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O que o Black Lives Matter diz ao mundo e ao Brasil

Em livro recém-publicado sobre movimento que sacode a sociedade norte-americana, Keeanga-Yamahtta Taylor debate a importância de passar da mera ação institucional às ruas, e de combinar projeto anticapitalista com reformas urgentes


De OUTRASPALAVRAS, 22 de Fevereiro 2021
Por Natália Neris


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O texto abaixo é o prefácio à edição brasileira do livro #VidasNegrasImportam e libertação negra, de Keeanga-Yamahtta Taylor
Publicado pela Editora Elefante, parceira editorial de Outras Palavras


“Sou professora de estudos afro-estadunidenses e leciono em uma universidade de elite da Ivy League,1 mas não me considero uma acadêmica. Sempre fui uma organizadora que tenta comunicar a urgência do nosso momento político através das lentes da história e das preocupações das pessoas comuns.”

Keeanga-Yamahtta Taylor assim se definiu em uma conferência na Hampshire College em 2017.2 Assisti a essa palestra, bem como ao máximo de intervenções públicas da autora que pude, antes de iniciar a leitura deste livro. Costumo buscar uma proximidade com todo autor ou autora — e esse é um caminho comum entre muitos estudantes — porque isso parece materializar as ideias de cada página. É possível imaginar a voz, os gestos de cada frase, os pressupostos das ideias, tendo em vista outras construções para além da obra escrita.

O impacto que Taylor gerou em mim foi grande, e encontrá-la muito atuante no debate público me empolgou. Estava diante de mais uma intelectual-inspiração, da mesma geração que a minha. Achei bonita a definição, que não passa por títulos acadêmicos importantes — embora ela tenha muitas credenciais, o que é muito relevante para nós enquanto mulheres negras e jovens. Admirei a firmeza, a capacidade crítica e a ousadia da análise dos acontecimentos em curso. Comecei a aprender antes de lê-la, portanto.

O livro From #BlackLivesMatter to Black Liberation foi publicado nos Estados Unidos em 2016. Sua questão central é compreender o surgimento do movimento Vidas Negras Importam justamente enquanto um homem negro ocupava a Casa Branca pela primeira vez na história. O protesto negro contra a violência policial segue vigoroso na sociedade estadunidense, e este livro chega ao Brasil num ano em que assistimos à morte de George Floyd3 por sufocamento e à tentativa de assassinato de Jacob Blake,4 com sete tiros pelas costas, ambas cometidas por policiais — entre outros casos, ocorridos em meio a uma pandemia.

Infelizmente, o livro não ficou obsoleto e não é preciso restringir o olhar para os Estados Unidos. No Brasil, no mesmo período, sofremos com operações policiais brutais, nas quais nem mesmo crianças foram poupadas: João Pedro Matos Pinto5 foi morto em sua própria casa e João Vitor da Rocha,6 assassinado durante uma ação comunitária de entrega de cestas básicas. Lidamos ainda com uma tentativa de sufocamento de uma mulher negra de 51 anos pela Polícia Militar num bairro periférico de São Paulo.7

Faço esses paralelos para já afirmar que uma das teses presentes no trabalho de Taylor faz muito sentido: determinados eventos — como guerras ou desastres naturais, e agora uma crise sanitária sem precedentes — escancaram as contradições, a violência e as desigualdades de sociedades racistas. Mas darei um passo atrás para apontar outras teses que identifico na obra: i) o policiamento é fruto de profundas desigualdades; ii) as desigualdades são o resultado final das decisões econômicas e políticas das autoridades; e iii) o movimento negro é uma força independente, que revela as falhas da sociedade de modo não superficial, mas sistêmico.

Compreendo que o primeiro trajeto da autora para sustentar tais teses é descrever cuidadosamente como a sociedade estadunidense narra a si mesma e se projeta para fora. Taylor desvela, portanto, as ideologias que sustentam a ideia de um excepcionalismo estadunidense, uma mitologia de conveniência que coloca o país como um líder moral do mundo, como uma democracia consolidada que permite a todo cidadão esforçado alcançar seus objetivos. A não ascensão econômica de determinados indivíduos pode ser tributada a explicações culturais. Visões preconceituosas culpam o negro pela sua própria desgraça, ocultando problemas estruturais sob um manto moral. De forma às vezes tácita, às vezes explícita, aparecem justificativas ancoradas num suposto mau comportamento das famílias negras, em sua irresponsabilidade ou incivilidade. A transformação pessoal substitui a exigência de provisão estatal de acesso a moradia, saúde, segurança ou educação de qualidade.

Um segundo movimento da autora é acompanhar a transformação dessa narrativa, principalmente após a atuação do movimento pelos direitos civis nos anos 1960. Para além da responsabilização moral das pessoas negras por sua condição — a chamada “cultura da pobreza”, piorada no contexto de crise econômica dos anos 1970 —, a ideia de uma sociedade “pós-racial”, que ficou “cega para a raça” (daltonismo racial) após a extinção de leis segregacionistas, mais uma vez serve à neutralização da responsabilidade dos sistemas político e econômico dos Estados Unidos.

Esses pressupostos, apresentados nos dois primeiros capítulos da obra, nos preparam para os capítulos subsequentes, nos quais a autora lança luz sobre uma nova etapa da sociedade estadunidense: aquela em que se pôde contar — e, mais do que isso, que incentivou — a presença negra nos quadros políticos e na gestão das cidades como alternativa estratégica e pragmática para lidar com problemas locais, como a gentrificação e a violência policial. Os capítulos 3 e 4 desvelam as contradições dessa representatividade e abordam de forma ainda mais profunda o vínculo embrionário entre suspeição e brutalidade da polícia e gestão econômica nos municípios. Taylor detecta que, mesmo sob administrações negras, recai sobre as pessoas não brancas um cerceamento financeiro desproporcional. A população negra é vítima de sanções abusivas sobre coisas tão prosaicas como infrações de trânsito ou mesmo evasão escolar. A autora chama esse punitivismo econômico, que explicita a relação contraditória entre as elites políticas negras e a comunidade de forma geral, de “imposto sobre a raça”.

A obra desmantela ideários que buscam desvincular escolhas de políticas públicas em termos sociais e econômicos da condição de vida da população negra, de origem latino-americana e de brancos pobres nos Estados Unidos. Nessa análise, pode-se enxergar tanto a “Taylor acadêmica” quanto a “Taylor militante”. Metodologicamente, o estudo tem como base relatórios estatísticos, documentos oficiais e muitos documentos extraoficiais, como estudos de organizações do movimento negro, além de depoimentos e entrevistas desses atores na mídia.

A partir do Capítulo 5, em que a autora narra a ascensão de Barack Obama, o livro fica ainda mais dinâmico, relacionando as expectativas da comunidade negra diante dos discursos do presidente sobre as manifestações, principalmente em Ferguson, Baltimore e Nova York. As lentes da história e a preocupação das pessoas comuns se unem quando começam a vir à tona limites importantes da representatividade. Uma comunidade já cansada de ser agredida se vê quase traída por um presidente negro que se atenta mais à reação popular do que à violência institucional que a causou — e pior: nos termos da ideologia latente da sociedade estadunidense, que evocam os mitos da “cultura da pobreza” e da “sociedade pós-racial”.

Os capítulos 6 e 7 tratam respectivamente da caracterização do movimento Vidas Negras Importam e da reflexão sobre seus desafios futuros. É nesse momento do livro que deparamos com o rosto feminino e queer desse protesto. Por trás de sua configuração de gênero, reside um triste problema conjuntural: os homens negros estão presos ou mortos. Essa característica, junto com a ação intensa nas redes sociais e a descentralização organizativa, encarna uma diferença importante em relação a movimentos do passado, e isso obviamente influencia e determina seu modus operandi.

O olhar atento para o passado faz a autora apontar para os perigos do foco na institucionalidade e para os riscos prementes da perda do controle da própria agenda, principalmente quando o movimento realiza concessões e suas ações são financiadas por instituições filantrópicas.

Taylor também aponta para o desafio da definição de demandas do movimento: “Conectar a violência policial ao devastador efeito do racismo institucional é o ponto forte do movimento atual, mas também se corre o risco de que as reformas que poderiam ser alcançadas agora fiquem submersas na luta generalizada para transformar a natureza da sociedade estadunidense”. Nesse sentido, a autora explora uma possibilidade interessante de distinção entre reformas possíveis agora e a luta pela revolução, que é um projeto de longo prazo. Indo além do diagnóstico e apontando para a estratégia, Taylor chama a atenção para a necessidade de colaboração e solidariedade intramovimentos e a necessidade de aliança, principalmente com trabalhadores mal remunerados. Nesse ponto, ela aponta a urgência da união com brancos e latinos da classe trabalhadora, porque essa mobilização coletiva teria também o efeito de escancarar os antagonismos de classe que foram apagados entre os brancos estadunidenses.

Se estes tempos são de tristeza e revolta por nossa vulnerabilidade extrema, a leitura deste livro também revela que, sem luta incessante, as ideias-sustentáculos de um sistema capitalista, racista e militarizado seguiriam a justificar nossa morte. A atuação do movimento negro ontem e hoje colocou a olho nu as falhas sistêmicas e profundas da nossa sociedade.

Taylor mais uma vez me entusiasma num contexto desesperador, porque me ajuda a lembrar do potencial transformador da luta antirracista e, longe de me incentivar a realizar uma leitura que mimetiza e transfere experiências estadunidenses para compreender a realidade brasileira, me mobiliza a olhar para as ideias-força que justificam nossa vulnerabilidade por aqui (sobejamente refletidas sobretudo por nossos intelectuais negros e negras), a tensionar e a manter um olhar crítico em relação a nossa aposta na institucionalidade, e a me lembrar de que, no Brasil, principalmente nas suas margens, há resistência anticapitalista e antirracista solidária e projetada para a revolução. A leitura deste livro me faz projetar também uma resistência afro-norte-centro-sul-americana-diaspórica.

Taylor nos convida a comunicar as urgências deste momento político.

1 Ivy League é o grupo formado por oito universidades de “elite” (em termos de excelência acadêmica, mas também por serem frequentadas por membros da elite econômica) dos Estados Unidos: Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth College, Harvard, Universidade da Pensilvânia, Princeton e Yale. [N.E.]

2 “Keeanga-Yamahtta Taylor Delivers Keynote at Hampshire College’s 2017 Commencement Ceremony”, YouTube, 20 maio 2017. Disponível em: https:// www.youtube.com/watch?v=6ljTRRVuUjM.

3 George Floyd, negro de 46 anos, assassinado em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, em 25 de maio de 2020, pelo policial Derek Chauvin, que se ajoelhou sobre seu pescoço durante aproximadamente nove minutos. A cena foi filmada e sua divulgação provocou uma onda de protestos dentro e fora do país. [N.E.]

4 Jacob Blake, negro de 29 anos, ferido após ser atingido por quatro dos sete tiros disparados contra suas costas pelo policial Rusten Sheskey na cidade de Kenosha, Wisconsin, Estados Unidos, em 23 de agosto de 2020. A cena foi filmada e sua divulgação provocou protestos em algumas cidades do país. [N.E.]

5 João Pedro Matos Pinto, negro de catorze anos, assassinado com um tiro na barriga em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, em 18 de maio de 2020, durante operação conjunta das polícias Federal e Civil contra o tráfico de drogas. [N.E.]

6 João Vitor da Rocha, negro de dezoito anos, assassinado na Cidade de Deus, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, em 20 de maio de 2020, durante uma operação policial. [N.E.]

7 Episódio ocorrido em julho de 2020, no bairro de Parelheiros, zona sul de São Paulo. A ação policial foi filmada por moradores e divulgada pelo Fantástico, programa semanal da Rede Globo. [N.E.]



NATÁLIA NERIS
Natália Neris é pesquisadora, doutoranda em direitos humanos na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, e militante.

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