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Indígenas isolados que vivem no Peru se refugiam no Brasil


Em janeiro, os Manxineru da TI Mamoadate por muito pouco não entraram em contato com um grupo de isolados conhecido como Mashco Piro.
(Detalhe Foto:Jean-Paul Van Belle/Survival International/2012)

Da Amazônia Real, 11/02/2021

 Por Fabio  Pontes

Rio Branco (AC) – “Nunca aconteceu uma aproximação tão intensa de indígenas isolados no lado brasileiro.” O sertanista José Carlos Meirelles fala com a segurança de quem, desde os anos 1970, trabalha com povos isolados do Acre. No fim de janeiro deste ano, chegaram até ele notícias de que um grupo se aproximou de uma aldeia no Alto Rio Iaco, na Terra Indígena (TI) Mamoadate. Os Manxineru da aldeia Extrema, a última dentro da TI, se depararam com vestígios e ouviram assobios como num sinal para não avançarem mais. Para especialistas ouvidos pela Amazônia Real, é muito provável que sejam os Mashco Piro, que formam o maior grupo de indígenas isolados nesta região fronteiriça e também do mundo.

Os Mashco Piro costumam ficar no período intenso de chuvas na região sul da Amazônia nas partes mais altas e secas. Já nos meses de estiagem, que se estende de abril até o fim de setembro, descem para as partes baixas. Eles são conhecidos por se movimentarem em uma vasta área de floresta – que vai das cabeceiras dos rios Madre de Dios (o Madeira no Brasil) – atravessando o rio de Las Piedras ao Taumanu – e indo até as nascentes dos Rios Acre, Juruá, Chandless, Iaco e Purus. Nesse momento, portanto, deveriam estar longe do território brasileiro.

“Algo deve estar acontecendo para eles se aproximarem tanto do lado brasileiro, pois no Peru, quando [os invasores] topam com índios isolados, eles tocam chumbo”, arrisca o sertanista Meirelles. “Pode ser que estejam procurando no Brasil uma área mais tranquila, e que não falte caça. Pode ser que estejam apenas passando um tempo escondidos. Devem estar se sentindo pressionados.”

Essa pressão pode decorrer de atividades como garimpos, exploração de gás e petróleo, extração descontrolada de madeira e a forte presença do narcotráfico na Amazônia peruana. Mas os Mashco Piro também acabam sendo forçados a se deslocar pela pressão desenvolvimentista dos governos.

A fronteira Brasil-Peru – com extensão de 2,8 mil quilômetros – é uma das mais ameaçadas por explorações econômicas ilegais e projetos de infraestrutura defendidos pelos governos dos dois países. Um dos que ganharam força desde 2019 é a construção de uma rodovia entre as cidades de Cruzeiro do Sul, a segunda maior do Acre, e Pucallpa, capital do departamento de Ucayali.

O traçado da estrada passa por uma das regiões mais ricas em biodiversidade em dimensão global. E é nesse vasto território que se registra a maior presença de povos indígenas em isolamento voluntário do mundo, incluindo os Mashco Piro nas cabeceiras do rio Juruá.

Outro projeto de grande impacto é a conexão rodoviária entre as províncias de Puerto Esperanza e Inãpari, no departamento de Madre de Dios. A rodovia vai atravessar áreas naturais protegidas no Peru e estaria bem próximo da fronteira com as TIs Mamoadate e Cabeceira do Rio Acre.

“Os Mashco Piro vão ficar bem no meio do traçado da rodovia. A rota tradicional deles vai estar afetada por ramais de madeireiras e de garimpo”, alerta o indigenista José Frank de Melo, assessor técnico do Setor de Geoprocessamento da Comissão Pró-Índio (CPI-Acre).
Isolados buscam locais mais seguros

Índios isolados fazem contato e recebem banana de Fernando Ashaninka (Foto: Funai/2014)


Em junho de 2014, quando um grupo de isolados fez contato com os Ashaninka da aldeia Simpatia, no alto rio Envira, também região de fronteira, eles estavam em busca de um local mais seguro para fixar moradia.

Agora considerado um povo de recente contato, os isolados do Xinane relataram que chegaram ao lado brasileiro após serem expulsos por invasores do lado peruano. O sertanista Meirelles participou do processo de aproximação deles com os Ashaninka. Formando um grupo de ao menos 35 pessoas, hoje eles vivem numa base da Fundação Nacional do Índio (Funai) na TI Kampa e Isolados do Rio Envira.

Já o grupo que se aproximou dos Manxineru na TI Mamoadate, no mês passado, não é o mesmo do Envira. Isso porque os isolados do Xinane falam uma língua do tronco linguístico Pano, enquanto os Mashco Piro são falantes do tronco Arawak, o mesmo dos Manxineru. Para Meirelles, essa estadia numa área perto da aldeia Manxineru não é por acaso. Os Mashco Piro ainda se caracterizam por andar em grandes grupos, podendo chegar a mais de 200 pessoas.

“O caso de querer fazer contato, acho mais remoto. Mas eles sabem onde estão. Assim como os Manxineru já observaram eles, os Mashco já estão observando os Manxineru há muito tempo, já ouviram que falam uma língua parecida com a deles. Eles não estão ali por acaso. Sabem que estão seguros ali”, explica Meirelles.

Um efeito causado pelo desmatamento para a abertura de garimpos e a retirada de madeiras nobres na Amazônia peruana é a redução na oferta de alimentos. Tanto assim que a área do quase contato entre os Manxineru e os isolados peruanos é conhecida pela fartura de caça. Com os novos moradores às margens do igarapé Paulo Ramos, os Manxineru também buscam outras regiões para caçar.

A principal preocupação para essa proximidade dos Mashco Piro é de ela ocorrer no momento da segunda onda da pandemia da Covid-19. “Este é um tempo muito delicado. Se uma pequena gripe já mata isolados rapidinho, imagine a Covid”, diz o sertanista. Ele diz torcer para que os Mashco estejam apenas de passagem pela TI Mamoadate, evitando um contato ainda mais próximo com os Manxineru.

De acordo a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), o Acre tem registrado – até 8 de fevereiro – 2.447 casos confirmados da Covid-19 entre a população indígena, e 29 mortes. Levantamento feito pela Comissão Pró-índio aponta que 103 moradores da TI Mamoadate foram infectados pelo coronavírus. Ao todo, 1.211 pessoas vivem nas 15 aldeias do território.

Os riscos no contato com os Mashco


Os Mascho-Piro em 2012 (Foto: G. Galli/Survival)


Para a coordenadora do programa de Políticas Públicas e Articulação Regional da Comissão Pró-Índio (CPI-Acre), Ana Luiza Melgaço Ramalho, a pandemia não é o único problema. A indigenista diz temer um possível conflito entre Manxineru e Mashco Piro, caso uma das partes se assuste ao se esbarrar com a outra pela floresta. “Qualquer situação de tensão é uma ameaça. Eles não sabem em quem podem confiar. Qualquer passo mal dado, um Manxineru se assusta, esbarra, dá um tiro para o alto e pode virar um conflito”, pondera.

Por sorte, essa possibilidade é reduzida pelo fato de Manxineru e Mashco Piro não serem povos inimigos e falarem a mesma língua. De acordo com a indigenista, é possível que eles tenham formado um mesmo povo num passado distante. Segundo a tradição Manxineru, os Mashco são originários da região que hoje forma a TI Mamoadate, chamando-os de “parentes desconfiados”.

A separação entre eles pode ter acontecido durante a invasão da Amazônia para exploração da seringa e do caucho entre o fim do século 19 e início do 20. Enquanto os Mashco conseguiram fugir das correrias (matança de índios) promovidas por seringalistas e caucheiros para as regiões mais altas dos rios, os Manxineru acabaram sendo escravizados para trabalhar no corte do látex.

O sertanista José Carlos Meirelles destaca que os Mashco Piro se caracterizam por ser um povo caçador, não cultivando roçados. Nem mesmo a pesca está entre suas práticas. Por isso, em vez de construir aldeias, montam seus tapiris em áreas com maior fartura de animal. Quando a caça rareia, eles levantam acampamento. Nos meses do verão amazônico, costumam construir os tapiris nas praias formadas às margens dos rios secos.

“Embora sejam conhecidos como nômades, eles mantêm uma territorialidade definida, andam de acordo com os recursos para alimentação”, explica Ana Luiza Melgaço. “Já encontrei tapiri de Mashco que não tinha sequer uma espinha de peixe num local que você pega peixe com a mão, que tem abundância de tracajá e não tinha um casco. Nem um osso de jacaré. Então é um povo que come só carne de caça. Encontrei entre 50 e 60 tapiris deles numa praia nas cabeceiras do Iaco que não tinha uma espinha de peixe, mas tinha cerca de 15 cabeças de anta e 30 a 40 cabeças de queixada”, relata Meirelles.

Uma fronteira muito cobiçada


Comunidade Nativa Bélgica, do povo Yine Piro, no departamento de Madre de Dios (Peru) (Foto: Jardy Lopes/set19)


As regiões de Madre de Dios, no Vale do Alto Acre e de Ucayalli, no Alto Juruá, são caracterizadas pela chamada dinâmica transfronteiriça. A fronteira sul do Peru com o Brasil é separada pelo curso do rio Acre, assim como os limites do Brasil com a Bolívia. Na outra margem do rio vivem os Yine Piro, parentes próximos dos Manxineru e dos Mashco Piro.

Por ser uma das últimas áreas de floresta preservadas do Peru, o território dos Yine é bastante cobiçado pelas grande madeireiras de Iñapari, província de Madre de Dios vizinha a Assis Brasil, no Acre. Isso obriga uma grande e constante movimentação dos povos indígenas.

Já há alguns anos a CPI desenvolve trabalhos de monitoramento dessa dinâmica e acompanha os projetos de infraestrutura dos dois governos para a região. “A pressão está aumentando, e para os Mashco não é diferente. Tem coisa acontecendo na fronteira que a gente ainda não sabe. Se fizer monitoramento por imagens de satélite vamos ver muitas clareiras [de desmatamento] na região do Alto Rio Acre”, afirma José Frank, da Comissão Pró-Índio.

“Toda esta fronteira do Acre, desde as cabeceiras do rio Acre, passando por Ucayali e a Serra do Divisor, além de ser de alta biodiversidade, também guarda uma rica área cultural de povos diferentes e isolados que nem temos conhecimentos de quais são ou quantos são”, reforça Ana Luiza Melgaço Ramalho. “Essa pressão está aumentando cada vez mais. Madeireira, narcotráfico e garimpos, mais a escassez de recursos naturais do lado peruano que reduz alternativas de alimentação.”

Os grupos se observam antes do contato

Aldeia Extrema (Foto: José Frank/CPI Acre/fevereiro de 2020)

Além de buscarem por mais oferta de alimentos, os Mashco Piro devem estar à procura de mais segurança física. Para o sertanista José Meirelles, ainda não é possível afirmar se os isolados desejam estabelecer algum tipo de contato com os Manxineru. Para ele, os novos “moradores” da TI Mamoadate ainda estão numa fase de observação dos vizinhos para saber se é seguro para eles manter seus tapiris por ali.

A aldeia Extrema fica às margens do rio Iaco, que banha toda a Terra Indígena Mamoadate, a maior em extensão territorial do Acre. Homologado em 1991, o território mede 314 mil hectares espalhados pelos municípios de Assis Brasil e Sena Madureira, sendo habitado pelos Manxineru e Jaminawa. A TI está entre as 11 do Acre com registro da presença ou passagem de grupos isolados, assim como a vizinha Cabeceira do Rio Acre, também território dos Jaminawa e Manxineru.

A Mamoadate faz limites com as unidades de conservação Reserva Extrativista Chico Mendes, Estação Ecológica Cabeceira do Rio Acre e o Parque Estadual do Chandless. Todos estes rios – Acre, Iaco e Chandless – estão na bacia do Purus, um dos principais afluentes da margem direita do rio Amazonas.

Apesar da existência desse cinturão de áreas protegidas com quase 2 milhões de hectares, as terras indígenas e unidades de conservação no sudeste do Acre passaram a sofrer, desde 2019, pressões pela expansão da pecuária e extração de madeira. A região é a mais impactada pela política de ocupação da Amazônia implementada durante a ditadura militar (1964-1985), já a partir da década de 1970.

Os extensos seringais, após o colapso da economia da borracha, viraram fazendas de gado. Foi por essas terras que surgiu o movimento de resistência contra a devastação da floresta, liderado pelo seringueiro Chico Mendes. Em 2019, um ramal começou a ser aberto por um fazendeiro de Assis Brasil nos limites da TI Mamoadate e da Resex Chico Mendes. A justificativa era a de que a estrada serviria para tirar as toras de madeira de projeto de manejo numa de suas fazendas.

O Ministério Público Federal (MPF) recomendou, em setembro de 2019, que o Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) não concedesse as licenças para a obra não fossem concedidas. Assim, a abertura do ramal foi embargada. O dono da fazenda é processado pelo MPF por ter desmatado mais de 70 hectares de floresta dentro da Resex Chico Mendes sem autorização.

O avanço das madeireiras na fronteira Caminhão entra em território Yine Piro para retirar toras em projeto de manejo desenvolvido na área, com autorização dos indígenas (Foto: Jardy Lopes/set19)


No Peru, as terras indígenas são chamadas de comunidades nativas. Os Yine entregaram parte dos 53 mil hectares das terras da Comunidade Nativa Bélgica, em Iñapari, para o manejo de madeira. Agora, o tráfego de caminhões carregados com tora se intensificou dentro do ramal que passa pela comunidade. “Os donos das madeireiras chegam para a liderança, tiram a madeira, empregam os parentes, mas no final deixa o povo na miséria. Os indígenas ficam sem madeira e sem roçado”, diz José Frank, da CPI-Acre.

Há um certo consenso entre ambientalistas e pesquisadores de que esses impactos descontrolados na porção sul da Amazônia peruana foram causados pela construção da Rodovia Interoceânica, que tinha como promessa promover o desenvolvimento na tríplice fronteira Brasil-Bolívia-Peru. A estrada pretende conectar a região aos portos do litoral peruano do Pacífico. Na prática, as consequências da obra são a devastação de imensas áreas de floresta para a retirada de madeira e abertura de garimpos. Também a região se tornou uma das novas rotas para o tráfico internacional de drogas e humanos. E os antes protegidos indígenas isolados agora não conseguem mais escapar desses efeitos predatórios.

O que a Funai tem feito

Posto de Vigilância da Aldeia Extrema (Foto: Equipe Manxineru de monitoramento)

A Funai informou que apoia o trabalho desenvolvido pelos Manxineru de proteção e monitoramento territorial, e realiza ações próprias por meio de expedições e sobrevoos para detectar possíveis ameaças aos grupos isolados. Estas ações são executadas por meio da Frente de Proteção Etnoambiental Envira.

Segundo o órgão, o principal trabalho feito para monitorar a presença dos isolados é feito pelos próprios Manxineru, por meio de um posto de controle construído na aldeia Extrema. A Funai afirma que orienta os Manxineru a adotarem a política de não contato com os “parentes desconfiados” e para evitar a visita de não-indígenas em suas comunidades no atual contexto de pandemia.

“Os colaboradores, cientes da política de não contato [com os isolados] exercida pela Funai, recebem alimentação, combustíveis e auxílio financeiro, exercendo um trabalho permanente que contribui para minimizar os impactos da pandemia nas aldeias do entorno por meio da sensibilização sanitária e do isolamento social”, diz nota enviada à Amazônia Real.

Ainda de acordo com o órgão, o posto de controle pode se comunicar rapidamente por radiofonia com a sede da Funai e que uma barreira sanitária foi instalada no Rio Iaco, próximo de onde os Mashco Piro podem ter passado. Em novembro, foi realizada uma segunda atividade de monitoramento dos isolados e até um sobrevoo chegou a ser realizado, não encontrando “ameaças externas nessa área protegida”, conclui a nota.Grupo de monitoramento Manxineru em atividade de monitoramento e identificação de vestígios de isolados (Foto: Equipe Manxineru de monitoramento/Jan2020)

Esta reportagem é apoiada pela Open Society Foundations dentro do projeto “Marcas da Covid-19 na Amazônia”

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Fabio Pontes


Fabio Pontes é jornalista acreano há mais de 10 anos produzindo reportagens que vão da questão ambiental-amazônica, indígena, humanitárias (imigração), mudanças climáticas (enchentes e secas severas) até a política regional. Entre os veículos para os quais já escreveu estão Folha de São Paulo, Valor Econômico, Veja e BBC Brasil. Atualmente escrevo com mais frequência para a Agência Amazônia Real e a revista piauí, além de manter o blog (fabiopontes.net).


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