonitas, mas não tem ideia de onde estão já que as raízes não têm tempo pra crescer o bastante, compartilhar nutrientes entre si e sustentar a floresta comum. Na monocultura não há floresta. Na monocultura há árvores isoladas. O tempo de produzir a matéria-prima é curta e precisa corresponder a duras metas. Assim estamos nós, acelerados pela demanda de produzir-mos a nós mesmos e pressionados a corresponder duras metas. Até lá a floresta já morreu ou nem mesmo chegou a existir. Mas há nichos de florestas fortes, organizadas e sustentadas pelas redes interconectadas no solo e pelas copas e galhos no céu. E se suas raízes são um inconsciente coletivo vivo, façamos túneis pra acessar essa rede. São essas mesmas florestas que atuam de forma solidária, fornecem nutrientes pras árvores mais fracas articulando um sistema de distribuição onde as que têm mais dão mais pras que tem menos. São essas florestas vivas e organizadas na escuta daquilo que é mais periférico ao seu centro porque tudo fortalece e dá sustentação ao organismo todo. E quando os sintomas que podem causar adoecimento em uma das árvores aparecem — o que na floresta significa seu adoecimento como um todo — convocam através de seus odores outras espécies pra dar conta da praga. Quando uma lagarta ameaça uma árvore, ela convoca um vespa que deposita seu óvulo na lagarta e a mata por dentro.

O que vivemos agora tanto com o vírus e sua pandemia quanto com o bolsonarismo e seu desejo fascista é sintoma de colapsos que compartilhamos. Compartilhamos não somente suas consequências, que infligem diretamente nossas vidas, mas compartilhamos a responsabilidade coletiva e histórica sobre como vamos lidar com esses sintomas. Então nos mobilizemos por um cuidado intensivo nos micro e macro espaços da esfera política que extrapola a institucional (mas que também precisa dela) e permeia todos os tipos de organização política. Organize-se, faça túneis e alcance a floresta viva mais próxima ou distante. É momento de ficar em casa pra quem pode porque isso também necessita cuidado coletivo. Mas enquanto estamos em casa (ou fora dela), mobilizemos caminhos pra nossas vespas, pra que quando elas cheguem depositem seus óvulos na lagarta e a matem por dentro.

1 Pierre Dardot e Christian Laval, “A nova razão do mundo. Ensaios sobre a sociedade Neoliberal” (Boitempo 2016)

2 Megg Rayara de Oliveira. “Nem ao centro nem à margem: Corpos que escapam às normas de raça e de gênero” (Devires, 2020).

3 Vladimir Safatle. “O circuito dos afetos. Corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo” (Cosac Naify 2015)

4Mark Fisher “Realismo Capitalista. É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?”


(Autonomia Literaria 2009)


VERIDIANA ZURITA
Mãe, artista, pesquisadora e feminista. Vive atualmente na zona rural no interior de São Paulo e desenvolve seu trabalho através de projetos multidisciplinares que possam suspender, torcer, desfazer e re-imaginar papeis sociais. Para conhecer alguns de seus trabalhos acesse: http://www.veridianazurita.com/

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