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Fórum Econômico Mundial: “Sem biodiversidade, não há recuperação econômica”

Do IHu, 05 Fevereiro 2021
Por Centro ODS, publicada por El Espectador, 03-02-2021. A tradução é do Cepat.



O ano de 2021 assentará as bases dos desafios que a humanidade deverá assumir durante a próxima década. Com 2,2 milhões de mortes por Covid-19 e 103 milhões de contágios, em nível mundial, todos os Estados precisarão trabalhar pela contenção da pandemia, levando em conta os planos de vacinação e a recuperação econômica que não espera. Estes desafios estão ligados ao compromisso de 193 países que concordaram cumprir os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030.

Uma das metas traçadas em diferentes países da Europa consiste em garantir uma recuperação econômica verde. Na Cúpula sobre Biodiversidade da ONU, que ocorreu em setembro de 2020, a União Europeia se comprometeu a trabalhar por uma recuperação econômica que leve em conta a saúde humana e a dos ecossistemas.

De fato, em maio deste ano, acontecerá a Convenção sobre a Diversidade Biológica da ONU na China, evento que será importantíssimo para que as nações assegurem compromissos palpáveis para enfrentar uma possível recessão, levando em conta os valores da biodiversidade. E em novembro, na Escócia, acontecerá a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26), uma cúpula crucial para ratificar os compromissos do Acordo de Paris.

Economia e saúde


De acordo com o Fórum Econômico Mundial, em nível mundial, a economia apresenta uma contração de 4,4% (na crise financeira de 2008, a contração foi de 0,1%) e na América Latina e o Caribe o cálculo da CEPAL certifica que a contração sobe para 5,4%. Fazendo uma análise a partir das horas de trabalho que deixaram de ser recebidas, Fórum Econômico Mundial ressalta que foram perdidos cerca de 495 milhões de postos de trabalho no segundo semestre de 2020, o que equivale a 14% da força de trabalho no planeta.

A estes números, soma-se outro preocupante: 50% da população não conta com serviços de saúde essenciais, segundo o relatório. Por outro lado, a ONU também destacou que no ano passado foi registrado o primeiro aumento da pobreza global, em décadas. Atualmente, segundo a mesma fonte, 71 milhões de pessoas vivem em miséria extrema e se prevê que cerca de 270 milhões de pessoas se vejam afetadas pela insegurança alimentar pela pandemia, um número que representa 82% a mais do que antes da crise ocasionada pela Covid-19. Em países em vias de desenvolvimento, como Sudão do Sul, Iêmen, Burkina Faso, entre outros da África, prevê-se um aumento de 100% de mortes por malária devido à carência de serviços médicos pela Covid-19.

Tendo em conta os desafios em matéria de saúde pública, a atenção humanitária ganha um papel essencial. Segundo o Fundo de Respostas a Emergências da ONU, cerca de 235 milhões de pessoas precisarão de ajuda humanitária para sobreviver em 2021, 40% a mais do que as que precisaram de ajuda em 2020. Este aumento, de acordo com a mesma fonte, deve-se aos impactos deixados pela Covid-19 na saúde, bem como os impactos da crise climática e dos conflitos armados.

Uma das questões mais preocupantes no relatório do Fórum Econômico Mundial é a seguinte: por causa da recessão global, ao menos 150 milhões de pessoas cairão na pobreza extrema, aumentando a porcentagem de pessoas nestas condições no planeta para 9,4%. Outra das dificuldades que o Fórum Econômico Mundial encontrou está no campo das migrações. Segundo a entidade, cerca de 250 milhões de migrantes trabalhadores no mundo podem sofrer uma séria redução na renda e se projeta que as remessas globais cairão em 14%, em 2021.

As pequenas e médias empresas também atravessam um ano muito complexo e a recuperação será longa, destaca o relatório. Resgatá-las deve ser uma prioridade estatal, pois em países como a China, por exemplo, geram cerca de 80% dos empregos. Durante a pandemia, na China e nos Estados Unidos, cerca de 20% destas empresas fecharam.

Outro risco iminente é o do financiamento de organizações multilaterais. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, o orçamento anual da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 2,4 bilhões de dólares, o que foi insuficiente durante a pandemia.

Para o Fórum, o investimento em saúde pública deve ser uma prioridade dos Estados, pois está demonstrado que diante de desastres naturais ou pandemias, contar com equipamentos de saúde é essencial e inclusive mais favorável economicamente. Por outro lado, o relatório destaca que é crucial contar com mecanismos de acesso equitativo às vacinas no mundo, destacando que o mecanismo Covax, por exemplo, não resultou totalmente eficaz para os países de baixa renda, muitos dos quais conseguiram comprar vacinas para no máximo 20% de sua população.

Futuras gerações e recuperação verde


Como garantir uma recuperação verde no cenário econômico atual? Em primeiro lugar, organizações internacionais como a União Europeia e a ONU destacam que sem biodiversidade, a recuperação econômica não será possível. O vírus Covid-19, assim como o Ebola e a SARS são doenças humanas de origem animal, produto da destruição dos ecossistemas naturais, bem como do tráfico ilegal de animais e do mercado alimentício mal gerido. Neste sentido, é urgente definir um plano para garantir a estabilidade ecológica no planeta.

Em segundo lugar, e ligado ao primeiro desafio, os países precisam traçar projetos de transição energética para reduzir significativamente as emissões de Gases do Efeito Estufa, um compromisso central para enfrentar a crise ambiental que se avizinha. De acordo com um relatório da organização Bloomberg NEF, em 2020, foram investidos 501,3 bilhões de dólares em energias renováveis, um número recorde para o planeta.

Do mesmo modo, os investimentos na transição para uma economia de baixo carbono aumentaram 9% em relação a 2019, segundo a mesma fonte. Como dissemos no Centro ODS, a transição energética na América Latina também é crucial, e por esta razão países como o Chile já estão cultivando a possibilidade de explorar o uso de hidrogênio verde, uma opção que a Colômbia também está avaliando e que precisaria para cumprir com a redução de 50% de emissões até 2050.

Na mesma vereda da transição energética, 126 países anunciaram planos de neutralidade de carbono. Os países do G20, por exemplo, estão destinando 50% a mais em incentivos fiscais para transformar o uso de combustíveis fósseis em energias limpas. De acordo com a ONU, caso não sejam implementadas as medidas de adaptação no campo da energia, o planeta poderá aumentar sua temperatura em 3 graus centígrados nas próximas décadas. Segundo a ONU, com estímulos econômicos verdes é possível reduzir em até 25% as emissões de Gases do Efeito Estufa até 2030.

Em matéria ambiental, o Fórum Econômico Mundial destacou que o ano passado não foi particularmente negativo: as emissões globais de CO2 caíram em 9%, durante o primeiro semestre, devido à desaceleração econômica. O ideal, destaca o relatório, é manter a redução de emissões realizando a transição para energias mais limpas. Neste sentido, será central a COP26, em novembro de 2021, para delinear medidas mais contundentes por parte das potências mundiais, que são responsáveis pela maioria das emissões de gases do efeito estufa.

Outro desafio crucial consiste em garantir a educação e a vida digna de crianças e jovens no mundo. Antes da pandemia, destaca o Fórum Econômico Mundial, cerca de 44% das meninas e 34% dos meninos de países com poucos recursos não completavam o ensino básico. Com a pandemia, estas porcentagens aumentarão, em boa medida, pela exclusão digital.

Com o fechamento de colégios, destaca o relatório, não somente milhões de processos educacionais são perdidos, mas, ao mesmo tempo, meninos e meninas perdem um espaço seguro em contextos de violência. Adicionalmente, o relatório destaca que, como aconteceu em outras recessões, o emprego para jovens se vê fortemente afetado, o que pode exacerbar situações de medo e estresse.

A exclusão digital em nível mundial também ganhou evidência. Segundo o relatório, em países desenvolvidos, cerca de 87% da população tem garantida a conexão à internet, ao passo que em países de poucos recursos o acesso é inferior a 17%, conforme é o caso de países como Paquistão, Quênia e Bangladesh. Em seu relatório, o Fórum Econômico Mundial solicita que os Estados trabalhem para acabar com a exclusão digital, entre outras razões, porque em 2026 calcula-se que 85 milhões de trabalhos deverão ser realizados de computadores.

Por outro lado, o relatório de Global Risk destaca que 70% das mulheres trabalhadoras das nove maiores economias do mundo acreditam que suas carreiras ficarão estagnadas pela pandemia, ao passo que 51% dos jovens, em 112 países, destacam que o processo de educação foi adiado. Em países como México, 45% dos estudantes não podem ter acesso às aulas virtuais, ao passo que na Indonésia esta porcentagem sobe para 65%. Para os adultos, o ano de 2020 também foi complexo. De acordo com a mesma fonte, 60% da população adulta não tem conhecimento digital ou equipamentos para desenvolver seus trabalhos.

A região da América Latina e o Caribe, destaca o Fórum Econômico Mundial, terá grandes desafios. Em primeiro lugar, porque o vírus chegou meses depois em relação à Europa e a Ásia. Em segundo lugar, porque a maioria dos governos implementou controles e quarentenas rigorosas em razão da baixa capacidade de atendimento médico, o que gerou sérios impactos para a maioria da população trabalhadora – em sua maioria informal –, e em terceiro lugar, a evasão escolar pode chegar a níveis preocupantes que não eram vistos há pelo menos 10 anos.

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