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‘A pandemia tornou urgente a busca por uma alternativa ao neoliberalismo’, diz Ignacio Ramonet

Em entrevista a Breno Altman, jornalista espanhol afirmou que sem uma alternativa ao neoliberalismo, o mundo viverá crises cíclicas; veja vídeo na íntegra



CAMILA ALVARENGA

Do Opera Mundi, Madri (Espanha), 27 de mar de 2021 

Em edição internacional do programa 20 Minutos Entrevistas deste sábado (27/03), o fundador de Opera Mundi entrevistou o jornalista e sociólogo espanhol Ignacio Ramonet, diretor da edição espanhola do jornal francês Le Monde Diplomatique. Na conversa, ele discorreu sobre a atualidade e o futuro pós-pandemia.

“A principal crise que o mundo vive é a crise ecológica, que é responsabilidade do neoliberalismo. Se a pandemia é fruto dessa crise, então o neoliberalismo com sua lógica predatória a provocou”, defendeu.

Ele acredita na possibilidade de construir um mundo não neoliberal e afirmou que a pandemia fez com que a busca por alternativas ao capitalismo se tornasse ainda mais urgente, pois escancarou de forma violenta os efeitos da desigualdade.

“Os pobres foram mais vítimas que os ricos, porque vivem em locais de maior concentração populacional, porque não podiam se autoconfinar, porque precisavam seguir indo ao trabalho. Com as campanhas de vacinação, vemos que os países ricos compraram vacinas, enquanto os países mais pobres não conseguem ter acesso a elas. A pandemia demonstrou que o neoliberalismo não está resolvendo problemas fundamentais. Houve uma perda de soberania no sentido de perda da capacidade dos estados capitalistas de cumprir com sua principal responsabilidade: a de proteger seus cidadãos”, argumentou.

Ramonet vê essa “revelação” de certa forma positiva, pois fez com que as sociedades percebessem que os governos de direita “não estão à altura desta crise, nem estiveram à altura durante a crise de 2008. E se seguirmos com esse modelo, daqui cinco ou dez anos viveremos uma nova crise ou pandemia. Por isso encontrar uma alternativa ao neoliberalismo se faz tão urgente”.

“Já sabemos que o socialismo, por exemplo, não é uma utopia. A sociedade socialista existiu, graças a uma revolução que hoje é uma das mais importantes na nossa história. Aprendemos lições do que funcionou e do que não funcionou. Então quando propomos um mundo novo, não é algo utópico”, afirmou.

O jornalista reconhece, entretanto, que uma revolução nos moldes da russa ou mesmo da cubana não aconteceria nos dias de hoje. Um estado socialista também não se assemelharia ao que foi a União Soviética devido ao momento de desenvolvimento tecnológico atual.

“A mobilização das massas, por exemplo. Antes demoravam-se dias, semanas ou mesmo meses para organizar uma greve geral, por exemplo. Hoje de um dia para o outro você convoca milhares de pessoas para ir às ruas. O problema é que as pessoas já não se juntam para lutar por uma causa maior, mas para reivindicar coisas específicas e isso é resultado da realidade digital que vivemos, que estimula o individualismo e a segmentarização”, refletiu.
Hegemonia internacional

Ramonet também discorreu sobre nova conjuntura internacional, com a eleição de Joe Biden: “toda mudança política nos Estados Unidos representa uma mudança política em escala mundial porque os EUA ainda são a maior economia do mundo, ou de maior influência”.

Para ele, a grande vantagem da eleição de Biden foi ter posto fim ao mandato de Trump, “que evidentemente constitui um grande perigo para a humanidade”. No entanto, afirmou que se o novo presidente estadounidense não apostar por um governo marcadamente de ruptura, principalmente por ter o controle do Congresso, ele será apenas “um acidente na continuidade trumpista”.

Tal ruptura deveria estender-se inclusive à relação dos EUA com a China. Os dois países possuem uma “rivalidade estratégica”, pois são parceiros comerciais, mas, de acordo com o jornalista, é fato que a China põe em perigo a hegemonia estadounidense e, portanto, Biden terá que definir como decidirá abordar essa questão.

“A China não tem a dimensão militar, espacial, marítima nem tecnológica que os EUA têm. A China não é nem um país anticapitalista, é o cérebro do neoliberalismo e do livre mercado, por ser um grande importador e exportador. É um país que conseguiu combinar a dinâmica capitalista de mercado com um estado dirigido por um partido comunista, uma combinação difícil de conseguir e que a fortalece muito”, explicou.

Dessa forma, Ramonet não vê na China uma fonte de inspiração para movimentos genuinamente socialistas. Nem na URSS: “acho que o momento passou. São situações excepcionais que ficarão para a história e que inspiraram outros movimentos, mas não são, nem foram, paraísos sem erros”.

“A revolução se faz num momento dado, mas o tempo avança e o que era ideal num momento, já não o é no próximo. Marx dizia que a história é a história da luta de classes, e ele está certo, mas podemos dizer que a história é a história das transformações tecnológicas, porque são elas que mudam o funcionamento da sociedade e, portanto, os projetos dos cidadãos. E fazem com que isso mude tão rapidamente que acabam esgotando o projeto político que em certo momento gerou o desejo de revolução”, argumentou.

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