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Milhões em fuga devido à catástrofe ambiental. Entrevista com Marco Aime

Do IHU, 26 Fevereiro 2021
A entrevista com Marco Aime é de Mirta Da Pra Pocchiesa, publicada por Extratterestre - Il Manifesto, 25-02-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.


Segundo o Banco Mundial, a migração ambiental fará com que cerca de 143 milhões de pessoas se movam ao redor do mundo até 2050 (a Organização Mundial para Migração estima 200 milhões) com repercussões consideráveis tanto em nível social como econômico.

Mas o que sabemos sobre eles, sobre os muitos motivos, muitas vezes entrelaçados, que os levaram a partir? Ainda há poucas pesquisas nessas áreas. As definições são insuficientes, mesmo no nível jurídico. Para aprofundar o tema, nas suas várias nuances (clima e conflitos, migrações internas, papel da mulher, repercussões dos acordos comerciais, migrações e religiões, desigualdades planetárias e possíveis soluções) Casacomune organizou, em colaboração com Marco Aime, professor de antropologia cultural, um seminário de formação online que acontecerá de 26 a 28 de fevereiro próximo (falaremos sobre isso adiante). Nós o entrevistamos.

Eis a entrevista.

Os migrantes ambientais são um fenômeno relativamente novo, pelo menos como denominação. Quem são e como se inserem no fenômeno migratório? Que mudanças relevantes devemos levar em consideração hoje em comparação com as migrações do passado?

As migrações sempre aconteceram. Hoje, porém, tudo sofreu uma aceleração, por muitos motivos, muitas vezes interligados. A primeira mudança, em relação ao passado, é a velocidade com que os movimentos ocorrem: aviões, meios mecânicos (carros, caminhões, navios, balsas ...).

O segundo aspecto é representado pela midiatização do fenômeno: por ser um fato de atração. Estou pensando nas televisões de alguns países das ex-colônias francesas, na África, que transmitem programas europeus com quiz games nos quais você ganha muito de dinheiro ... portanto, fatores definidos atrativos que atuam no imaginário.

Mas o aspecto midiático também tem outras consequências: distorce, enfatiza e, manipulado por algumas forças políticas, concentra-se na espetacularização, por exemplo, das chegadas - definidas como “desembarques” - pouco se questionando sobre as causas que determinam as saídas. Eu digo que distorce e penso no Mediterrâneo, apresentado como o lugar de onde chega a maioria dos migrantes da Europa, enquanto apenas 13% chegam por ele. Eles são migrantes por escolha, migrantes definidos como "econômicos", migrantes que fogem de guerras, migrantes ambientais que podem ser diretos e indiretos.

Direto, indireto, vamos aprofundar.

Direto significa que a migração acontece porque os territórios foram inundados, porque foi construída uma barragem e a área ficou submersa. Indireto pelo chamado efeito borboleta: um evento em determinado lugar, mesmo distante, tem um efeito dominó que também atinge outro território. Como, por exemplo, no aquecimento dos mares: com o aumento das temperaturas muitos peixes morrem, ou se deslocam, e as populações que viviam da pesca precisam se mudar, emigrar. A maioria das migrações são migrações internas para os países de residência ou os continentes, não nos esqueçamos disso. Depois, há as guerras, muitas das quais desencadeadas por questões que têm a ver com o meio ambiente: a água, a exploração dos recursos naturais. Mas vamos em ordem: a desertificação é um processo que começou há muito tempo, mas com as mudanças climáticas provocadas pelo homem, viu uma aceleração notável. Tudo isso foi acompanhado por alguns erros introduzidos pelas políticas coloniais. No Sahel, por exemplo, a introdução da agricultura intensiva conduziu, por um lado, a um empobrecimento progressivo da terra e, por outro, a um aumento da população. População que cortou mais árvores para obter madeira para se aquecer e assim por diante. Além da agricultura, introduziu-se também a criação animal intensiva e daí outras consequências de convivência que, na agricultura e na criação de subsistência, encontravam geralmente soluções quase pacíficas. Com o advento da exploração e, portanto, de um modelo diferente de desenvolvimento (não se pensa mais em ter do que viver, mas se passa a querer acumular, ganhar cada vez mais) os embates se tornaram mais fortes, mais violentos, a ponto de se tornarem embates armado com tudo o que acompanha isso. As disparidades estão aumentando. Muitas pessoas não têm mais do que viver. Estou me referindo, por exemplo, ao Lago Chade, que encolheu 13 vezes em 16 anos. A pobreza aumenta e os jovens se tornam vítimas de organizações terroristas. Outro elemento que tem contribuído para perturbar o equilíbrio natural do qual pouco se fala é o contraste ao nomadismo. Digo contraste porque nenhum governo jamais gostou dos nômades, porque eles não são facilmente controlados: eles se mudam, não têm um lugar fixo onde morar. O nomadismo era, em vez disso, uma forma compatível de usar recursos, dependendo da estação, os nômades se mudavam e pegavam o que havia para viver. E em ecossistemas frágeis, isso representava o justo equilíbrio que a sedentarização alterou.

Existem outros erros, outras responsabilidades?

Sim, infelizmente muitas ONGs também contribuíram para trazer modelos de desenvolvimento baseados no crescimento, sempre e em qualquer caso, indo contra a economia tradicional de subsistência que se baseava em ter o que se precisa; e se você tivesse tempo livre, poderia usá-lo para descansar, para fazer o que quisesse, para estar com sua família. Depois, há as formas de exploração dos territórios que possuem materiais preciosos que geram muitas guerras locais. Vamos pensar no Congo onde existem depósitos de coltan, um material necessário para a construção de nossos telefones celulares: 6 milhões de mortos nas guerras travadas pelas milícias locais. E depois o cobalto, também no Congo, com grande demanda para os motores elétricos. E o urânio, no Mali e no Níger. Sem esquecer os danos provocados à qualidade de vida das populações do Delta do Níger, devido à extração de petróleo. África, sempre África. Não esqueçamos que é na África - são dados em nível internacional - que 75% das migrações acontecem!

Novamente em termos de responsabilidade, até que ponto os acordos comerciais podem afetar tudo isso?

Muito. E aqui também existem responsabilidades em nível da União Europeia. Existem contratos inaceitáveis, por exemplo, que isentam de tributação a exportação de matérias-primas, tributando, em vez disso, produtos semiacabados. Isso retarda, se não impede, o nascimento de pequenos negócios locais. Estou pensando nas florestas de teca no Benin, que podem criar empregos e novas profissões. A isto se somam as políticas de governos que induzem à saída, como a Eritreia, onde um jovem que é chamado às armas aos 16 anos poderia permanecer ao serviço do seu país durante toda a vida. Então, o que dizer se esses jovens decidirem partir?

Pobreza, guerras, terrorismo. E que papel as drogas desempenham em tudo isso?

A pobreza alimenta o fogo dos fundamentalismos. Na África, e em outras áreas do mundo, por vários motivos: guerras, exploração, empobrecimento dos solos, desertificação, desmatamento. O risco de morrer é maior ficando do que saindo. Drogas? Tem os mesmos canais que os traficantes de seres humanos: drogas, guerras, exploração de recursos e exploração de seres humanos.

Existem também fatores culturais que pouco levamos em consideração?

Sempre pensando na África, mas também pode valer para outros continentes, quem sai geralmente é jovem e faz isso por toda a família que investe nele e se tiver sorte, se conseguir chegar lá, arrumar emprego, se inserir, enviará dinheiro para casa para sustentar toda a família. Para mudar de localização geográfica, a Armênia vive das remessas de armênios que emigraram para a Rússia. Em suma, os migrantes, ambientais ou não, são determinados e olham para o futuro com esperança e muitos deles não se movem apenas por si mesmos, mas porque sentem que têm responsabilidade para com os outros. É a história das grandes migrações, desde sempre.

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