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De Buenos Aires ao Rio: a luta pelo aborto e seus sentidos

 

Movimento feminista argentino que conquistou o direito veste pañuelos verdes — evocando as mães da praça de maio. Seria contradição? Ou uma busca pela liberdade de diferentes criações? Reflexões sobre intervenção urbana no 8M

Do OUTRAS PALAVRAS, 10/03/2021

Por Camila Noguez | Fotografia: Nossa Hora de Legalizar o Aborto RJ
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A crônica a seguir foi escrita a partir de intervenção urbana que aconteceu simultaneamente em Porto Alegre, Florianópolis, Rio de Janeiro e Recife e São Paulo. Pañuelos verdes — símbolo da luta feminista pelo aborto na Argentina — foram amarrados em estátuas e monumentos no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher.
Título original: As Filhas de Sônia

Na manhã desta segunda-feira, o Rio de Janeiro acordou com um pano verde cuidadosamente amarrado na estátua Liberdade, Praça Tiradentes. Sônia, que sempre amanheceu antes das 6h30 para ganhar a rua, não fez diferente nesse 8 de março. Já com pão e jornal a tiracolo, avistou aquela cor, que chamamos por verde bandeira, e uma cisma, logo no início do dia, passou a acompanhá-la. Ela já tinha visto aquele pano em formato de triângulo, mas não sabia do que se tratava, havia um daqueles preso bem na alça da mochila de sua filha. Quando a Mariana acordasse, perguntaria o significado do tal pano verde naquele tom convicto e gritado.

O pano, na verdade, era um pañuelo. Desdobramento das fraldas de pano (brancas) que as Madres da Plaza de Mayo usavam na cabeça – com um nó sob o queixo — para reivindicar a vida de seus filhos e netos desaparecidos na ditadura militar argentina na década de 1970. O governo argentino, na tentativa de deslegitimar aquela organização que só fazia crescer, as chamava las locas. Não emplacou. As mães da Associação das Madres de Maio se viram responsáveis por darem seguimento ao trabalho político dos filhos e o movimento ganhou expressão internacional na luta pelos direitos humanos, protagonizando e apoiando outras causas sociais. Mariana seguiu a história, contando que, no início dos anos 2000, o lenço verde, ligado ao pañuelo branco das Madres, tinha se tornado insígnia da luta pelo direito à vida das mulheres. Mais especificamente, pelo direito à vida das mulheres contando com o aborto legal, seguro e gratuito. A cor verde estaria ligada à saúde, segundo uma das versões de origem do lenço verde.

Sônia simpatiza com o feminismo, acha que as mulheres devem ter os mesmos direitos dos homens e reconhece que hoje em dia as coisas são mais fáceis para ela e suas filhas do que para sua mãe ou sua avó. Mas esse negócio de aborto, não sabe. Será que não corre o risco de banalizar com a legalização? De repente é melhor deixar legal só nos casos de estupro, não? Além disso, Sônia acha estranho que o pano verde — ligado à interrupção voluntária da gravidez — provenha justo da luta de mães pela vida de seus filhos. Algo soa desconfortável para Sônia, esse infamiliar que retorna com o nome aborto.

O aborto é fenômeno que pode acometer mulheres, às vezes, não-mães; às vezes, mães. É um paradoxo a ser encarado esse sobre a origem que pañuelo propõe: as lágrimas por um filho perdido pelas atrocidades da ditadura podem se transmutar em levante e luta contra toda e qualquer violência de Estado. No caso da criminalização do aborto, um abuso do Estado contra o corpo das mulheres e outras pessoas com capacidade de gestar, como se esse corpo não pertencesse a elas mesmas. Deixar-se enlaçar pelo movimento dos panos verdes é também desatar de si mandados e mandamentos da maternidade como projeto central ou único na vida das mulheres, inclusive das mães. Nesse sentido, movimentar-se pela luta da legalização do aborto proporciona às mulheres experiências de liberdades outras de criação – não só de crianças, não só de um jeito.

É como se o tripé maternidade-mulher-cuidado de Sônia ficasse bambo com aquela conversa de pano verde, ao passo que Mariana lhe falava de outro tripé: liberdade-mulher-criação. É bem possível que a tensão vivida nessa casa venha a habitar outras casas brasileiras e, inclusive, um mesmo corpo, como no caso de Sônia. O tema do aborto já está há muitos anos pautado pelos movimentos feministas organizados no Brasil. Mas desde o dia 30 de dezembro de 2020, quando o Senado da Argentina aprovou a legalização do aborto no país, há qualquer vento que levanta palavras nas conversas, reportagens e redes. Há também uma bandeira, um símbolo, uma cor que se pendura na bolsa e se amarra no pulso, um signo que diz de uma posição e que toma a terra Brasil dia após dia.

Uma a cada 5 mulheres de até 40 anos, no país, realizou pelo menos um aborto. Sônia conhece várias, com certeza. Importante ter em conta que a criminalização do aborto — evento que sempre fez parte das mulheres de nossas famílias e de nossas amizades — mata as mais vulneráveis. De acordo com o Ministério da Saúde, a cada dois dias uma mulher morre em função de complicações ao interromper a gravidez de maneira insalubre e desassistida por profissionais. São na sua maioria mulheres negras que residem nas periferias, enquanto as que possuem melhor suporte social e financeiro (brancas, em grande parte) conseguem acessar medicamentos no mercado ilegal e clínicas clandestinas. Ou seja, a criminalização do aborto atinge seletivamente determinada raça/etnia e classe. Nos países em que foi legalizado, houve redução expressiva da mortalidade das mulheres em razão do procedimento.

É longa a estrada que separa Buenos Aires do Rio de Janeiro. Cada território possui suas histórias, seus colonizadores, suas resistências. As brasileiras vivem hoje um dramático desamparo promovido pela agenda neoconservadora, que busca manter o poder de decisão sobre o corpo das mulheres com o Estado, padres e pastores. O lenço verde lança um convite: não seria já o tempo de nos enxergarmos também como latino-americanas? Nossas formações culturais são diversas, nossas línguas são distintas, mas o território subjetivo dessa pauta pode ter um mesmo enlace com as hermanas, com as irmãs, com as dores compartilhadas e com as vontades de decidir.


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Sobre a intervenção urbana nessa estátua Liberdade, não parece ser rastreável. Seria rastreável talvez do ponto de vista do passado ou da origem, mas não do rastro por vir. Antes de tudo parece uma movimentação de filhas e hijas de uma história que as antecedeu. Hijas das Madres de Mayo ou filhas das benzedeiras, Sônias e mães pretas do Brasil que está por ser traçado. Hijastreáveis no hibridismo das línguas e territórios futuros.




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CAMILA NOGUEZ
Camila Noguez é psicóloga, psicanalista e sanitarista.

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