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Globalização & Covid: aqui surgiu a cepa inglesa

Retrato da devastação neoliberal, no centro do mundo. Na lendária Kent, vizinha a Londres, famílias imigrantes trabalham em precariedade e sobrevivem em cubículos insalubres. De lá, o SARS-CoV2 — variante B 1.1.1.7 espalhou-se pelo planeta



De OUTRASPALAVRAS, 23 de Fevereiro 2021
Por Patrick Cockburn, no London Review of Books | Tradução: Simone Paz


Em outubro do ano passado, o número de infectados da Covid-19 começou a aumentar nas cidades costeiras ao nordeste de Kent. A região havia driblado bem a primeira onda da pandemia até a primavera, e muitos de seus moradores diziam não conhecer ninguém que tivesse contraído o vírus. Após o fim do lockdown, no dia 4 de julho, pairava no ar a sensação de que a crise havia acabado — assim, houve pouco alarme quando o número de infecções começou a aumentar. Os distritos mais afetados foram Thanet, que inclui as cidades de Margate, Broadstairs e Ramsgate; e Swale, mais a oeste, cujos principais centros populacionais são Sittingbourne, Faversham e a Ilha de Sheppey, próxima da costa. Em novembro, o número de casos aumentou vertiginosamente e logo o nordeste de Kent tinha as maiores taxas de infecção do país. Em meados do mesmo mês, o distrito municipal de Sheppey East, na Ilha de Sheppey, teve uma taxa de infecção de 1,9 mil para 100 mil — sete vezes o nível do Reino Unido como um todo.

In October​ last year the number of people infected with Covid-19 began to rise in the coastal towns of north-east Kent. The area had escaped the full impact of the first wave of the pandemic in the spring, with many residents saying that they didn’t know anyone who had caught the virus. After the end of the lockdown on 4 July, there was a sense that the crisis was over and there was little alarm when the number of infections started to climb. The worst affected districts were Thanet, which includes the towns of Margate, Broadstairs and Ramsgate, and Swale, further west, whose main population centres are Sittingbourne, Faversham and the Isle of Sheppey, just offshore. In November case numbers rose steeply and soon north-east Kent had the highest infection rates in the country. By the middle of the month the council ward of Sheppey East, on the Isle of Sheppey, had an infection rate of 1917 per 100,000 – seven times the level in the UK as a whole.

O lockdown e seu complexo sistema de diferentes níveis para cada região, parecia que supunha um vírus de mobilidade limitada, que respeitaria fronteiras municipais. Mas começava a ficar evidente que, independentemente da eficácia do lockdown em outras regiões do Reino Unido, ele não estava funcionando neste canto de Kent. O surto de infecções avançou inexoravelmente para o interior, em direção ao lugar que eu moro, em Canterbury, a quinze milhas de Margate e dez milhas de Faversham.

The lockdown, with its complicated system of different tiers for different regions, appeared to suppose a virus of limited mobility with a high respect for municipal boundaries. But it was becoming clear that, whatever the effectiveness of lockdown in other parts of the UK, it wasn’t working in this corner of Kent. The surge in infections moved inexorably inland towards where I live in Canterbury, fifteen miles from Margate and ten miles from Faversham.

Não surpreende que os distritos de Swale e Thanet tenham sido gravemente afetados: essas são áreas reconhecidas pela sua pobreza, e é muito provável que essa característica tenha propiciado um terreno ideal para a reprodução do vírus. Swale e Thanet são os principais exemplos da Grã-Bretanha litorânea, lugares em decadência, onde hotéis e pousadas quebrados foram transformados em apartamentos de um quarto, onde poucos podem trabalhar de casa porque seus empregos não o permitem; e onde, de qualquer jeito, as moradias são pequenas demais para conseguir trabalhar nelas. Anos de austeridade já haviam cortado o financiamento e os benefícios dos quais estas cidades dependiam. As pessoas são mais vulneráveis ao vírus aqui porque sua saúde já era precária antes da pandemia e seu acesso à saúde muito limitado: em Swale, a proporção de médicos de família para os residentes é menor do que em qualquer outro canto da Inglaterra. A desigualdade é extrema: uma mulher que habita a ala mais rica de Thanet viverá, em média, 22 anos a mais do que uma mulher da ala mais pobre.

It wasn’t surprising that Swale and Thanet should be badly affected: these are areas notorious for their poverty and likely to provide an ideal breeding ground for the virus. They are prime examples of coastal Britain, depressed places where failed hotels and B&Bs have been chopped up into one-room flats and where few can work from home because their jobs won’t allow it; the homes, in any case, are too small to work in. Years of austerity had already cut back the funding and benefits on which such towns depended. People were vulnerable to the virus here because their health was poor before the pandemic and their access to healthcare limited: in Swale the ratio of GPs to residents is lower than anywhere else in England. Inequality is extreme: a woman living in the most affluent ward in Thanet will live on average 22 years longer than a woman living in the most deprived ward.

De certa maneira, achei reconfortante refletir sobre os fatores favoráveis à disseminação do vírus nas cidades costeiras de Swale e Thanet que podem não se aplicar a uma cidade do interior como Canterbury. Na extremidade leste da Ilha de Sheppey, existem três prisões, com cerca de três mil prisioneiros, onde se sabe que houve um surto de Covid-19. Muitas pessoas insistem que as prisões devem ser a razão por trás da alta taxa de infecção na ilha — embora um oficial de saúde pública já tenha dito que apenas 20 por cento das infecções locais foram registradas em prisões ou lares de idosos. Outra explicação para a epidemia era que ela tinha a ver com imigrantes. Thanet já foi o coração do UKIP (UK Independence Party, um partido político britânico eurocético e de direita), único lugar onde o partido ganhou o controle do conselho local.

I found it a little comforting to reflect on factors favourable to the spread of the virus in the coastal towns of Swale and Thanet that might not apply to an inland city like Canterbury. At the east end of the Isle of Sheppey there are three prisons, with some three thousand prisoners, where an outbreak of Covid-19 was known to have taken place. Many people insisted that the prisons must be the reason the rate of infection was so high on the island – though a public health official said that only 20 per cent of infections locally had been recorded in prisons and care homes. Another explanation for the epidemic was that it had to do with immigrants. Thanet was once the heartland of Ukip, the only place where the party won control of the local council.

Os moradores de Margate reclamam dos imigrantes dando festas, se aglomerando nas ruas sem máscaras e assoando o nariz de maneira arriscada. “Você se cansa de ouvir as pessoas dizendo que eles [os imigrantes] trazem o vírus”, disse-me Ivor Riddell, um sindicalista e condutor de ferrovias. “Tudo isso faz parte da crença de que se nos livrássemos dos imigrantes, poderíamos voltar à década de 1950.”

Margate residents complained about immigrants holding parties, mingling in the streets without masks and blowing their noses unsafely. ‘You get fed up with hearing people say they [the immigrants] are bringing it in,’ Ivor Riddell, a railway conductor and trade unionist, told me. ‘It’s all part of their silver bullet belief that if we got rid of the migrants, we could get back to the 1950s.’

Algumas dessas explicações pareciam verossímeis, outras eram um bode expiatório escancarado — mas todas se revelaram igualmente incorretas. No final de novembro, a epidemia se espalhava rapidamente ao longo do estuário do Tâmisa, passando por Medway, Gravesham e Dartford, a oeste; e em direção a Canterbury e Maidstone, ao sul. Os trabalhadores da saúde pública prometeram um “mergulho profundo” nas razões da deterioração da situação, mas pareciam perplexos, recomendando apenas que as pessoas cumprissem com mais rigor as restrições. Em Londres, os cientistas que dirigiram o plano nacional de resposta à Covid-19 ficaram igualmente perplexos quanto ao motivo pelo qual o lockdown funcionava dentro do esperado em todo o país, menos aqui.

Some of these explanations sounded credible, others an obvious piece of scapegoating – but they turned out to be equally incorrect. By late November the epidemic was spreading fast along the Thames Estuary through Medway, Gravesham and Dartford to the west, and south towards Canterbury and Maidstone. Public health officials promised a ‘deep dive’ into the reasons for the deteriorating situation, but they appeared baffled, recommending only that people stick more rigorously to the restrictions. In London the scientists directing the national response to Covid-19 were similarly perplexed as to the reason the lockdown was working as expected in the country at large but not here.

Uma nova variante do vírus havia sido detectada em Kent já em 20 de setembro, mas seus poderes ainda não tinham se tornado visíveis. Eventualmente, os níveis de infecção chamaram a atenção geral. Em 23 de dezembro, Peter Horby, presidente do NERVTAG – Grupo de Orientação sobre Ameaças de Vírus Respiratórios Novos e Emergentes, declarou: “esta variante tornou-se interessante porque, apesar do lockdown nacional, ocorreu uma investigação em Kent, no início de dezembro, devido ao número crescente de casos”.

A new variant of the virus had been detected in Kent as early as 20 September but its capabilities had not yet become visible. Eventually the levels of infection brought it to general attention. ‘This variant became of interest,’ Peter Horby, the chairman of the government’s New and Emerging Respiratory Virus Threats Advisory Group (NERVTAG), said on 23 December, ‘because there was an investigation of the increasing case numbers in Kent in early December, despite the national lockdown.’

Já era tarde demais para tentar isolá-la. A nova cepa já vinha desenfreada, deslocando rapidamente o vírus original em Kent, Londres e em todo o sudeste. Em 18 de dezembro, a NERVTAG concluiu que a variante “começou em Kent, provavelmente de uma pessoa, e depois se expandiu”. Também estimaram que ela era entre 30% e 70% mais infecciosa do que a cepa original. Na última semana de dezembro, aquela que vinha ganhando fama como “a variante Kent” — seu nome científico é B.1.1.7 — era dominante na Inglaterra. Em fevereiro, a variante já havia se espalhado para 83 países e foi detectada inclusive na Nova Zelândia, que até então tinha cercado com sucesso o Covid-19; nos EUA, os cientistas esperavam que se tornasse a variante dominante em março.

By then it was too late to try to confine it. The new strain was already rampant and swiftly displacing the original virus in Kent, London and across the South-East. On 18 December, NERVTAG concluded that the variant had ‘started in Kent, probably from one person, and then expanded’. They also estimated that it was between 30 and 70 per cent more infectious than the original strain. By the last week of December, what was becoming known as ‘the Kent variant’ – its scientific name is B.1.1.7 – was dominant in England. By February it had spread to 83 countries and had been detected even in New Zealand, which had so far successfully suppressed Covid-19; in the US, scientists expected it to become the dominant variant by March.

A NERVTAG não deu detalhes do local específico de Kent onde a variante foi localizada pela primeira vez, mas o Covid-19 Genomics UK Consortium (algo como um Consórcio Britânico do Genoma da Covid-19 — composto por um grupo de agências de saúde pública e instituições acadêmicas) revelou que uma amostra-chave teria vindo de um paciente que vivia “perto de Canterbury”. Uma fonte médica, que solicitou anonimato, me contou que a variante foi identificada pela primeira vez em Margate e que veio de alguém com um sistema imunológico fraco. Alguns em Kent sentiam aversão à perspectiva do novo vírus ficar conhecido na história como “a variante de Kent”, traçando um paralelo com o “vírus chinês” de Trump, ou a “gripe espanhola” que nem veio da Espanha (ela se tornou uma epidemia nos campos de treinamento militar dos EUA).

NERVTAG gave no details about where in Kent the variant was first located, but the Covid-19 Genomics UK Consortium said that a key sample came from a patient living ‘near Canterbury’. A medical source, who wanted to stay anonymous, told me that the variant was first identified in Margate and came from someone with a weak immune system. Some in Kent jibbed at the prospect that the new virus would be known to history as ‘the Kent variant’, drawing a parallel with Trump’s ‘China virus’ or the ‘Spanish flu’ that didn’t even come from Spain (it first reached epidemic level in military training camps in the US).

Seria difícil encontrar um lugar onde o coronavírus tivesse maior probabilidade de florescer e aprimorar seu modo de ataque do que Thanet e Swale. Como em grande parte da costa da Grã-Bretanha, poucas cidades ainda funcionam com portos ou resorts à beira-mar. A antiga indústria praticamente sumiu — levando consigo os poucos empregos bem remunerados possíveis. Dos quinze bairros mais carentes de Kent, sete estão em Thanet e seis em Swale. “Perdemos a indústria de mineração e o porto de Ramsgate, que era um grande empregador”, diz o vereador do Partido Trabalhista, Barry Lewis, lamentando os repetidos golpes que Margate tem sofrido nos últimos quarenta anos. As indústrias hoteleira e turística entraram em colapso “quando todos começaram a viajar para o exterior nas férias”. A última grande indústria na região foi a fábrica da Pfizer, perto de Sandwich, que fechou em 2011 e acarretou na perda de 1.500 empregos. Os empregos que restaram são geralmente para trabalho intermitente — o chamado “contrato zero-hora”. Um mapa que destaca as áreas de maior miséria coincide quase que perfeitamente com outro que indica as altas taxas de infecção viral.

It would be difficult to find a place where coronavirus was more likely to flourish and to enhance its mode of attack than Thanet and Swale. As in much of coastal Britain, few of the towns here are still working ports or seaside resorts. What industry there once was is largely gone, taking with it the few well-paying jobs. Of the fifteen most deprived neighbourhoods in Kent, seven are in Thanet and six in Swale. ‘We lost the mining industry and Ramsgate harbour, which was a big employer,’ the Labour councillor Barry Lewis says, lamenting the repeated blows to Margate over the past forty years. The hotel and tourism industries collapsed ‘when everybody started going abroad for their holidays’. The last big manufacturer in the area was the Pfizer plant near Sandwich, which closed in 2011 with the loss of 1500 jobs. The jobs that remain are often on zero-hours contracts. A map showing areas of maximum deprivation fitted neatly over one showing high rates of viral infection.

Tudo na vida profissional média de qualquer pessoa de Swale ou Sheppey os coloca em risco. Muito disso tem a ver com a necessidade de sair para trabalhar. Como disse Jackie Cassell, especialista em saúde pública da Brighton and Sussex Medical School que cresceu em Sheppey, “a pobreza é um mecanismo para aumentar o contato social”. As pessoas na ilha têm uma maior probabilidade do que a população em geral de usar o transporte público para ir ao trabalho, fazendo turnos de oito ou mais horas por dia em armazéns ou em canteiros de obras. E as pessoas com pouco dinheiro têm também mais chances de cuidar eles mesmos de parentes doentes ou idosos. Em um estudo sobre padrões de trabalho, Cassell descobriu que, em média, alguém que sai para trabalhar tem doze períodos prolongados ou próximos de contato com as pessoas e dezessete breves ou distantes; aqueles que trabalham em casa têm apenas dois períodos de contato próximos ou prolongados e dois breves ou distantes.

Everything about the average working life of someone in Swale or Sheppey puts them at risk. Much of this is to do with the need to go out to work. As Jackie Cassell, a public health specialist at the Brighton and Sussex Medical School who grew up on Sheppey, put it, ‘poverty is a mechanism for increasing social contact.’ People on the island are more likely than the population at large to use public transport to get to work, doing shifts of eight or more hours a day in warehouses or on construction sites. And people with little money are more likely to look after sick or ageing relatives. In a study of working patterns, Cassell found that on average someone who goes out to work has twelve prolonged or close periods of contact with people and seventeen brief or distant ones; those working from home have only two close or prolonged periods of contact and two brief or distant ones.

O efeito que isso tem na prática depende da natureza do trabalho e do empregador. Riddell, o sindicalista e condutor ferroviário, diz que a proporção de passageiros que usam máscaras no trem varia de linha para linha, mas o trecho de Sittingbourne a Sheerness (no lado oeste de Sheppey) é particularmente arriscado para os funcionários ferroviários porque “entre 50% e 60% das pessoas, principalmente os mais jovens, não usam máscaras”. Como condutor, ele pode ficar na cabine da frente com o motorista e não precisa verificar as passagens dos passageiros. Mas Sue Saunders, que trabalha como faxineira nos trens, tem que andar pelos vagões borrifando desinfetante e limpando superfícies.

The effect this has in practice depends on the nature of the job and the employer. Riddell, the railway conductor and trade union official, says that the proportion of train passengers wearing face masks varies from line to line, but the stretch from Sittingbourne to Sheerness on the west side of Sheppey is particularly risky for rail staff because ‘between 50 and 60 per cent of people, mostly the young ones, don’t wear masks.’ As a conductor, he is allowed stay in the front cabin with the driver and doesn’t have to check passengers’ tickets. But Sue Saunders, who works as a cleaner on the trains, has to walk through the carriages spraying sanitiser and cleaning surfaces.

Sue conta: “Temos viseiras, máscaras e luvas, mas tememos pela nossa segurança e vários de meus amigos já pegaram Covid”. Os faxineiros costumam ser as únicas pessoas vestidas com uma certa oficialidade nos trens e, de acordo com Saunders, são frequentemente parados por passageiros que precisam de informações. Ela diz que a higienização poderia ser feita quando os trens estão vazios entre as viagens, mas que as companhias ferroviárias querem que os passageiros vejam os limpadores trabalhando.

‘We have visors, masks and gloves,’ she says, ‘but we fear for our safety and several of my friends have caught Covid.’ The cleaners are often the only official-looking people on a train and, according to Saunders, are frequently stopped by passengers who want information. She says that sanitising could be done when the trains are standing empty between journeys, but the train companies want passengers to see that the cleaners are at work.

O compromisso com as restrições à interação social expirou em larga escala durante o verão. Sharon Goodyer, que dirige o Margate Food Club, diz que seus voluntários às vezes não conseguiam distribuir alimentos com segurança em áreas pobres porque tinham que abrir espaço empurrando as pessoas sentadas nas portas e se aglomerando na rua. “Tenho a sensação”, diz ela, “de que se essa nova variante começou em Margate, e então ganhamos ela”. Mas ressalta que mesmo as pessoas pobres precisam sair de casa: “Você não pode julgar se você mora numa boa casa e não tem ratos moribundos embaixo de sua cadeira”. Barry Lewis menciona uma rua em Margate com cerca de duzentas casas superlotadas, onde os residentes alugam quartos minúsculos a preços abusivos. “É quase uma prisão, então sair para a frente da casa faz parte de seu modo de vida normal, e ficar preso em um cômodo superlotado não é viável”.

Compliance with restrictions on social interaction largely lapsed over the summer. Sharon Goodyer, who runs the Margate Food Club, says that her volunteers sometimes couldn’t safely distribute food in poor areas because they had to push past people sitting in doorways and mixing in the street. ‘I have a feeling,’ she says, ‘that if this new variant started in Margate, then we earned it.’ But she points out that even poor people need to get outdoors: ‘You can’t be too judgmental if you’re living in a nice house and don’t have mice dying under your chair.’ Barry Lewis mentions one street in Margate with two hundred overcrowded houses where residents rent tiny rooms at high prices. ‘It’s almost a prison, so to get out to the front of the house is your normal way of life and to be stuck in one overcrowded room is not possible.’

A chegada da variante mudou a atitude das pessoas. Vanessa Crick, mãe de três filhos em Herne Bay, uma cidade decadente na costa entre Swale e Thanet, tem dois empregos: um na biblioteca local, e o outro, num supermercado. Ela diz: “Desde novembro passado, mais pessoas começaram a usar máscaras porque temem por seu avô ou sua avó”. Charlotte Cornell, que dirige uma instituição de caridade que distribui laptops para a educação à distância de crianças em áreas carentes, diz que nenhuma das famílias com as quais ela lida é arrogante em relação ao vírus: “Todos têm pavor dele”.

The arrival of the variant changed attitudes. Vanessa Crick, a mother of three in Herne Bay, a rundown town on the coast between Swale and Thanet, has two jobs, in the local library and in a supermarket. ‘Since last November,’ she says, ‘more people have started wearing masks because they are frightened for their granddad or their nan.’ Charlotte Cornell, who runs a charity distributing laptops for homeschooling to children in deprived areas, says that none of the families she deals with is cavalier about the virus: ‘They are all terrified of it.’

Quando especialistas em saúde pública foram enviados a Kent no final do ano passado para investigar as razões da epidemia local, eles suspeitavam que a propagação seria atribuível a ações humanas em casa ou no local de trabalho. O que sabiam era que tudo na vida das pessoas em Thanet e Swale favorecia uma transmissão acelerada do vírus. O ambiente também era um fator: balneários decadentes têm muitos hotéis antigos com vista para o mar, cuja grandeza desbotada os torna ideais para a conversão em lares de idosos. Em maio passado, dezessete residentes morreram de Covid-19 em um lar de idosos em Margate, mas as mortes massivas em asilos foram um escândalo em toda a Grã-Bretanha — não houve nada de peculiar em Thanet.

When public health experts were sent to Kent at the end of last year to investigate the reasons for the local epidemic, they suspected that the spread would be attributable to human actions at home or in the workplace. Everything they knew about the lives of people in Thanet and Swale would favour accelerated transmission of the virus. The physical environment was a factor too: decayed seaside resorts have many former hotels with sea views whose faded grandeur make them ideal for conversion into care homes. Last May, seventeen residents died from Covid-19 in one such care home in Margate, but mass deaths in care homes were a scandal all over Britain and hardly peculiar to Thanet.

Um motivo mais provável para a rápida disseminação era que muitas pessoas tinham bons motivos para não fazerem testes de Covid. Pessoas que testam positivo, mas que precisam trabalhar e não recebem auxílio se faltarem ao emprego, não podem ficar de quarentena. “Jovens do sexo masculino em áreas economicamente carentes não querem fazer o teste”, diz Jackie Cassell sobre Swale. Ela aponta para um estudo feito em Liverpool, onde apenas 4% das pessoas em um dos bairros mais pobres da cidade se ofereceram para um teste. Desde o início da pandemia, o governo tem sido volúvel sobre as restrições que impõe, e evasivo sobre até que ponto as pessoas as cumprem. Um estudo do King’s College London mostrou que, enquanto 70% das pessoas disseram que se isolariam se fosse necessário, apenas 18% cumpriram.

A more likely reason for the rapid spread is that many people had good reasons for not getting Covid tests. People who test positive but need to go out to work and won’t get sick pay can’t afford to quarantine. ‘Young males in economically deprived areas do not want to get tested,’ Jackie Cassell says of Swale. She points to a study in Liverpool where only 4 per cent of people in one of the city’s poorest neighbourhoods volunteered for a test. Since the pandemic began, the government has been voluble about the restrictions it has imposed but evasive about how far people comply with them. A study by King’s College London showed that, while 70 per cent of people said they would self-isolate if necessary, only 18 per cent did so.

As pessoas que não fazem o teste porque não podem bancar a quarentena se comportam de maneira discreta. Mas há outros grupos que também não querem chamar a atenção de nenhuma autoridade. Graham Tegg, diretor da Kent Law Clinic, que fornece assistência jurídica gratuita, diz que há “um sistema subterrâneo” de trabalhadores imigrantes, cuja maioria vive na Grã-Bretanha há muito tempo e deseja manter distância das instituições estatais. Muitos de seus clientes são tchecos, poloneses e ciganos. Alguns colhem frutas e vegetais ou trabalham em fábricas de embalagens; recolhidos por minivans pela manhã, trabalham dez horas e voltam à noite na mesma van. “Três ou quatro deles podem estar morando no mesmo pequeno cômodo”, diz Tegg, fornecendo condições perfeitas para o vírus se espalhar.

People not getting tested because they can’t afford to quarantine will keep a low profile. But other groups aren’t keen to catch the attention of anyone in authority. Graham Tegg, the director of the Kent Law Clinic, which provides free legal assistance, says there is ‘an underground system’ of migrant workers, many of whom have lived in Britain for a long time, who want to keep their distance from state institutions. Many of his clients are Czechs, Poles and Roma. Some pick fruit and vegetables or work in packing factories; collected by minivans in the morning, they work for ten hours and come back in the evening in the same van. ‘Three or four of them may be living in the same small room,’ Tegg says, providing perfect conditions for the virus to spread.

Mas a maioria das pessoas em Thanet e Swale não têm “conexão com as autoridades”, de acordo com Barry Lewis: só veem a autoridade em ação quando a polícia os impede de fazer algo que desejam fazer. Alguns deles são desempregados de terceira geração, cuja única perspectiva de ganhar dinheiro está no mercado negro ou no comércio de drogas — descritos por um habitante como a única indústria em crescimento em Thanet. “O que temos aqui é uma comunidade inteira que não tem nenhum investimento na sociedade”, diz Sharon Goodyer. “Eles devem algo a alguém? Não. Eles não recebem uma educação decente nem possuem uma casa decente, um emprego decente. Então, por quê que eles deveriam se comportar de maneira responsável?”

But most people in Thanet and Swale are ‘disconnected from authority’, according to Barry Lewis: the only time they see authority in action is when the police stop them doing something they want to do. Some of them are third-generation unemployed whose only prospect for making money is in the black market or the drugs trade – described by one resident as the only growth industry in Thanet. ‘What we have here is a whole community who have no investment in society at all,’ Sharon Goodyer says. ‘What do they owe anybody? They don’t. They don’t have a decent education, a decent home, a decent job. Why should they behave responsibly?’

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