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Laymert Garcia dos Santos: Bolsonaro está perdendo a batalha da narrativa

Para sociólogo, o ex-capitão está acuado pela percepção da população de que sem vacina não sairá do “pesadelo”, e pela entrada de Lula no cenário, inclusive negociando com os russos pela Sputnik V
O sociólogo Laymert Garcia dos Santos

Do RBA, 12 de Março, 2021
Por Eduardo Maretti, da RBA



“Bolsonaro fez uma aposta de ser contra a vacinação e está perdendo”, diz Laymert

São Paulo – A aposta do presidente Jair Bolsonaro contra lockdowns, vacinas, a ciência, máscaras e as medidas de prevenção para evitar a disseminação do Sars-Cov-2, o vírus que provoca a covid-19, é conhecida. Entre incontáveis declarações, já afirmou em vídeo que a doença era uma “gripezinha” e que o Brasil é “um país de maricas” , por exemplo. Mas essa narrativa com que ele e seu séquito tratam a pandemia, para defender unicamente que “as pessoas precisam trabalhar”, está se saindo vencedora? “Não. Não me parece que ele está ganhando. Bolsonaro está perdendo a batalha da narrativa. Fica cada vez mais evidente para a sociedade a necessidade da vacinação, por exemplo. Tanto que nos últimos dois dias ele está esboçando uma tentativa de mudar de rumo quanto às vacinas”, diz o sociólogo Laymert Garcia dos Santos. “Está evidente para a população que ela precisa se vacinar para sair do pesadelo.”

Para Laymert, não por acaso, o movimento do chefe de governo se tornou visível depois que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se recolocou no cenário nacional, agora “legitimado pela inocência”, com a decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, de anular as condenações no âmbito da Lava Jato, que já teve até recurso da PGR recusado pelo próprio Fachin. Há três meses, Lula se reuniu por videoconferência com Kirill Dmitriev, diretor do Fundo de Investimento Direto Russo (RDIF), que financia a vacina Sputnik V. A informação é da colunista Bela Megale, em O Globo, nesta sexta-feira (12). O diálogo busca facilitar um acordo pelo imunizante para os estados do Nordeste.

Os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff enviaram uma carta ao presidente chinês, Xi Jinping, tentando contornar os entraves diplomáticos que o negacionismo do governo e seu “chanceler”, Ernesto Araújo, sempre colocaram na relação com a China e sua vacina, a CoronaVac.

Bolsonaro x governadores x covid


O atual presidente vem sistematicamente jogando a culpa da crise econômica e dos efeitos negativos do lockdown nas costas de governadores e prefeitos. Mas, para o sociólogo, a mobilização dos governadores para trazer as vacinas contra a covid acuam Bolsonaro ainda mais. E isso, mesmo se Pazzuelo tentar capitalizar o resultado do trabalho a favor do chefe. “É cada vez mais claro para todo mundo que ou tem vacina, ou não tem economia”, diz.

Laymert avalia que tem ouvido a defesa da vacina e de lockdown feita por pessoas como pequenos comerciantes. Bolsonaro, em sua opinião, tem medo de ficar com o ônus, mas está cada vez mais claro à sociedade que sempre trabalhou contra o bom senso. “E agora entrou o Lula, fazendo o papel da pessoa que está buscando a vacina e de mediador para a compra da Sputnik V, já que a política oficial não consegue ou não quer.”

Acuado, o ex-capitão volta a fazer ameaças. “Como é fácil impor uma ditadura no Brasil”, disse ontem. “Ele faz isso para tentar contrabalançar as dificuldades em que está. Pazzuelo está negociando nas costas dele. Já sentiu que não pode continuar nessa linha, porque já está sendo responsabilizado judicialmente”, conta Laymert.

Auxílio emergencial

O auxílio emergencial é outro calcanhar de Aquiles para Bolsonaro, já que seu governo e o ministro Paulo Guedes (Economia) nunca foram a favor do benefício, para reduzir os impactos da covid sobre a população vulneráve. O presidente o aceitou e aceita por pressão do Congresso, da oposição e da sociedade civil. “Não querer o auxílio é coerente com a política genocida dele”, observa Laymert. “Bolsonaro não quer responsabilidade nenhuma, mas apenas uma política genocida e empurrar a culpa pelo efeito dessa política para os outros.”

A conta que a sociedade está pagando em número de casos e de mortos, lembra o sociólogo, já era previsível desde o início da pandemia. “Todo mundo demorou um ano para chegar a um ponto já previsível em março do ano passado, que seria evitável se a gente tivesse ouvido os infectologistas e a ciência. Parece que só agora a ficha caiu, mas pelo menos caiu”, conclui.

Nesta sexta-feira (12), pelo terceiro dia consecutivo, o Brasil registrou mais de 2 mil mortes por covid-19. Foram 2.216 óbitos em 24 horas mais 275 mil desde o início da pandemia. A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que o Brasil representa “um risco para todo o mundo”. Leia aqui.

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