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Carnaval, resistência também na pandemia?

Entraremos em coro com os fundamentalistas que querem criminalizar a maior festa brasileira? Ou, como foliões, reinventaremos fantasias, máscaras e marchinhas para denunciar os crimes, chorar nosso luto, festejar o SUS — mesmo à distância?

Do OUTRAS PALAVRAS, 11/02/2021

Por Jul Pagul

por Redação

Título original: Carnaval como Respiro

Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade
No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança

(Sonho de um carnaval, de Chico Buarque)

Chegou fevereiro, tempo do maior tesouro criativo e cultural do Brasil: o arnaval. Insubmisso e sonhador, todos os anos colore as ruas com multidões. Mas é 2021, e o mundo já se encaminha para o segundo ano de pandemia de covid-19. Não pode haver corpo-a-corpo — elemento essencial da folia. Mas será que realmente “não é hora de pensar em carnaval”? De cancelar feriado (e permitir aglomerações de pessoas indo ao trabalho)? Não seria justamente essa a hora de reinventá-lo?

O carnaval não é apenas aglomeração. Já esquecemos a emoção de assistirmos ao lançamento online do vídeo do enredo da Mangueira, em homenagem a Marielle Franco? Ou a satisfação em assistirmos o desfile e fotos do “Presidente Vampiro”, criado pela escola Paraíso do Tuiuti? E o que dizer , da graça de compartilharmos marchinhas antifascistas, feministas, sexodiversas?

Vale a pena considerar que vacilamos e limitamos nossa luz e força carnavalescas. Por que não construímos um carnaval muito poderoso, legítimo e pertinente, que orientasse as pessoas a ficarem em casa? Um carnaval em defesa do SUS, um carnaval que exigisse o Plano de Vacinação. Podíamos ter composto marchinhas, ressignificado nossas máscaras (afinal, as máscaras sempre foram coisa de carnaval), criado estandartes, enfeitado as nossas ruas e esquinas.

Se pactuamos com a narrativa anticarnaval, a agenda da intolerância triunfou. Devíamos, ao invés disto, ter valorizado as diversas perspectivas do carnaval e nos comprometermos ao nosso dever de recriá-lo. Esta reinvenção poderia ter inúmeros benefícios. Como mencionamos, para Saúde, para Economia e também, para nossa cidadania.

Que há de relação entre carnaval e Saúde? De acordo com a OMS, “Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade”. Ao realizarmos o carnaval, estamos em afinidade com esta perspectiva de cura, através da criação, da liberdade, da vida coletiva e comunitária. Para milhões de pessoas, este “completo estado de bem-estar físico” é conquistado, justamente nos ensaios, cortejos, desfiles e troças. O carnaval é uma importante ferramenta de convívio social, de afeto, de humanização.

E o que dizer da Economia? O Governo do Distrito Federal apontou que, em 2020, o carnaval gerou mais de 20 mil postos de emprego (fonte: Agência Brasília). Podemos fazer uma analogia com a saída da Ford do Brasil, que levou ao desemprego de 5 mil pessoas. Só no DF, neste fevereiro de 2021, o cancelamento do carnaval equivale ao fechamento de 4 operações das fábricas da Ford.

E aqui também cabe uma reflexão sobre o desmonte das Políticas Públicas de Cultura, desde o golpe de 2016 e sobretudo na atual gestão do governo federal e a aferição de dados referentes à economia do carnaval. Fato é que esta iniciativa foi preterida por gestores públicos da Cultura. De maneira pouco articulada, prefeituras das cidades que realizam carnavais de grande porte têm anunciado editais de auxílio a trabalhadoras e trabalhadores de carnaval. Será o bastante?

Algo marcante também neste carnaval de 2021 é o luto. O luto de muitas comunidades, famílias, artistas, brincantes — afinal são centenas de milhares de vítimas. Esse ano nos convida a humanizar mais ainda nossas realizações. E, justamente, porque enfrentamos esta tragédia, precisamos ter certeza que necessitamos da vacina.

Que reinventemos o carnaval! Vamos criar um carnaval que permita o isolamento social e ao mesmo tempo fortaleça nossas lutas, com saúde e afeto. Um carnaval que incentive as pessoas a ficar em casa. Pode ocorrer através da apropriação de ferramentas tecnológicas. E sabemos das condições impostas pelas corporações tecnológicas e midiáticas, suas estratégias pela manutenção de mais consumo, individualismo, egoísmo, desigualdades sociais e sofrimentos psíquicos. O carnaval é, justamente, nosso antídoto genuíno e orgânico a estas estratégias desumanas.

Para nossa alegria, muitos blocos de carnaval anunciam suas atividades online, neste fevereiro de 2021. Em casa, na janela, na TV, no rádio, no celular, no computador. E quem não tem memória de brincar carnaval em casa? Para nossa sorte, existem várias formas de nos conectar, de manter o isolamento social sem perder o convívio.

Fato é que não podemos aceitar que a incompetência no enfrentamento à pandemia e a negligência dos planos de vacinação resultem no cancelamento do nosso maior tesouro da Cultura. Porque isto também é uma forma de desmonte das políticas culturais. Vamos entregar a eles até o carnaval?

Sabemos que foram as Artes e a Cultura que humanizaram os períodos de grandes tragédias enfrentadas pela humanidade. E o Brasil é o epicentro da tragédia do novo milênio, mas possui o mais lindo fazer artístico da História da humanidade: o carnaval. A vacinação já começou, em várias cidades do país (por mérito dos governos e prefeituras locais). Sabemos que vai levar tempo para imunizar toda a sociedade. Enquanto isso, seguimos a sabedoria das mulheres zapatistas: “pactuamos viver, para nós viver é lutar”.

Sigamos com inspiração nos movimentos que lutam por um mundo mais justo e igualitário. Precisamos apreciar cada pessoa que contribuiu e dedicou a vida pela Saúde Pública, pela Educação, pela mobilidade, pelos direitos Econômicos, pela Cultura. O desmonte de políticas públicas que o Bolsonarismo promove, numa velocidade alarmante, também é uma forma de matar a memória e a alma do nosso povo, pessoas que dedicaram a vida para que tivéssemos direitos, dignidade, democracia, benefícios, melhorias e oportunidades no Brasil.

Apreciar o carnaval, na totalidade do que é este nosso tesouro, é também promover apreciação por nós, pelo nosso povo. Manter nossa identidade e defender a vida. É a essência do fazer carnavalesco: compartilhamento, alegria, solidariedade, criação, afeto. Precisamos desses ingredientes para que o Brasil volte a respirar. Carnaval é nosso respiro.

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