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'Estou me sentindo como se minha força tivesse sido drenada por um alienígena', diz Laerte depois de vencer a Covid-19

A cartunista revela como ficou dividida entre o pânico e a serenidade quando foi para a UTI por causa do novo coronavírus



Da Folha de São Paulo, 6.fev.2021
Por Mônica Bergamo


Laerte está de volta à casa. Para a felicidade da família, dos amigos e dos milhares de fãs que acompanharam, com o coração na mão, a sua luta para superar a Covid-19.

Nesta semana, ela tentava convencer o filho, Rafael, a voltar para a casa dele —a outra filha, Laila, também não desgruda num momento em que a cartunista ainda se recupera da doença.

Nesta entrevista, ela conta que, no hospital, ficou “em pânico” quando soube que iria para a UTI, emocionada quando leu as milhares de mensagens de apoio em redes sociais —e preocupada com a sua gata, Muriel, que tem 17 anos e precisou ficar sozinha em casa enquanto a dona lutava pela vida. E agora, Laerte, como vai você?

Laerte - Eu estou bem, parece que as coisas estão bem também. Quer dizer, depende de que coisas você está falando.


TUDO LENDO

Eu não estou desenhando muito bem. Eu inclusive tentei fazer um desenho quando voltei [do hospital]. Saiu uma coisa meio torta [risos]. A minha mão ficou meio tosca.

Tudo ficou meio lento. Estou me sentindo como se minha força tivesse sido drenada por um alienígena [risos]. Tudo ficou mais lento e mais difícil.







Ilustração feita pela cartunista Laerte Arquivo pessoal

Moro em um sobrado. Estou dividindo de forma mais planejada as minhas subidas e descidas. Minha geriatra falou para medir a saturação [de oxigênio] ao usar a escada, controlar a frequência cardíaca. A ideia é ficar atenta e recuperar aos poucos a mobilidade, a força e a rotina.

Faço fisioterapia também. No primeiro dia em casa, eu e meu filho [Rafael] tivemos um gesto audacioso: fomos dar uma volta no quarteirão. Nossa! Fiquei com a panturrilha doendo até agora [risos].

Porque é isso. O corpo realmente teve perda muscular, de energia. A sensação de fraqueza não é uma sensação. Você está fraca mesmo.

Tem que ir devagar. Ainda estou fazendo o desmame da medicação. Vai demorar coisa de um mês.

A QUARENTENA


Eu fiz [a quarentena] mais rígida que eu pude. Mas tenho, por exemplo, pais que exigem cuidados. Eles estão com 97 anos [o pai, José Moacir] e 94 anos [a mãe, Maria de Lourdes]. A minha mãe tem dependência física total, ela não consegue mais andar. Eles moram sozinhos, com assistência permanente de cuidadoras. E eu suponho que tenha contraído o vírus num desses episódios de atender a minha mãe, levá-la em Pronto Socorro.

Avaliando, foi em algum momento desses. Porque, fora isso, minhas incursões pelo mundo são bastante modestas, muito cuidadosas. Não fico saindo. Não saio sem máscara. Uso serviços de entrega.

A Covid-19 não é só uma doença. Ela é uma doença que tem uma dimensão política muito clara, que está ligada a um problema político muito claro que é o avanço do fascismo no Brasil.

Laerte Cartunista

SABER QUE ESTÁ COM COVID

É amedrontador. Eu fiquei assustada. Entre os primeiros sintomas e a realização do teste, esperei cinco dias, como é recomendado. Depois foram mais dois dias para sair o resultado. Fiquei sabendo [que estava com Covid-19] numa quarta-feira. E eu já tinha uma semana com o vírus. Já estava fazendo inalação e tomando uns analgésicos. E bateu a ideia de que estava enfrentando uma coisa mais grave do que eu pensava.

PRIMEIROS SOCORROS


E foi aí que entrou uma rede de amigos, de apoio e de afetos que foi decisiva. Gente que não só me quer bem como é altamente qualificada. O Bira, por exemplo, Ubiratan Paula Santos. Ele é chefe da pneumologia no Incor. Somos amigas há muitos anos.

O próprio Bira teve Covid-19. Ele não só sabe do que está falando, cientificamente, como passou por uma crise pesada. Então ele me atendeu de uma forma preocupada, atenta e muito afetuosa também. O Incor é reconhecido mundialmente. E lá estava eu.

TOSSE E DOR


Em casa, eu tive coriza, dor de cabeça, uma tosse perturbadora. No hospital, a tosse ficou prevalente o tempo todo e tinha a dificuldade de respirar.

FALTA DE AR


É meio apavorante você ficar sem ar [faz o gesto de quem se afoga]. E eu tive que ir para a UTI.

NA UTI


Entrei em pânico. Eu falei: “Bira, o que está acontecendo?”. Ele e o Philippe Colares, médico que também me atendeu, falaram “precisamos ter informações precisas e permanentes sobre a progressão da doença”. Mas eu fiquei meio assim. UTI, pelo amor de Deus.

DIREITOS

Se por um lado não aconteceu [depois da eleição de Bolsonaro] uma inundação de atitudes fascistas e violentas em relação à população LGBT, vem acontecendo um desmonte das estruturas de apoio que existiam antes. A Damares vem produzindo esse desmonte. É um modo de atuar diferente do crescimento fascista. É por baixo do pano.

As candidaturas [LGBT] se multiplicaram, as eleitas aumentaram. Mas, ao mesmo tempo, o deputado Arthur Lira é eleito presidente da Câmara dos Deputados. A coisa precisa ser avaliada como um todo.


[Do ponto de vista pessoal] Eu sou branca, de classe média, eu sou conhecida. Sofri alguns ataques de gente da imprensa e tal [quando se assumiu como transgênero]. Mas muito pouca coisa. Sempre contei com muito apoio. E acho que isso tem uma relação com as estruturas de classe e de desigualdade no Brasil. As trans que moram em condições desfavoráveis e que são negras, pobres, continuaram sendo agredidas, mortas, estupradas e violentadas.

EM CASA


Desde que começou a pandemia, não vi mais salão nem manicure. Eu gosto de ver a minha unha cuidada, o meu cabelo cuidado. Eu ia no [cabeleireiro] Andre Claret. Querido amigo. Como sou uma senhora pouco assídua, ele inventou uma cor para [tingir] o meu cabelo, para que quando começasse a aparecer a raiz [branca], ficasse menos evidente. Era um loiro acastanhado.

ANIVERSÁRIO


Chegar aos 70 [anos, que Laerte vai completar em junho] é perceber que 60 é o novo 40 (risos).

Mas 70 ainda é bom. Acho que foi o [cartunista] Ziraldo que falou que a partir de 90 é que não vale mais a pena.

Mônica Bergamo

Mônica Bergamo é jornalista e colunista.

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