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Projeto de agroecologia une produção camponesa às comunas urbanas na Venezuela

Em cinco anos, foram distribuídas 1,5 mil toneladas de alimentos a mais de 300 mil famílias do país



Por Michele de Mello
Do Brasil de Fato | Caracas (Venezuela) | 14 de Fevereiro de 2021 


Com jornadas de distribuição semanais e organização popular, fundação Pueblo a Pueblo leva hortifrúti produzido no campo à cidade. - Michele de Mello / Brasil de Fato

“Só o povo salva o povo”. A partir dessa ideia, a Fundação Pueblo a Pueblo (Povo a povo, em português) busca aplicar na realidade a união e a solidariedade entre campo e cidade. O projeto se baseia em levar alimentos produzidos por comunas da zona rural venezuelana para comunas urbanas. A proposta é acabar com os intermediários e assegurar a divisão social da produção: garantindo que o agricultor não perca sua colheita e que o consumidor possa ter acesso a uma cesta básica diversificada e a preço justo.

“O plano Pueblo a Pueblo surge com esse enfoque principal de trabalhar essa dimensão da agroecologia: criar alianças com os movimentos populares do campo e da cidade para distribuir alimento saudável”, conta o coordenador do projeto Gabriel Gil.

São 90 pequenos produtores associados que, desde 2015, realizaram cerca de 250 jornadas de distribuição, vendendo mais de 1,5 mil toneladas de legumes, hortaliças, frutas e, recentemente, começaram a criar cabras e porcos para obter laticínios e proteína animal. O projeto está estruturado em oito estados do país, mais o Distrito Capital.

A diferença da iniciativa se nota na qualidade e no preço dos alimentos. Enquanto a média dos produtos da Pueblo a Pueblo é de cerca de R$ 2,15 por quilo, nos supermercados e feiras por atacado a média sobe aproximadamente R$ 5,50 por quilo. De 15% a 30% do valor final do produto é destinado a pagar o combustível, gastos com veículos e salários dos que trabalham com a Fundação.

Apesar da pandemia, o plano alcançou por volta de 53 mil famílias, somente no primeiro semestre de 2020. Com uma economia fortemente debilitada no país, com variação de 2.642% no câmbio do dólar, uma inflação de 1.460% e uma perda geral de 50% do poder aquisitivo dos venezuelanos, o plano manteve preços estáveis e muito mais baixos do que os mercados durante todo ano.

Porém, a crise gerada pelo coronavírus também gerou impactos no projeto. Antes da pandemia, as distribuições era mensais, agora podem tardar até dois meses para que os caminhões da Pueblo a Pueblo consigam chegar à capital venezuelana.

Em Caracas, uma das associadas é a comuna Panal 2021, lar de 14 mil pessoas e localizada na favela 23 de Enero. "Nossos combos têm 12 produtos: tomate, cebola, pepino, cebolinha, alho poró, coentro, batata, salsão, e se fizermos uma comparação com os preços por aí, somente uma dessas leguminosas custaria mais do que estamos oferecendo", explica Lilian García, uma das porta-vozes da comunidade durante a primeira feira agroecológica de 2021.

"Só o povo salva o povo, agora com esse bloqueio e essa inflação, temos que encontrar a forma de produzir e nos ajudar mutuamente", defende García.



Na distribuição na comuna Panal 2021, em Caracas, um combo com 12 produtos custa cerca de R$ 10 (aproximadamente US$ 2), enquanto nos mercados da capital, um quilo de tomate pode custar até R$ 16 (por volta de US$ 3) / Michele de Mello/Brasil de Fato

Autonomia para produzir

Sem financiamento do Estado, Laura Lorenzo, uma das fundadoras do Pueblo a Pueblo, explica que o segredo é compartilhar de maneira transparente os gastos do produtor, para valorizar o trabalho do camponês, sem explorar os consumidores finais. Além disso, o acordo estabelecido prevê que o pagamento deve chegar ao produtor rural em até oito dias após a distribuição, e parte do valor é reservado para um fundo comum entre as comunas.

“É possível, porque há organização, sobretudo em um país com história de luta pela terra como o nosso. Sempre houve disputa e exploração, sempre estavam os latifundiários, os especuladores, aqueles que se aproveitam do trabalho do camponês e isso obrigou a que os nosso camponeses, em todos os cantos da nossa pátria, tivessem esse desejo de se organizar e, principalmente, se organizar para a produção”, relata.



Em Carache, estado de Trujillo, Laura Lorenzo, Daniel Velásquez e demais comuneiros se reúnem todas as semanas para planejar a colheita / Michele de Mello/Brasil de Fato

Não por acaso, o plano foi criado no mesmo ano em que os Estados Unidos impuseram um bloqueio econômico contra a Venezuela. Na época, um grupo de seis ex-funcionários públicos decidiram refazer a rota percorrida pela guerrilha venezuelana dos anos 1960, articulando comunas da zona montanhosa que conecta os estados de Trujillo, Lara e Portuguesa, região centro-ocidental do país.

“Começamos fazendo reuniões com os produtores, escutávamos o que eles necessitavam, para ver como solucionar. E assim começamos o trabalho com eles: a planejar o cultivo, de que maneira iríamos distribui-lo, onde iríamos distribuir e para quem chegaria essa produção. Sempre deixando claro que seria um trabalho social que nos permitiria ter um saldo organizativo tanto no campo como na cidade”, explica Ana Dávila, quem trabalha desde 2015 na fundação.

Hoje o projeto possui um centro de abastecimento central, em Barquisimeto, capital do estado de Lara, em uma fábrica de tratores expropriada pela revolução bolivariana, e distribui produtos em nove estados do país, em comunas urbanas, instituições de ensino e outras organizações populares.

“Nós temos que demonstrar, de maneira autônoma, que podemos fazer. É claro que será muito mais difícil. A guerra [imperialista contra a Venezuela] é multidimensional e a luta também deve ser multidimensional”, declara Gabriel Gil.



Sem possibilidade de realizar a manutenção dos tratores, os produtores do plano Pueblo a Pueblo voltaram a usar tração animal / Michele de Mello/Brasil de Fato

Dificuldades pelo caminho

De 2019 para 2020, as jornadas de distribuição caíram quase pela metade. O motivo: falta de combustível. “Eu produzi abobrinha, berinjela, cebola e cenoura. Lamentavelmente, no ano passado, por conta do problema da gasolina, perdi parte da produção de berinjelas e abobrinha. Com a falta de gasolina não havia como mobilizar-se”, conta Luis Loyo, dono de uma pequena propriedade de 7 hectares em Humocaro Alto, no estado de Lara.

Loyo relata que alguns produtores abandonaram determinados cultivos, como o milho e o café, porque o preço final não cobre os gastos com a produção.

Com a escassez e a autorização da venda de combustível em dólares, o contrabando e o mercado paralelo imperam no interior da Venezuela. Para comprar um litro de diesel ou de gasolina, um agricultor pode passar três dias na fila de um posto e não conseguir abastecer ou pagar até US$ 2 (mais de R$ 10) por litro de combustível.

“Aqui, em geral, o produtor vende a um intermediário. É a única opção que você tem. E se tem carro para chegar no lugar, é ainda mais fácil, porque o produtor nunca tem um caminhão para vender sua produção na cidade. O intermediário leva a produção e paga quando tiver pra pagar. É melhor assim do que perder todo o esforço feito”, conta Keiner Peraza, quem há dez anos saiu da cidade e voltou para sua terra natal, no interior venezuelano.



Com a Fundação Pueblo a Pueblo, os agricultores passaram a produzir seus próprios insumos agroecológicos / Michele de Mello/Brasil de Fato

Agroecologia x Agronegócio

Os fundadores do plano destacam como os governos chavistas retomaram um processo de reforma agrária no país, concedendo as terras a camponeses que ali trabalhavam. A redistribuição do solo produtivo veio aliada à criação ou à expropriação de uma série de empresas agrícolas que conformaram uma estratégia de combate à fome, que também foi elogiada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).

Em 2017, o presidente Nicolás Maduro autorizou a criação do conglomerado Agrosur, que unia todas as empresas estatais vinculadas à agricultura. No entanto, com as sanções e o embargo econômico de potências estrangeiras, as empresas foram perdendo capacidade de importar e subsidiar insumos para a produção agrícola, o que fez com que o país mantivesse níveis de importação de cerca de 70% da cesta básica alimentar.

“Se pudéssemos ativar a P de CLAP [Comitê Local de Abastecimento e Produção], que significa produção seria extraordinário, porque então a bolsa CLAP viria com particularidades locais. E que exista essa proposta de integração entre a comunidade camponesa produtora, o governo e os consumidores”, explica o engenheiro agrônomo Gabriel Gil.

Os Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP) são um projeto do governo de distribuição de cestas básicas em todo o território nacional e que buscam organizar a população venezuelana para combater a especulação do preço dos alimentos. Periodicamente, os cidadãos do país inscritos no programa recebem as bolsas CLAP, como uma cesta básico com produtos essenciais.

Por outro lado, desde 2019, diante da crise, o Ministério de Agricultura e Terras revisou sua estratégia de recuperação produtiva, direcionando recursos para grandes propriedades. O plano Siembra 2020 liberou cerca de US$ 200 milhões (mais de R$ 1,07 bilhão) em insumos, tratores e outros materiais: tudo para o agronegócio.

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“Nós dizemos, com todo respeito ao presidente Nicolás Maduro, mas há interesses com a importação de alimentos. Saiu a máfia importadora opositora e entrou uma nova máfia que, em partes, é composta por militares. E esse enfoque de burguesia revolucionária, de ajudar aos grandes e não aos pequenos é o que está nos afetando”, critica Gil.



O plano percorre a rota Argemiro Gabaldón, nome de um dos guerrilheiros, que na década de 1960, lutou contra a ditadura, organizando os camponeses da zona montanhosa do país / Michele de Mello/Brasil de Fato

Soberania alimentar e política

Além da gasolina, os fertilizantes e até mesmo as sementes se tornaram inacessíveis ao pequeno produtor. Um saco de 35 quilos de fertilizante, por exemplo, pode custar US$ 35 (cerca de R$ 190), enquanto uma lata com 450 gramas de sementes de cebola já é vendida a US$ 80 (cerca de R$ 440).

Por isso, os criadores do plano Pueblo a Pueblo oferecem oficinas para produção dos próprios insumos agroecológicos e resgatam as sementes crioulas venezuelanas. Para 2021, a proposta é criar uma agroescola na região de Humocaro Alto, interior do estado de Lara, para promover a agroecologia como modelo de produção e de vida.

“Estar com a Pueblo a Pueblo é uma experiência a mais. Antes, a gente se sentia à parte, agora temos as reuniões e isso nos gera mais confiança, mais clareza com a produção”, conta Daniel Velásquez, agricultor do estado de Trujillo, onde surgiu o plano.

Além da organização social da produção, a proposta é criar condições para que os camponeses permaneçam nas zonas rurais: garantindo acesso à educação, incentivando o esporte, recuperando as vias para escoar o cultivo e criando postos fixos de venda de hortifrúti e artesanatos no interior e na capital.

“Nós já demonstramos que somos capazes de produzir o que vai nos alimentar. Agora precisamos entender que somente a unidade, a consciência de classe: saber de onde viemos, quem somos, com quem devemos estar. Por tudo isso, essa é a mensagem que Chávez nos deixou: estamos aqui, em pé de luta. Seguimos avançando com força e acreditamos na unidade regional, nacional e latino-americana, porque acreditamos na Pátria Grande de Bolívar e Chávez”, conclui Laura Lorenzo, uma das fundadoras do Pueblo a Pueblo.

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