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Por que o Deep State dos Estados Unidos não irá perdoar a Rússia e o Irã

Do Brasil 247, 29 de janeiro de 2021
Por Pepe Escobar, para o Asia Times, Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais


Irã protesta por assassinato do general Soleimani (Foto: Sputnik)


Uma explicação sobre por que os neocons dos EUA e facções poderosas do Deep State jamais "perdoarão" o Irã e a Rússia por tudo o que aconteceu na Síria - independentemente de outras ações que venham a ser tomadas pelos novos operadores do novo governo-holograma de Washington

Em uma estarrecedora entrevista à rede al Mayadeen, com sede em Beirute, o secretário-geral do Hezbolá, Hassan Nasrallah, descreveu sucintamente a forma pela qual o Major-General Qassem Soleimani – assassinado pelos Estados Unidos com um ataque de drone no aeroporto de Bagdá pouco mais de um ano atrás – teve um papel da maior importância na tarefa de convencer a Rússia a dar ajuda militar à Síria na guerra contra os salafi-jihadistas.

Nasrallah narra a visita crucial do Major-General Soleimani a Moscou, em 2015, onde ele teve uma reunião cara a cara de duas horas com o Presidente Putin:

(Nessa reunião) ele (Soleimani) apresentou (a Putin) um relatório estratégico (amplo) sobre a situação na Síria e na região (e explicou) a ideia sendo proposta e os resultados esperados. É claro que (na reunião) ele usou uma linguagem científica, objetiva, militar e de campo de batalha, (baseando suas afirmativas) em mapas, áreas terrestres, números e estatísticas. Nessa reunião, O Presidente Putin disse a Hajj (Qassem): "Estou convencido", e a decisão (de iniciar a participação militar russa na Síria foi tomada. Foi isso que ouvi de Hajj Soleimani.

Nasrallah coloca também um detalhe importante: todo o processo já estava em andamento, a pedido da Síria.

Veja, sou bastante objetivo e racional. Não gosto de criar mitos. Não é exato dizer que Hajj Qassem Soleimani (sozinho) foi o único a convencer Putin a intervir (na Síria). Prefiro dizer que graças à sua leitura estratégica (dos acontecimentos), sua argumentação, sua irresistível lógica e sua personalidade carismática, Hajj Qassem Soleimani conseguiu trazer uma contribuição da maior importância a todos os esforços anteriores que levaram a Rússia a se decidir a vir para a Síria. Grandes esforços haviam sido feitos (antes), e muitas discussões haviam ocorrido, mas o Presidente Putin continuava hesitante.

Nasrallah acrescenta que Soleimani "tinha grande habilidade na arte da persuasão e tinha uma lógica (impecável). Ele não usou de argumentos moralistas para convencer a Rússia (a entrar na guerra), nem usou de retórica (vazia). De modo algum. Ele usou de linguagem científica, ao explicar os (possíveis) resultados militares no campo de batalha, e também os resultados políticos da intervenção (russa na Síria).

É tudo uma questão de inteligência no terreno

Vamos agora colocar tudo isso em contexto. Putin é um grão-mestre do xadrez geopolítico. Nasrallah observa que havia "algumas autoridades militares, de segurança e políticas" presente na reunião. O que sugere o Ministro da Defesa russo, Sergey Shoigu e, em especial, o principal estrategista, Nikolai Patrushev.

Todos eles, já em 2015, tinham perfeito conhecimento de que, em última análise, a meta de deixar que o ISIS/Daesh infestasse a Síria - sincronizada à campanha "Fora Assad" - era a de criar condições para que um falso califado chegasse ao poder, se espalhasse até o Cáucaso e desestabilizasse a Rússia. Essa certeza se encapsulava na fórmula russa "são apenas 900 quilômetros de Alepo até Grozny'.

O mérito de Soleimani foi o de saber vender a ideia de forma cabal. Com base em sua vasta experiência no terreno, ele sabia que apenas uma frente de resistência não seria capaz de proteger Damasco. O "segredo" dessa reunião de duas horas em Moscou foi Soleimani conseguido deixar abundantemente claro que o estágio seguinte do falso califado seria dirigido contra a fronteira vulnerável da Rússia, e não contra o Irã.

A decisão de Moscou pegou o Pentágono e a OTAN proverbialmente de surpresa: os atlanticistas não esperavam que um cerrado contingente da força aérea russa e um esquadrão de consultores militares de primeira linha, em um piscar de olhos, entrassem em ação na Síria.

Mas pode-se argumentar que a decisão política já havia sido tomada. Uma operação militar desse grau de complexidade exige um planejamento exaustivo - que teve lugar antes da visita de Soleimani. Além do mais, a inteligência russa conhecia todos os detalhes do estado de guerra no terreno e sabia que o Exército Árabe Sírio estava percebendo com clareza o esgotamento de sua capacidade de ação.

O que Soleimani colocou sobre a mesa foi uma coordenação absolutamente sem preço. Tendo como principais tropas de choque comandantes do Hezbolá, consultores do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, diversas milícias de liderança iraniana, conjuntamente com os Tigres Sírios, e secundadas por Forças Especiais de elite russas, intervindo tanto no deserto quanto em áreas urbanas saturadas - todas capazes de lançar com precisão cirúrgica ataques aéreos russos contra o ISIS/Daesh e os "rebeldes moderados" reconvertidos da al-Qaeda.

Soleimani sabia que para ganhar essa guerra ele precisava de poder aéreo - e ele, por fim, conseguiu atender a essa exigência, coordenando à perfeição o trabalho de solo/inteligência de diversos exércitos com o escalão superior do Estado Maior russo.

Tendo começado nessa decisiva reunião de 2015, a aliança entre Soleimani e as forças armadas russas evoluiu para proporções inabaláveis. Mais tarde, o Pentágono e a OTAN passaram a ter plena consciência de como Soleimani, sempre o supremo comandante de campo de batalha, trabalhava em grande proximidade tanto com Bagdá quanto com Damasco, com o objetivo de expulsar definitivamente as tropas dos Estados Unidos do Iraque. Essa foi a principal, e não tão secreta razão de seu assassinato.

Tudo o que foi dito acima explica por que os neocons dos Estados Unidos e facções poderosas do Deep State jamais "perdoarão" o Irã e a Rússia por tudo o que aconteceu na Síria - independentemente de outras ações que venham a ser tomadas pelos novos operadores do novo governo-holograma de Washington.

Os sinais, até o momento, apontam para uma proverbial e incessante demonização da Rússia, para a manutenção das sanções ilegais do governo Trump contra as exportações de energia iranianas e para nenhuma perspectiva de admitir que a Rússia, o Irã e o Hezbolá prevaleceram na Síria.

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