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Os símbolos nacionais e a desconstrução da nação

Os símbolos nacionais e a desconstrução da nação
Seguimos à deriva numa nave sem comandante e sem carta de navegação


Da Carta Maior, 28 de Janeiro 2021
Por Silvio Tendler


Créditos da foto: (Reprodução/bit.ly/3r1l7mE)

Graciliano Ramos escreveu que o esporte nacional não deveria ser o futebol mas a rasteira, esporte pelo qual passar a perna no próximo é virtude.

Furar a fila para a vacina ou engavetar 60 pedidos de impeachment não fazem diferença. Trata-se da construção do Estado de bem estar individual.

A política deixou de ser um programa de ação ideológico para converter-se num trampolim de sucesso pessoal.

A transferência de renda dos pobres para os ricos, cuja diversão é acumular fortunas, é encarada com naturalidade.

A solidariedade é praticada com a parcimônia necessária para não aparentarmos indiferença diante da miséria alheia.

Quando ligo a televisão e vejo os comentaristas políticos e especialistas discutindo a estratégia de vacinação contra o coronavirus me sinto o mico leão dourado ou a ararinha azul da vez, espécies em extinção.

Nunca a humanidade esteve tão ameaçada, enquanto o gado segue passando. Nesse momento, milhões de pessoas passam necessidades; dormem pelas ruas, catam comida no lixo enquanto um "investidor" termina de ganhar seu primeiro milhão do dia, no cassino financeiro.

Nos anos 50 o projeto desenvolvimentista de JK modernizou o país. Em 1960, Juscelino entregou um país moderno e democratizado.

Em 1961, João Goulart, o vice-presidente de Jânio Quadros foi à China em missão oficial. Foi o primeiro dirigente político ocupando o executivo de um país ocidental a visitar a China, em plena Guerra Fria.

Lá conheceu Mao Ze Dong e o projeto chinês de desenvolvimento. No Museu da Revolução aprende que "a Golpes de foice e machado construiriam um mundo novo". Ali, nos anos 60, viu o futuro nascendo.

A história brasileira parece código morse quando a democracia brasileira é entrecortada por óbices, intervenções e golpes militares: 54, 55, 56, 59, 61, 64, 65, 68, 77, etc, etc, etc.

Prisões, cassações, exílios, empastelamento de jornais, atentados, tortura, assassinatos, desaparecimento de opositores, fechamentos do congresso, do Supremo, intimidações, deposições de presidentes da República, assassinato de operários, invasão de favelas, interferência no processo eleitoral - antes que me perguntem cito a ameaça do General Villas Bôas ao STF, etc, etc, etc.

Enquanto a nação purga uma política econômica desastrosa, o desmantelamento do parque industrial, o desemprego, a inflação, a destruição da educação, da arte, da cultura e da ciência, os militares recebem uma fortuna para promover uma festa de arromba, com direito a pizza, pudim de leite condensado e "chiclé".

Na França, durante os anos 70, o exército francês tentou desapropriar pequenas propriedades rurais na região do Larzac, para expandir um campo de treinamento militar. Um amigo documentarista, Philippe Haudiquet, resolveu fazer um documentário. Perguntei a razão do filme e ele me explicou, "por uma questão de civilidade".

Poupem os símbolos nacionais desse mais recente vexame e adotem a bandeira furta-cor como símbolo dessa desgovernança. Seguimos à deriva numa nave sem comandante e sem carta de navegação.

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