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Na fronteira sulista, o muro de Trump é somente um dos insultos que ele deixou para trás


Aqui está o que Biden deveria fazer sobre a pobreza, discriminação e destruição ambiental.

Da Carta Maior, 18/02/2021

Por Gary Paul Nabhan e Austin Nuñez

Créditos da foto: Parte do terreno limpo para o muro de fronteira perto de Alamo, Texas, faz parte de um corredor de vida selvagem que levou décadas para ser restaurado (Verónica G. Cárdenas/The NewYork Times Opinião.  

O presidente Biden prometeu que não haverá “nem mais um metro” do muro construído por Trump na fronteira. Mas suas primeiras semanas como presidente demandam mais do que parar a construção da barricada que alimentou crises humanitárias e devastou o meio-ambiente do deserto.

Cidades fronteiriças do Golfo do México até a Costa do Pacífico sofreram desproporcionalmente, sacrificadas em nome de políticas que ignoram vidas e vivências em favor de um longo e duvidoso monumento ao orgulho presidencial.

Nos últimos quatro anos, residentes da fronteira experienciaram discriminação sistemática e destruição ambiental. Sem intervenção, muitos dos danos às comunidades em ambos os lados da fronteira serão duradouros.

Os insultos incluem taxas extremas de infecção por covid-19 por causa de respostas estaduais e federais mal-sucedidas, a perda de milhares de empregos na agricultura como resultado de guerras tarifárias e as catástrofes climáticas interligadas como a seca, incêndios e enchentes, que provavelmente a administração Trump e suas políticas climáticas hostis pioraram.

A maioria dos condados que tangem a fronteira internacional sofre com níveis dobrados de pobreza em relação à média estadunidense. Em assentamentos não-incorporados conhecidos como colônias, do Texas à Califórnia, residentes da fronteira vivem sem serviços básicos como água potável e coleta de lixo. A administração Trump exacerbou problemas antigos ao vilificar a fronteira e seus residentes e ignorar o papel vital da região nas relações culturais, ecológicas e comerciais dos EUA com a Latam.

Territórios e comunidades ao longo da linha internacional precisam de ajuda. Precisam de empregos com salários dignos e estratégias para tornar fazendas, cidades e ranchos mais resilientes à mudança climática. Danos infligidos pelo muro também devem ser consertados, incluindo a restauração dos corredores de vida selvagem entre os EUA e o México. Entre as estratégias mais promissoras estão o incentivo ao engajamento comunitário, às trocas culturais e comerciais.

Comunidades desérticas nas fronteiras já são “laboratórios para o futuro” porque seus residentes vêm se adaptando há décadas ao novo normal trazido pela aridez elevada. Com condições mais quentes e secas prestes a afetar quase 162 milhões de pessoas em quase metade da América do Norte nas próximas duas décadas, comunidades fronteiriças têm muito a ensinar sobre resiliência climática.

Habitantes da fronteira também são experts em solidariedade racial e multicultural, bilinguismo e perseverança. Se especializaram na arte da frugalidade e da autossuficiência, porque poucas formas de assistência governamental chegam até eles.

Uma liderança nova na Casa Branca e no Congresso oferece esperança. Alertamos a administração Biden para sinalizar um novo direcionamento às comunidades em ambos os lados da fronteira. A administração pode rastrear ações para lidar com a pobreza, marginalização e degradação ambiental que pioraram durante a era Trump.

Aqui estão 10 ações que a nova administração pode tomar nos próximos meses para “endireitar o barco” que encalhou nas margens ressecadas do Rio Grande:

* Encerrar os contratos de construção do muro e encerrar o confisco de propriedades culturais tradicionais e privadas.

* Remover segmentos do muro onde houve interferência do fluxo de água, migrações de animais, trilhas de peregrinação e comércio entre nações. Parar com a extração de água dos lençóis freáticos e desligar iluminações artificiais desnecessárias em refúgios de vida selvagem e outras áreas sensíveis.

* Criar um corpo de jovens para estudantes de ensino médio hispânicos, negros e nativo-americanos em projetos de verão para restaurar habitats e ajudar a criar meios de vida sustentáveis em fazendas, ranchos e reservas.

Mudar políticas imigratórias para reunir famílias divididas pelo muro, pelos fechamentos de portões e restrições irregulares contra a covid-19.

* Garantir acesso a líderes de tradições espirituais nativo-americanas e outras religiões para reconsagrar túmulos desenterrados, cemitérios escavados, nascentes sagradas esvaziadas e santuários nas montanhas dinamitados e profanados pela construção do muro.

* Fornecer serviços essenciais, incluindo segurança, acesso a água potável e descarte de lixo sólido para pessoas nos bairros e colônias ao longo da fronteira.

* Enviar profissionais de conservação e pastagens para monitorar impactos do muro, especialmente a destruição de aquíferos.

* Renovar acordos e financiamentos para programas de saúde, artes e conservação transfronteiriça, descontinuados nos últimos quatro anos.

* Apoiar o aumento das apropriações para a restauração de terra pública danificadas pela construção do muro.

* Aumentar a representação de profissionais hispânicos, negros e nativo-americanos em comitês que aconselham agências federais que trabalham ao longo da fronteira. Renovar a assistência e colaboração com rancheiros, fazendeiros, gerentes de territórios tribais e donos de outras propriedades afetadas pelo muro.

Devemos reimaginar as paisagens que partilhamos com o México. A fronteira não deveria ser uma linha que divide culturas e fragmentos do ambiente desértico. É uma junção onde duas nações se conectam, onde a história é partilhada, onde culturas são vividas e onde um futuro comum deve desabrochar.

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de Isabela Palhares

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