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A África e a pandemia generalizada: 600 milhões ainda estão sem assistência

Do OHU, 10 Março 2021
Por Paolo M. Alfieri, publicada em Avvenire, 09-03-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.



Mais de 600 milhões de africanos – um em cada dois habitantes do continente – ainda não têm acesso aos serviços de saúde de que precisam. E, quando se trata de serviços de saúde de qualidade, ou seja, eficazes e de alto padrão, o número é ainda maior.

São dados desconcertantes que constam em um relatório preparado por um grupo de especialistas por ocasião da Health Agenda international Conference (AHAIC), um congresso internacional de três dias que começou nessa segunda-feira, organizado pela Amref Health Africa, Africa Centers for Disease Control and Prevention (Africa CDC) e International Federation of Pharmaceutical Manufacturers and Associations (IFPMA).

Apesar das esperanças geradas pelos últimos anos de desenvolvimento econômico no continente, a pandemia do coronavírus ajudou a colocar a África novamente para trás. E assim o direito universal à saúde, sancionado como o terceiro objetivo da Agenda de Desenvolvimento 2030 da ONU, está ainda mais em risco em um continente que luta sem grandes meios tanto contra a pandemia quanto contra todas as suas outras “históricas” deficiências de saúde.

O desafio ao coronavírus, que na maior parte do continente continua sendo uma emergência “escondida” pelos poucos testes (oficialmente “apenas” quatro milhões de contágios e 105 mil mortes), está sendo enfrentado neste momento sem vacinas, também por causa do acúmulo de doses pelos países ricos, enquanto os sistemas de saúde locais estão vendo o aumento dos casos de HIV e de outras doenças.

O volume de testes de HIV caiu 50% em alguns países, paralelamente a uma queda de 75% no rastreamento dos novos casos de tuberculose. A vacina contra o coronavírus “está dando esperança a todos nós. Até agora, 14 milhões de doses foram entregues a 19 países na África, por meio da Covax. E outros receberão doses na semana que vem. É um bom começo, mas ainda há muito trabalho a ser feito”, admitiu o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, intervindo no congresso.

Não é nenhum segredo que a grande maioria das vacinas até agora foi administrada nos países ricos e que, por meio de doações ou compras, muitos países africanos não conseguirão vacinar mais de um quinto da sua população este ano. No ritmo atual, a África poderia levar três anos para a imunidade de rebanho contra o coronavírus, um tempo infinito.

“Mesmo depois que a pandemia acabar, os esforços terão de continuar”, sublinhou Tedros. “Os problemas preexistentes permanecerão. Não existe uma vacina contra a pobreza, a fome, a desigualdade, as mudanças climáticas, os casamentos precoces. A Covid-19 sublinhou a centralidade da saúde: quando a saúde está em risco, tudo está em risco. Alcançar a cobertura universal de saúde requer investimentos em sistemas de saúde resilientes, particularmente em cuidados de saúde primários fortes. Garantir um fornecimento confiável de medicamentos seguros, eficazes e de alta qualidade em todo o continente.”

No seu discurso, o diretor do Africa CDC, John Nkengasong, destacou que “as pandemias podem interromper os serviços de saúde” e que, portanto, “investir em uma força de trabalho de saúde competente e ampliar as parcerias é fundamental para alcançar a cobertura universal de saúde”.

Para Guglielmo Micucci, diretor da Amref Health África-Itália, no front vacinal, “continua sendo central a questão das patentes e da distribuição justa, porque também nesse caso é evidente que não nos salvamos sozinhos, mas apenas olhando também para o outro”.

“Contra a Covid-19, não podemos fazer sozinhos”, reiterou o presidente queniano, Uhuru Kenyatta, segundo o qual, para alcançar o acesso universal à saúde, é necessário envolver “tanto os atores públicos quanto privados, em nível local, regional e internacional”.

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